Por Jamil Chade e Cleber Lourenço
A fuga de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) do Brasil contou com o apoio do governo de Donald Trump e era conhecida pelas mais altas instâncias da Casa Branca, segundo informações obtidas pelo ICL Notícias junto a fontes oficiais brasileiras. O senador teria recebido instruções para seguir à Flórida, nos Estados Unidos, em uma operação iniciada na noite de segunda-feira (26), um dia depois de sua derrota nas eleições presidenciais. Fontes da área de inteligência brasileira também suspeitam que autoridades argentinas tenham auxiliado na operação.
As informações indicam que o envolvimento americano não teria se limitado à disposição de receber o senador em território dos Estados Unidos. Segundo os relatos, integrantes da administração Trump teriam prestado apoio à operação destinada a retirar Flávio do Brasil, apesar das restrições judiciais impostas pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
A orientação para seguir à Flórida é um dos elementos centrais da apuração. O estado americano teria sido definido como destino da operação, embora ainda não esteja esclarecido quem transmitiu as instruções ao senador, quais autoridades participaram diretamente do planejamento e se o próprio Donald Trump autorizou a iniciativa.
A informação sobre o destino de Flávio ganhou uma confirmação independente nesta terça-feira (27). Uma autoridade americana informou à agência Reuters que o senador estava a caminho dos Estados Unidos.
Inteligência suspeita de participação argentina
Fontes da área de inteligência brasileira afirmam que a fuga começou a ser executada na noite de segunda-feira. Há suspeitas de que autoridades argentinas tenham prestado algum tipo de auxílio à operação, embora ainda não esteja estabelecido como essa eventual colaboração teria ocorrido.
A possibilidade de participação argentina ganhou relevância depois que o portal Infobae publicou informações sobre uma aeronave da empresa Baires Fly que estaria preparada para transportar Flávio de Puerto Iguazú, na Argentina, aos Estados Unidos.
O avião, um Gulfstream G400 de matrícula LV-JQW, chegou ao aeroporto argentino na noite de segunda-feira. A aeronave, entretanto, não realizou a decolagem inicialmente prevista, e não há confirmação de que Flávio tenha embarcado nela.
O governo de Javier Milei negou oficialmente que o senador tenha ingressado no território argentino. A Direção Nacional de Migrações informou que não encontrou registros de entrada de Flávio e que a documentação da aeronave inspecionada estava regular. Também afirmou que nenhum plano de voo apresentado incluía integrantes da família Bolsonaro.
As negativas argentinas contrastam com as suspeitas relatadas pelas fontes de inteligência brasileiras. A eventual participação de agentes públicos argentinos permanece sob apuração, sem identificação das autoridades que poderiam estar envolvidas.
Fuga ocorreu após ordem de Moraes
A operação teria começado horas depois de Flávio Bolsonaro ser intimado pela Polícia Federal a entregar seus passaportes, por determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.
A medida foi adotada no âmbito de uma investigação que envolve o senador e o empresário e advogado Willer Tomaz, relacionada a suspeitas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas.
Na segunda-feira, Flávio divulgou um vídeo afirmando que cumpriria a determinação judicial. Disse que não pretendia deixar o Brasil e classificou a decisão como uma tentativa de intimidação.
O senador, entretanto, não entregou seus passaportes até o prazo estabelecido, ao meio-dia desta terça-feira. Diante do descumprimento, a Polícia Federal cancelou os documentos.
A ausência de registros regulares de saída do país passou a ser uma das principais questões da investigação. Segundo informações divulgadas pela Reuters, a Polícia Federal não identificou a passagem do senador pelos postos oficiais de controle migratório.
O fato de não haver registro formal de saída não permite, isoladamente, determinar qual rota foi utilizada. Também permanece desconhecido se o senador embarcou em uma aeronave privada, atravessou alguma fronteira terrestre ou utilizou outro meio de transporte.
Participação americana amplia dimensão diplomática
A informação de que a operação era conhecida pelas mais altas instâncias da Casa Branca acrescenta uma dimensão política e diplomática ao episódio.
O governo Trump mantém uma relação próxima com a família Bolsonaro. Em maio deste ano, Flávio esteve nos Estados Unidos e se reuniu com o presidente americano na Casa Branca.
Agora, segundo as fontes oficiais ouvidas pelo ICL, a administração americana teria desempenhado um papel ativo na operação que permitiu a saída do senador do Brasil.
A distinção é importante. Uma eventual concessão de asilo político constitui uma decisão soberana do governo americano. Já a participação de autoridades estrangeiras na organização de uma fuga destinada a contornar restrições judiciais brasileiras poderia provocar um conflito diplomático de maior alcance.
A possível colaboração de autoridades argentinas ampliaria ainda mais as consequências do episódio, especialmente diante da proximidade política entre Donald Trump e Javier Milei.
As circunstâncias da saída de Flávio, a identificação dos responsáveis pela operação e o eventual envolvimento de órgãos oficiais estrangeiros são questões que permanecem abertas.
A fuga ocorre apenas dois dias depois da derrota de Flávio Bolsonaro para Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em uma eleição cujo resultado o senador contestou publicamente. Seu partido, o PL, reconheceu a vitória do presidente na segunda-feira.
O esclarecimento da participação dos governos americano e argentino poderá determinar se o episódio ficará restrito à investigação sobre o descumprimento de uma decisão judicial ou se abrirá uma crise diplomática envolvendo o Brasil e dois de seus principais parceiros no continente.



