Aliados de Lula fazem ofensiva contra pressão do mercado financeiro às vésperas do Copom

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Por Adriana Fernandes e Nathalia Garcia

(Folhapress) – Após o tombo dos ativos financeiros na semana passada em reação à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), integrantes do governo e do PT intensificaram uma ofensiva contra o que classificam de “chantagem, terrorismo e especulação” do mercado financeiro, com críticas à cobrança de ajuste fiscal.

A investida começou com o ex-ministro da Casa Civil e senador eleito pela Bahia Rui Costa, que na sexta-feira (30) criticou o setor financeiro, dizendo que esses agentes também precisam pensar no país.

“O Brasil precisa discutir o setor financeiro, aqueles que fazem formação de preço, formação de expectativas. Eles precisam também pensar no país”, disse Rui em entrevista ao portal Metrópoles. “Tem muito, na minha opinião, de especulação, de busca de ganhos extraordinários.”

O ex-ministro, que participou da campanha do presidente, não especificou como se daria essa discussão, mas deu como exemplo o caso de um detentor de um contrato de pavimentação de uma rua que tivesse o poder de formar expectativas sobre o preço do asfalto.

O interesse desse empresário estaria em aumentar as expectativas de preço para que o governo pagasse mais caro pelo asfalto no futuro.

No sábado (31), foi a vez de o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos (PSOL), abordar o tema. Em entrevista à Folha de S. Paulo, o ministro disse ver chantagem do mercado no debate sobre ajuste fiscal no novo governo e afirmou que os cortes devem mirar privilégios, não o “lombo dos mais pobres”.

“Você não pode contrapor uma chantagem de mercado à vontade popular. Isso é anular a democracia”, disse. Para Boulos, a receita para economizar inclui discutir temas como desonerações fiscais, supersalários e emendas parlamentares impositivas.

O presidente do PT, Edinho Silva | Crédito: Rodrigo Chagas/Brasil de Fato
O presidente do PT, Edinho Silva | Crédito: Rodrigo Chagas/Brasil de Fato

Contra o “tesouraço”

A estratégia dos petistas busca, segundo relatos de integrantes do governo ouvidos pela reportagem, reforçar nas redes sociais as críticas contra o mercado financeiro e o discurso contra a ideia de “tesouraço” dos programas sociais. O presidente Lula gravou um vídeo, divulgado neste domingo (1º) no X, para dizer que não vai cortar nenhum programa social e que há fake news da oposição sobre o tema.

No mesmo dia, a ex-presidente do PT e ex-ministra de Relações Institucionais Gleisi Hoffmann usou a discussão sobre um artigo do economista André Lara Resende, um dos pais do Plano Real, publicado em 25 de setembro, para criticar o mercado financeiro.

Gleisi disse que o artigo era fundamental para enfrentar o que chamou de ofensiva terrorista sobre a política fiscal brasileira. “Acuso os analistas do mercado financeiro de confundir o interesse dos rentistas com a racionalidade econômica”, diz um trecho de sua publicação.

Diante da repercussão negativa sobre o rumor de que Lara Resende se reuniria com Lula, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, negou que estivesse no radar do governo um tabelamento de juros.

O presidente do PT, Edinho Silva, disse que as especulações na área econômica não colaboram com o país e só fazem o jogo “dos oportunistas do mercado, daqueles que apostam contra o governo Lula, contra o futuro do país”.

“O único que fala em nome do governo Lula na política econômica é o ministro Dario Durigan”, disse Edinho em nota enviada à reportagem neste domingo.

A primeira semana após a reeleição de Lula foi a que registrou as maiores desvalorizações do ano. A Bolsa, que chegou a atingir o patamar histórico de 200 mil pontos neste mês, recuou 17,5% na semana. É o maior recuo desde a semana encerrada em 20 de março de 2020, que marcou o início da pandemia do coronavírus.

A ofensiva de autoridades ligadas ao governo Lula ocorre às vésperas do próximo encontro do Copom (Comitê de Política Monetária), que decide na quarta-feira (4) o nível da taxa básica de juros, a Selic, hoje em 13,75% ao ano.

Expectativa de interrupção do corte de juros

A aposta da maioria dos economistas é que o colegiado do BC interrompa o ciclo de cortes de juros, iniciado em março, depois da turbulência no cenário doméstico provocada pela reeleição de Lula.
Fatores como a depreciação da taxa de câmbio, a incerteza fiscal e o estresse gerado nos juros futuros tornaram o cenário mais desafiador para o controle da inflação e justificam uma postura mais cautelosa da autoridade monetária, na visão dos agentes econômicos.

Esse conservadorismo, contudo, desagrada aos membros do governo Lula, que argumentam que os juros elevados atrapalham o crescimento da economia e são responsáveis pela inadimplência recorde e pela crise de empresas, como as grandes varejistas.

Em sabatina ao SBT, no último dia 19, o presidente Lula voltou a criticar a ideia de autonomia do Banco Central e afirmou que essa configuração amplia a influência do mercado financeiro sobre a condução da política econômica do país.

“Não precisava ser independente porque, na medida em que o governo indica, o governo tem que discutir a política monetária com o Banco Central. Você não pode ser presidente da República e não poder discutir a política monetária, porque o Banco Central é independente”, disse Lula.

“Quem discute? O sistema financeiro. É isso que faz pressão todo santo dia. Pressão todo santo dia. Começa janeiro falando em déficit fiscal e terminando o ano falando em déficit fiscal. Só não fala do que o governo paga para eles todo ano”, acrescentou.

A lei da autonomia do BC, aprovada em 2021, estabelece que a indicação dos membros da diretoria colegiada cabe ao presidente da República. Para blindar o BC de interferência política na definição da Selic, os mandatos dos dirigentes da autarquia não são coincidentes com o do chefe do Executivo.





ICL Notícias

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