Já sabe quais estabelecimentos bolsonaristas deve boicotar? A resposta é simples: nenhum!

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Por Dr Gustavo Cabral*

Nos últimos dias, as redes sociais foram tomadas por listas de estabelecimentos comerciais que deveriam ser boicotados por supostamente terem apoiado Lula. A iniciativa, impulsionada por grupos bolsonaristas após as eleições, ultrapassou os limites da divergência política e chegou a algo ainda mais preocupante: campanhas incentivando empresários a não contratar ou até demitir trabalhadores por suas preferências eleitorais.

As denúncias ganharam repercussão nacional, com relatos de comerciantes ameaçados, profissionais expostos publicamente e pedidos de investigação por possíveis práticas discriminatórias.

Diante desse cenário, surge uma pergunta: devemos responder na mesma moeda, criando listas de estabelecimentos bolsonaristas para também boicotá-los?

Minha resposta é simples: não!

E a razão é ainda mais simples: não podemos boicotar a nós mesmos.

Por trás de cada restaurante, supermercado, farmácia, padaria ou qualquer outro estabelecimento existem trabalhadores. São cozinheiros, garçons, atendentes, caixas, auxiliares de limpeza, entregadores e tantos outros profissionais que acordam cedo, enfrentam transporte público, pagam contas e trabalham para sustentar suas famílias.

São pessoas como eu e você que está lendo este texto.

Independentemente das convicções políticas de seus proprietários, esses estabelecimentos empregam pessoas com diferentes pensamentos, histórias e necessidades. Quando estimulamos um boicote indiscriminado, precisamos lembrar que suas consequências podem atingir justamente aqueles que mais precisam do emprego.

E não é por essas pessoas que lutamos?

Afinal, qual é a nossa luta?

O movimento progressista não pode perder de vista aquilo que fundamenta sua existência.

Nossa luta é contra a fome, a miséria, o desemprego e a desigualdade social. É contra o racismo, a misoginia, a LGBTfobia, a intolerância religiosa e todas as formas de preconceito e discriminação.

Lutamos por educação pública de qualidade, saúde acessível, moradia digna, valorização do trabalho, direitos sociais, preservação ambiental e oportunidades para todos.

Lutamos para que ninguém seja excluído por sua origem, condição econômica, religião, identidade ou posicionamento político.

Nossa luta é para incluir, não para excluir. Para construir pontes, não para erguer novos muros.

Não podemos reproduzir aquilo que criticamos.

É profundamente preocupante observar movimentos que defendem a perseguição econômica de comerciantes e a exclusão profissional de trabalhadores simplesmente porque votaram em determinado candidato.

A liberdade de pensamento e a participação política são direitos fundamentais. Ninguém deveria perder seu emprego, ser impedido de trabalhar ou sofrer ameaças por exercer seu direito ao voto.

A legislação brasileira, inclusive, proíbe a discriminação no trabalho por opinião política.

Precisamos condenar essas práticas com firmeza. Mas condená-las não significa reproduzi-las contra quem pensa diferente.

É importante distinguir a decisão individual de não consumir determinada marca, por razões éticas, de campanhas organizadas para perseguir pessoas por suas convicções políticas. Também não significa tolerar empresas que pratiquem discriminação, violem direitos trabalhistas ou incentivem a violência. Essas condutas devem ser denunciadas e responsabilizadas.

Entretanto, transformar a preferência eleitoral em critério para decidir quem merece trabalhar, vender ou participar da sociedade é um caminho perigoso para qualquer democracia.

Nossa resposta deve ser melhor que a provocação.

A indignação diante da intolerância é compreensível. Mas a indignação, sozinha, não transforma a sociedade.

Precisamos compreender que mudanças duradouras não acontecem apenas pela derrota eleitoral de um adversário. Elas exigem educação, conscientização, diálogo e, sobretudo, políticas públicas capazes de melhorar concretamente a vida das pessoas.

Isso não significa abrir mão das nossas convicções, relativizar ataques à democracia ou deixar de combater discursos discriminatórios.

Significa reconhecer que nem toda pessoa que pensa diferente é nossa inimiga. Muitas vezes, compartilhamos os mesmos problemas: o salário insuficiente, o custo de vida elevado, a dificuldade de acesso à saúde e o desejo de oferecer um futuro melhor aos nossos filhos.

É justamente a partir dessas necessidades comuns que podemos construir diálogos e promover mudanças.

Não precisamos convencer todos a pensar como nós. Precisamos defender uma sociedade em que todos tenham direitos, inclusive aqueles que discordam de nós.

Democracia não combina com revanche

A democracia não existe apenas para garantir os direitos de quem vence uma eleição. Sua verdadeira força está em assegurar que aqueles que pensam diferente também possam viver, trabalhar, expressar suas opiniões e participar da sociedade.

Defender a democracia exige coerência, especialmente quando somos provocados a abandonar nossos próprios princípios.

Por isso, antes de compartilhar uma lista de estabelecimentos para boicotar, vale refletir sobre quem poderá ser prejudicado e sobre qual sociedade queremos construir.

Se queremos um país com menos desigualdade, não podemos estimular práticas que ampliem a exclusão. Se defendemos o emprego, não podemos comemorar a possibilidade de trabalhadores perderem sua renda por disputas partidárias. Se combatemos o preconceito, precisamos rejeitar a discriminação, independentemente de quem a pratique.

Nossa luta não é para substituir uma intolerância por outra. É para superar a intolerância.

Portanto, se alguém perguntar quais são os estabelecimentos bolsonaristas que devemos boicotar, minha resposta continuará sendo: não preciso dessa lista.

Prefiro saber onde existem pessoas precisando de emprego, famílias passando fome, crianças sem acesso à educação e cidadãos privados de seus direitos. Porque é contra essas injustiças que precisamos direcionar nossas energias.

A democracia que defendemos não pode ser apenas uma bandeira levantada durante as eleições. Ela precisa estar presente nas nossas atitudes, inclusive na maneira como tratamos aqueles que pensam diferente.

E, acima de tudo, precisamos lembrar: Nossa luta não é contra pessoas. É por pessoas.

*Prof Dr Gustavo Cabral é Imunologista PhD pela USP, Pós-Doutor pela Universidade de Oxford, Inglaterra e Pós-Doutor Sênior pelo Hospital Universitário de Bern, Suíça. Atualmente é líder de pesquisa na Faculdade de Medicina da USP, na área de desenvolvimento tecnológico de vacinas, e também Colunista de Saúde no ICL.





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