Por Camila Modanez*
A suspensão do canal de WhatsApp do Exército do Lula, administrado pelo deputado federal André Janones e acompanhado por milhões de brasileiros, acendeu um alerta sobre um dos maiores desafios da mobilização política na era digital: a dependência das big techs. O episódio expõe uma fragilidade de partidos, movimentos sociais e campanhas eleitorais que constroem grandes audiências em plataformas, mas nem sempre desenvolvem canais próprios de relacionamento com essas pessoas.
Afinal, conquistar milhões de seguidores é importante, mas de que adianta todo esse alcance se, de uma hora para outra, podemos perder a capacidade de nos comunicar com essas pessoas?
Independentemente das circunstâncias jurídicas que levaram à suspensão do canal, o caso coloca uma questão que deveria estar no centro de qualquer estratégia de mobilização política: quem controla nossa capacidade de comunicação com as pessoas que mobilizamos?
As redes sociais são hoje territórios fundamentais da disputa política. Precisamos ocupá-las, compreender seus algoritmos, disputar narrativas e aproveitar seu enorme potencial de alcance. O problema não é utilizar as big techs para fazer política. O problema é depender delas para conseguir fazer política.
Quem trabalha com mobilização digital sabe que existe uma diferença fundamental entre alcançar pessoas e conseguir organizá-las. Uma campanha pode ter milhões de seguidores e produzir conteúdos de enorme repercussão, mas quantas dessas pessoas consegue contatar diretamente? Quantas consegue convocar para uma atividade? E quantas conseguiria mobilizar novamente se perdesse seu principal canal de comunicação?
Alcance não é sinônimo de organização política. Uma audiência só se transforma em força política quando existem vínculos capazes de produzir ação coletiva.
Em campanhas eleitorais, é comum vermos equipes dedicarem enormes esforços à produção de conteúdo e ao crescimento de perfis, enquanto a construção de bases de contatos fica em segundo plano. O resultado é que conseguimos alcançar milhões de pessoas durante uma eleição, mas muitas vezes não temos como voltar a falar com elas depois. Perdemos não apenas contatos, mas a oportunidade de transformar o engajamento de um momento em relações políticas duradouras.
Uma das principais tarefas de qualquer estratégia de mobilização digital deveria ser justamente transformar a audiência em relacionamento. Isso significa desenvolver mecanismos para que as pessoas possam estabelecer vínculos diretos com campanhas, partidos e movimentos sociais, por meio de cadastros em sites próprios, coleta consentida de telefones e e-mails, comunidades e sistemas de gestão de relacionamento.
Não se trata simplesmente de armazenar contatos em uma planilha. Mas sim de construir uma infraestrutura que permita conhecer a base, manter o diálogo e convocar pessoas para diferentes formas de participação. Cada ação de comunicação pode ser também uma oportunidade de construir relacionamento, convidando quem foi alcançado a dar um próximo passo na sua participação política.
A construção de uma base de dados não é uma tarefa operacional secundária. É parte central da estratégia política. E precisa ser tratada como tal, com planejamento, investimento, equipe e indicadores próprios.
Mas construir bases próprias também não significa substituir a dependência de uma plataforma pela dependência de outra. Uma estratégia de mobilização precisa ser multiplataforma, combinando diferentes canais de comunicação e relacionamento.
Isso vai muito além de publicar o mesmo conteúdo no Instagram, Tik Tok, YouTube e WhatsApp. Significa compreender o papel de cada ferramenta e construir caminhos para que as pessoas possam circular entre elas, mantendo o vínculo com a organização. As redes sociais podem ampliar o alcance, enquanto o WhatsApp e o e-mail permitem formas mais diretas de relacionamento. Sites próprios e sistemas de gestão de dados podem conectar essas diferentes frentes, ampliando nossa capacidade de mobilização.
Nenhum desses canais é completamente independente de empresas e intermediários. Mas uma base própria, combinada com diferentes meios de comunicação, reduz vulnerabilidades e permite que a perda de um canal não represente a perda de toda a relação com as pessoas.
Essa discussão também precisa ir além das eleições. A capacidade de organização política não deveria desaparecer quando termina uma campanha, quando uma liderança perde relevância nas redes ou quando muda um algoritmo. Construir bases próprias é também criar condições para que movimentos, partidos e organizações mantenham relações com a sociedade de maneira permanente, e não apenas durante os períodos de maior mobilização.
É por isso que precisamos ter como central a soberania digital ao construir estratégias de mobilização política. Não apenas como uma discussão sobre tecnologia ou proteção de dados, mas como uma questão de autonomia organizativa e capacidade de ação coletiva.
O caso do Exército do Lula é um alerta importante sobre os riscos de construir grandes audiências sem desenvolver estruturas próprias de relacionamento. A disputa nas redes continuará sendo fundamental, mas nosso desafio precisa ser maior do que conquistar seguidores: precisamos transformar o alcance das plataformas em capacidade duradoura de organização política.
A disputa política nas redes é indispensável, mas não pode terminar nelas. Nosso desafio é transformar o alcance que conquistamos nas plataformas em relações duradouras, capazes de sustentar a mobilização e a organização política para além dos algoritmos e dos ciclos eleitorais.
*Camila Modanez é consultora em estratégia digital e mobilização política, pesquisadora do Grupo de Estudos e Pesquisas em Segurança Internacional (GEPSI-UnB), pós-graduanda em Estratégia e Liderança Política pela FESPSP




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