Lula, a matemática da virada: da Avenida Paulista às urnas

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Por Rodrigo Vianna

 

Lula produziu, no domingo (11), a maior manifestação progressista em São Paulo, desde as Diretas Já, no longínquo ano de 1985. Nem os atos da inesquecível campanha presidencial de 1989, nem as passeatas de resistência para evitar o Golpe contra Dilma em 2016 levaram tanta gente às ruas. Sei disso porque acompanhei todas elas, como jornalista e cidadão.

Os organizadores chegaram a falar em 1 milhão de pessoas na avenida Paulista. Um exagero, certamente. Ao fim deste texto, procuro esboçar cálculos mais realistas. Importante notar que a juventude voltou às ruas. A maior manifestação do segundo turno significou uma passagem de geração, em que os mais velhos como eu tiveram a satisfação de ver os filhos também na avenida para defender não apenas a candidatura de Lula, mas a ideia de um país democrático, com programas sociais para reduzir nossa histórica desigualdade.

Depois do domingo retumbante em São Paulo, o principal nem é saber quantas pessoas exatamente foram à Paulista, mas sim responder a duas questões:

  • a “onda Lula” neste segundo turno, puxada inicialmente pelos estudantes, e depois ampliada nas ruas de São Paulo, Rio, Recife e dezenas de outras cidades, pode se transformar numa virada efetiva de votos no dia 25 de outubro?
  • qual a melhor tática para virar o jogo, em apenas duas semanas?

Sim, Lula pode sair vitorioso, apesar de Flávio ainda ser o favorito. O candidato do PL, aliás, subiu no salto alto e já negocia nomes para compor governo. Sentou-se na cadeira antes da hora, um erro brutal que pode desmobilizar a turma dele.

Do lado de Lula, o melhor caminho para tirar a diferença de 2,2 milhões de votos é, a meu ver, concentrar esforços naqueles territórios onde o presidente já é forte. Não há tempo para mudar o jogo no interior (onde Flávio construiu sua vantagem, especialmente nas áreas sob hegemonia do agro e do ultraconservadorismo evangélico).

Lula precisa aumentar a diferença no Nordeste, na cidade de São Paulo e no Norte de Minas.

No Nordeste, o petista teve pouco mais de 11 milhões de frente, no primeiro turno. Precisa ampliar essa margem para mais de 12 milhões, contando com a máquina de votos petista na Bahia e no Ceará, especialmente. É preciso mostrar os riscos de um governo bolsonarista, que tende a reduzir programas sociais fundamentais para o desenvolvimento nordestino.

O ato espetacular na Paulista indica que é possível aumentar também a margem de votos na capital paulista e na grande São Paulo — onde o PT e os aliados têm militância e mandatos parlamentares poderosos. Lula venceu o primeiro turno paulistano por 300 mil votos. Precisa abrir vantagem de pelo menos 700 mil no segundo turno.

A pauta da educação, com a defesa das universidades e da rede de institutos federais espalhados pelo país, é fundamental para aumentar a diferença pró-Lula nas capitais nordestinas e para reduzir a margem pró Flávio em cidades médias do Sudeste, Sul, Norte e Centro Oeste.

O fim da escala 6×1, por sua vez, atravessa todo o país, mas é combustível fundamental para acelerar a campanha em São Paulo e nas cidades que compõem a região metropolitana. Abrindo mais vantagem no Nordeste e na capital dos paulistas, Lula tiraria mais da metade da diferença de 2,2 milhões de votos obtida por Flávio no primeiro turno.

O restante teria que vir de Minas, e aí há uma dificuldade grande: a falta de máquina petista entre os mineiros. Esse me parece um calcanhar de Aquiles perigoso. Talvez, aqui, o componente religioso possa fazer diferença, já que Minas é o estado mais católico do Brasil — fora da região Nordeste.

Lula pode contar ainda com outro fator, pouco debatido: o fim da eleição em primeiro turno, na maior parte dos Estados, reduz (um pouco) o peso das máquinas conservadoras. O casamento entre prefeitos do interior e deputados da direita, azeitado pelo dinheiro do orçamento secreto, vai operar com menos força agora que a eleição para o Congresso já está resolvida. Não foi à toa que Flávio reuniu prefeitos neste domingo (11), para pedir mobilização no segundo turno. Ele sabe que a abstenção pode aumentar entre eleitores dele (não falo do bolsonarismo ideológico, mas de setores conservadores sem tanta ligação com as redes sociais, e que foram mobilizados pelo coronelismo orçamentário).

Com a máquina das emendas operando em ritmo mais lento, é perfeitamente razoável pensar que a vantagem de Flávio sobre Lula diminua (um pouco) no Centro Oeste, no Norte e até no Sul do país.

Abaixo, trago as contas desse avanço, que Lula precisa (e pode) obter, pra ganhar no segundo turno – região por região. O primeiro número refere-se sempre à diferença efetivamente obtida pelo candidato vitorioso em cada região, na totalização do primeiro turno no TSE. E o segundo número indica para quanto a diferença teria que subir (no Nordeste) ou cair (nas outras regiões), para que Lula obtenha uma virada histórica.

Nordeste: diferença pró Lula precisa crescer

+11.095.611 (1º turno)

+12.200.000 (2º turno)

Sudeste: diferença pró Flávio precisa cair

+5.662.211 (1º turno)

+4.800.000 (2º turno)

Sul: diferença pró Flávio precisa cair

+5.042.624 (1º turno)

+4.900.000 (2º turno)

Centro Oeste: diferença pró Flávio precisa cair

+2.170.393 (1º turno)

+2.000.000 (2º turno)

Norte: diferença pró Flávio precisa cair

+458.835 (1º turno)

+400.000 (2º turno)

Trocando em miúdos: Lula precisaria aumentar a margem de votos em cerca de 10% (1,1 milhão de votos a mais) no Nordeste; teria que reduzir a diferença pró Flávio em cerca de 15% (800 mil votos) no Sudeste, com foco na Grande São Paulo e norte de Minas; e precisaria ainda reduzir a diferença no Centro Oeste, Sul e Norte — contando com a máquina das emendas secretas menos mobilizadas no segundo turno.

Se Lula conseguir operar esses movimentos no eleitorado, pode ganhar por uma margem mínima, inferior a 200 mil votos.

Não é uma operação simples. Mas se alguém tem condições de obter uma virada como essa, no Brasil, é o presidente Lula. Importante é observar que se trata de uma virada possível: há de onde tirar esses votos, desde que se mantenha ou se amplie a mobilização — nas ruas e nas redes — vista na primeira semana do segundo turno.

Lula na Paulista
Imagem aérea mostra extensão da avenida Paulista, em São Paulo, tomada pelo ato pró-Lula (Foto: Ricardo Stuckert)

Quanta gente tinha na Paulista?

Sobre o número de pessoas na avenida Paulista, em 11 de outubro, baseio minhas contas na área geográfica. Havia sete quadras da Paulista completamente tomadas (entre as ruas Haddock Lobo e Pamplona) = 1.200 metros de extensão X 47 metros de largura = 56.400 metros quadrados intensamente ocupados. Calculando 6 pessoas por m2, teríamos 338 mil pessoas no trecho mais povoado.

Sei que as pontas da avenida (em direção à rua da Consolação e ao bairro do Paraíso), também tinham gente aglomerada — mas numa intensidade menor. Calculando 1.500 metros de extensão nas duas pontas x 47 metros de largura = 70.500 metros quadrados. Com duas pessoas (e não 6) nas áreas menos ocupadas, teríamos mais 141 mil pessoas nesses trechos.

Por isso, minha estimativa é que algo entre 450 mil e 500 mil pessoas tenham se reunido na manifestação pró-Lula e pela democracia. Foi, repito, o maior ato progressista em São Paulo desde as Diretas Já. O equivalente a dez estádios do Corinthians lotados foi para a rua empurrar Lula e impedir o retorno de um governo extremista, que pretende liquidar educação/saúde/programas sociais e entregar o Brasil a Donald Trump.





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