Universidade-do-ritmo-um-novo-tempo-para-a-bateria-da-aparecida

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Durante décadas, a Bateria da Aparecida construiu uma história que se confunde com a própria trajetória da escola. São 12 Estandartes de Ouro, inúmeras notas 10 e 25 conquistas que ajudaram a transformar a chamada Universidade do Ritmo em uma das referências do Carnaval amazonense. Mas, por trás dos troféus e da tradição, havia uma realidade que precisava ser enfrentada: uma bateria reconhecida por sua força musical ainda não possuía a estrutura necessária para preservar instrumentos, organizar seus processos e preparar o futuro.

Foi a partir dessa constatação que Mestre Paulinho decidiu mudar a maneira de administrar a bateria.
Em dois anos, Mestre Paulinho reorganiza setores, recupera instrumentos, cria sistema de gestão, amplia formação de ritmistas e prepara uma estrutura que pretende deixar como legado para as próximas gerações

O trabalho começou pela organização. A direção foi dividida em setores específicos, envolvendo ritmo, gestão e finanças e comunicação. Cada área passou a trabalhar com metas próprias, enquanto a direção da bateria buscava recuperar algo que, para Paulinho, era tão importante quanto qualquer instrumento: a identidade.

A prioridade era encontrar um andamento confortável, evitar oscilações durante o desfile e recuperar uma característica histórica da Aparecida: a capacidade de inovar.

A bateria que, no passado, surpreendeu com evoluções de tamborins e ajudou a estabelecer novas linguagens para as baterias de Manaus precisava reencontrar esse DNA. A inovação, na visão do mestre, não poderia ser apenas uma lembrança histórica. Precisava voltar a fazer parte do presente.

Mas a transformação não ficaria restrita ao ritmo.

 

A primeira mudança foi fazer a bateria voltar a se sentir em casa

Em 2025, uma das principais decisões foi recuperar o sentimento de pertencimento dos ritmistas. A Bateria ganhou novamente seu espaço próprio dentro da escola, transformando o antigo camarote em um território destinado aos integrantes.

A ideia era simples: quem entrega suor, tempo e talento para a escola precisa também sentir que pertence a ela.

Foi nesse processo que surgiu uma das decisões que melhor traduzem a filosofia implantada por Paulinho: os ritmistas não deveriam pagar pelas próprias camisas.

A direção conseguiu viabilizar cinco jogos de camisas distribuídos gratuitamente aos integrantes, além de ações sociais que chegaram à distribuição de 100 cestas básicas no período. Para 2026, a meta apresentada pela direção é chegar a 200.

Ao mesmo tempo, a bateria passou a buscar recursos próprios.

Os valores arrecadados com apresentações e shows começaram a ser organizados, com definição de percentuais destinados aos ritmistas, músicos e à própria manutenção da bateria. O resultado foi a criação de uma estrutura financeira capaz de ajudar a custear ensaios, materiais e equipamentos.

O que antes dependia exclusivamente de recursos externos passou a ter também uma engrenagem própria.

E foi aí que chegaram os parceiros.

Empresas e apoiadores passaram a se juntar ao projeto, permitindo investimentos que, até então, pareciam difíceis de realizar. Foram seis novas parcerias no primeiro ano, entre elas nomes como Janmes Souza, APA Móveis, Safe Life, Casa de Jorge e Casa do Eletricista, segundo o relato da direção.

O dinheiro, entretanto, não era o objetivo final.

Era ferramenta para devolver dignidade à bateria.

O instrumento como símbolo da transformação

Quando a nova gestão encontrou a bateria, parte significativa dos instrumentos estava sucateada. E havia uma pergunta que sintetizava o problema: como exigir o melhor de um ritmista se ele não tinha nas mãos um instrumento em condições de entregar o seu melhor?

A resposta veio com investimento.

Entre 2025 e 2026, a bateria avançou na renovação de seu acervo. Cerca de 60% a 70% dos instrumentos foram rejuvenescidos no primeiro ciclo, com diferentes níveis de renovação entre os naipes. A adesivagem dos instrumentos também foi renovada, dentro de uma identidade visual que passa a dialogar com a nova estrutura física da bateria.

Mais importante do que comprar instrumentos, porém, foi criar mecanismos para impedir que eles voltassem a desaparecer.

Em 2025, nenhum instrumento foi perdido, segundo o relato da direção.

A diferença está no controle.

Uma bateria que passou a conhecer os próprios ritmistas

Talvez uma das mudanças menos visíveis para quem está do lado de fora seja também uma das mais importantes.

A Bateria da Aparecida passou a contar com um sistema próprio de gerenciamento.

Nele estão reunidas informações sobre os ritmistas, quantidade de integrantes, formação, localização, aniversários, menores de idade e tamanhos de roupas e calçados, além de mecanismos de prestação de contas.

É uma mudança de conceito.

A bateria deixa de ser administrada apenas pela experiência de quem está à frente e passa a trabalhar também com informação organizada.

Para Paulinho, transparência e gestão não são detalhes administrativos. São parte da construção de uma bateria profissional.

E essa organização chegou também aos ensaios.

Os ensaios de naipes foram fortalecidos e voltaram a atrair os ritmistas. Hoje, segundo o relato da direção, os menores ensaios reúnem aproximadamente 90 a 100 integrantes.

O número revela mais do que frequência.

Revela pertencimento.

Ritmistas voltaram a procurar os ensaios para aprender, aperfeiçoar batidas, trabalhar andamento e evoluir tecnicamente.

Uma pesquisa interna de satisfação reforçou a percepção da direção: aproximadamente 85% dos integrantes declararam estar muito satisfeitos, enquanto cerca de 14% demonstraram satisfação e apenas um integrante apareceu como insatisfeito.

24 + 51 NOVOS RITMISTAS

A formação de novos ritmistas também voltou a ocupar lugar estratégico.

Em 2025, foram 24 novos integrantes formados. Em 2026, o número saltou para 51.

São 51 jovens e novos ritmistas que passam a representar, na visão da direção, uma reserva técnica para os próximos anos da Universidade do Ritmo.

Não se trata apenas de colocar mais pessoas dentro da bateria.

Trata-se de garantir continuidade.

Uma bateria não sobrevive apenas de grandes mestres. Sobrevive quando consegue formar quem tocará depois deles.

2026: o ano da consolidação

Se 2025 foi marcado pela organização e pela implantação de mudanças, 2026 passou a ser tratado como o ano da consolidação.

E o próximo passo é estrutural.

Mesmo carregando 12 Estandartes de Ouro, inúmeras notas 10 e 25 conquistas, a bateria ainda não possuía uma sala própria capaz de oferecer as condições adequadas para guardar seus instrumentos.

Isso começa a mudar.

Está sendo estruturada uma sala de aproximadamente 76 metros quadrados, planejada especificamente para receber os instrumentos da bateria, com espaço adequado de armazenamento e iluminação própria para os surdos.

A sala não é apenas uma obra física.

É uma ferramenta de preservação.

Durante anos, instrumentos foram perdidos pela falta de um espaço adequado. Agora, a intenção é criar uma estrutura que permita controlar, conservar e organizar o patrimônio da bateria.

E, a partir dela, avançar também na parte técnica.

Afinação, qualidade de execução e precisão dos toques passam a ocupar ainda mais espaço na preparação da Universidade do Ritmo.

Vitor Medeiros (blusa cinza), vindo da Grande Rio do Ro de Janeiro para contribuir com a GRES APARECIDA.


A busca pela excelência saiu do ensaio e chegou ao conhecimento

A profissionalização também ganhou outra frente: a formação técnica.

A bateria já realizou um workshop de chocalho com Vitor Medeiros, da Grande Rio. Para o final de outubro, está previsto outro encontro, desta vez dedicado às caixinhas e aos tamborins.

A programação prevê ainda novos seminários e workshops voltados aos demais naipes.

É uma mudança importante.

A tradição continua sendo respeitada, mas deixa de ser tratada como algo imutável.

A Universidade do Ritmo passa a buscar conhecimento fora de Manaus para trazer novas experiências aos seus ritmistas.

    

 

Uma marca para vestir a própria história

Outra frente que começa a ganhar forma é a criação da loja da bateria.

Produtos próprios, identidade própria e uma marca registrada passam a fazer parte do projeto.

A ideia é que a bateria não seja apenas ouvida durante o Carnaval.

Que ela possa ser vestida, reconhecida e levada para além da avenida.

É também uma forma de transformar identidade em patrimônio.

O futuro começa na base

A formação de uma bateria mirim também está nos planos.

O projeto não será executado em 2026, mas a previsão apresentada pela direção é de retomada da bateria mirim no ciclo 2027–2028.

A lógica é a mesma que orienta a formação de novos ritmistas: preparar hoje aqueles que poderão sustentar a bateria amanhã.

Porque uma bateria campeã não pode pensar apenas no próximo Carnaval.

Precisa pensar nas próximas décadas.

“Uma bateria de nível nacional”

É essa a dimensão que Mestre Paulinho diz enxergar para o projeto.

Não uma bateria limitada à condição de referência local ou regional, mas uma Universidade do Ritmo preparada para buscar um padrão nacional.

A frase pode parecer ambiciosa. Mas ela encontra correspondência nas medidas adotadas desde 2025: organização administrativa, transparência, captação de recursos, recuperação de instrumentos, formação de ritmistas, capacitação técnica, criação de identidade própria e construção de uma estrutura física permanente.

Tudo isso aponta para uma mesma direção.

Transformar tradição em projeto de futuro.

 

O legado de Mestre Paulinho

Ao falar sobre esse período, Mestre Paulinho faz questão de dizer que não se trata de apagar o trabalho de quem esteve antes dele.

Ao contrário.

Ele reconhece a história construída pela bateria e entende que seu papel é acrescentar mais um capítulo.

Mas também não esconde o orgulho pelo que conseguiu realizar.

“Em um ano, evoluímos dez anos”, resume.

A frase traduz uma percepção pessoal sobre a velocidade das mudanças, mas também revela aquilo que parece ser o centro de sua passagem pela direção: deixar a bateria mais organizada do que encontrou.

Mais do que instrumentos novos, Paulinho quer deixar valores.

Honestidade. Comprometimento. Organização. Seriedade. Gestão.

Para ele, são esses princípios que precisam permanecer quando o comando mudar de mãos.

Por isso, quando pensa no futuro, o mestre não fala apenas de quem continuará seu trabalho. Fala da responsabilidade de quem vier depois.

Espera que o próximo mestre dê continuidade — ou faça ainda melhor. Que compreenda que os ritmistas precisam amar a bateria, amar a Aparecida, cuidar da escola e colocar a Soberana como prioridade.

É, talvez, a maior declaração de legado de todo o projeto.

Porque Paulinho não está trabalhando apenas para o desfile seguinte.

Está trabalhando para que a bateria tenha condições de existir, crescer e se renovar quando ele já não estiver à frente dela.

 

O mestre que decidiu organizar o futuro

Há uma diferença fundamental entre administrar uma bateria e construir uma bateria.

Administrar é resolver o Carnaval que está chegando.

Construir é pensar no Carnaval que ainda nem chegou.

Foi essa segunda escolha que marcou o trabalho de Mestre Paulinho.

Em 2025, ele organizou a casa. Recuperou o sentimento de pertencimento, buscou parceiros, estruturou a gestão, renovou instrumentos, retomou ensaios, fortaleceu a formação e devolveu aos ritmistas um espaço que voltava a ser deles.

 

Em pose com Hamilton Bandeira (in memoriam), que fez o convite para Mestre Paulinho conduzir a UR

Em 2026, começou a consolidar aquilo que havia sido implantado: uma nova sala, mais formação, capacitação técnica, novos projetos, uma marca própria e a preparação da bateria mirim.

O objetivo agora é que 2027 não seja apenas mais um ano de Carnaval.

Seja o começo de uma nova década.

Uma década construída sobre aquilo que Mestre Paulinho considera essencial: ritmo, estrutura, gestão, conhecimento, pertencimento e amor pela Aparecida.

A Universidade do Ritmo, afinal, sempre teve uma história grande demais para caber apenas em seus troféus.

Agora, sob a condução de Mestre Paulinho, a aposta é fazer com que o futuro esteja à altura dessa história.

E talvez essa seja a melhor forma de homenagear um mestre: não apenas reconhecer aquilo que ele fez, mas compreender o que ele está deixando para aqueles que ainda vão tocar depois dele.

 

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