Não basta ter razão: como vencer o bolsonarismo nas urnas

0
2


Por Lilian Sendretti

O campo democrático passou quatro anos acreditando que ter razão bastava. Razão sobre o 8 de janeiro, razão sobre a pandemia, razão sobre o golpe, razão sobre os índices macroeconômicos. Tínhamos razão, mas chegamos atrás no primeiro turno. Números não despertam sentimentos e ter razão não basta para criar identificação. As pessoas também votam pelo que sentem, pelo que temem e pelo que esperam do futuro. Faltam duas semanas e eleições se ganham com voto, e voto se vai buscar.

Primeiro, vamos escolher com quem falar. Nunca um primeiro turno presidencial terminou tão apertado desde a redemocratização: 1,87 ponto. E nunca, desde 1989, quem chegou em segundo virou. Quem pretende fazer o que ninguém fez não pode focar no eleitor mediano, porque ele não existe em tempos de redes sociais. O eleitor mediano é segmentado pela narrativa. É preciso segmentar a mensagem em diferentes público-alvo. Mostrar o que cada público perde, fazerem ter motivo para votar no dia 25.

Comecem pelas mulheres. Em julho, metade das eleitoras dizia ao Datafolha que não votaria em Flávio de jeito nenhum, e Lula vencia entre elas por 50% a 40%. Mas essa vantagem está encolhendo. Contra o pai, Lula chegou a ter 62% a 27% entre as mulheres. Contra o filho, a distância caiu para dez pontos.

O voto feminino é a última muralha de Lula. Quem decide são elas. Cada ponto que Lula perde entre as mulheres pode não ter de onde ser reposto. E elas sabem o que está em jogo, porque na maior parte das casas brasileiras é a mulher que faz a conta do mês. É ela que estica o salário até o dia 30, que falta ao trabalho quando a creche fecha, que leva a mãe ao posto de saúde e espera na fila. Foi ela que segurou a casa na pandemia.

Escolham também o território. Lula venceu na capital paulista por 46,6% a 42,1% e perdeu no estado por quase 14 pontos. O voto que falta não mora na avenida Paulista.

E não basta somente atiçar a rejeição, porque rejeição sem promessa não tira ninguém de casa. A diarista que cria dois filhos sozinha precisa ouvir sobre creche e preço do gás. O aposentado e o trabalhador que vive com um salário-mínimo precisa ouvir sobre o fim do reajuste. O rapaz de 19 anos que não foi votar precisa ouvir sobre escala de trabalho. São três campanhas, e nenhuma começa somente com a palavra democracia.

Falar em democracia contra barbárie é slogan para quem já votou em Lula. Funcionou em 2022, mas, por pouco. Em 2026, esse slogan bate num eleitor cansado e insatisfeito. Muita gente votou em Flávio por raiva do preço das coisas, e chamar essa gente de golpista é a maneira mais rápida de garantir que ela repita o voto, porque é um discurso de superioridade moral que a gente já tá cansado de ouvir.

O indeciso quer saber uma coisa: minha vida melhora ou piora? A resposta precisa ser dita com todas as letras. Pode piorar, e muito. O slogan: “Se Flávio vencer, você perde” é uma narrativa poderosa e ela precisa ser segmentada. Para o trabalhador que vive do mínimo e que perde o reajuste acima da inflação.

Para o balconista, a caixa de supermercado, o frentista que você perde o segundo dia de folga, porque Flávio chamou de oportunista o fim da escala 6×1. Flávio mente e promete reajuste acima da inflação, mas no governo do pai, o salário-mínimo ficou sem ganho real. O ônus de provar que o filho é diferente é do filho. Nesses casos, a pergunta é outra, e ele ainda não respondeu: quem paga a conta? Se Flávio vencer, você paga a conta.

Tragam de volta a frente ampla. Em 2022, cinco dias depois do primeiro turno, Simone Tebet estava no palanque de Lula prometendo apoio total. Aquela foto valeu votos que o PT sozinho nunca teve. Precisamos de mais Alckmim e Tebet na campanha. Agora, nenhum candidato eliminado foi para o lado de Lula. Mas, frente ampla se refaz a cada eleição.

É preciso também segmentar a frente ampla e colocar ela para falar com a direita que tem pânico de votar 13, mas que precisa entender que não vai haver nem frente ampla e nem direita no futuro se o bolsonarismo vencer de novo. A direita que entrega o voto ao bolsonarismo não ganha um aliado, ela ganha um dono. A conversa com esse eleitor não começa por Lula. Começa pela própria direita. Por isso a frente ampla precisa de um porta-voz para cada medo. Daí também a importância de segmentar a estratégia nessa audiência.

Vamos continuar disputando cada tela de celular. Lula teve 44% do tempo de rádio e TV no primeiro turno. Flávio teve 35% e mesmo assim Flávio chegou na frente. Se alguém ainda precisava de prova de que a eleição mudou de endereço, aí está.

O bolsonarismo cresceu nas redes sociais e tem os algoritmos. Vencê-lo exige estar onde ele está, todo dia, com a mesma disciplina e pautar de manhã, de tarde e de noite. Os adversários não sabem perder nas redes. Foram feitos para atacar, na defesa, tropeçam.

E, novamente, segmentem. O vídeo que emociona a universitária não convence o motorista de aplicativo. O meme que diverte o militante afasta a evangélica que ainda não decidiu. Mensagem única, nas redes, é mensagem para ninguém.

Faltam duas semanas. Segmentem e escolham com quem falar. Troquem a barbárie pelo terror do boleto. Disputem cada tela. A história não vota, mas registra e registra também que nunca um primeiro colocado chegou com vantagem tão magra. Ter razão apenas nunca elegeu ninguém. Voto elege.

*Lilian Sendretti é cientista política, pesquisadora do CEBRAP e uma das organizadoras do livro “Retratos de um Brasil polarizado: o voto em 2018 e 2022 na perspectiva dos eleitores”





ICL Notícias

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui