Colunista do ICL Notícias Juliana Dal Piva é a jornalista que mais sofreu ataques no X

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A colunista do ICL Notícias Juliana Dal Piva foi a jornalista que mais sofreu ataques online na rede social X (antigo Twitter), entre os dias 30 de agosto e 12 de setembro, de acordo com monitoramento da Coalizão em Defesa do Jornalismo (CDJor) sobre ataques à imprensa durante as eleições de 2026.

Os ataques contra a jornalista mostram como a deslegitimação profissional pode se combinar à violência de gênero. Após revelar áudios envolvendo o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e o banqueiro Vorcaro, Dal Piva recebeu mensagens que a acusavam de produzir “fake news”, além de agressões de caráter sexual e misógino. Entre os conteúdos identificados, houve ainda incentivo à agressão sexual e violência física contra a jornalista.

A Justiça Eleitoral de Minas Gerais concedeu uma liminar que determinava a censura completa da reportagem, depois, o magistrado autorizou a republicação, mas foram proibidos de incluir a palavra “lindão” no texto.

“O desprezo e a falta de respeito pelas mulheres é uma marca da extrema direita, que se manifesta de forma particularmente virulenta contra as jornalistas. Ofensas feitas por figuras como Nikolas Ferreira a uma profissional da imprensa de qualidade nacionalmente reconhecida como Juliana Dal Piva dão a medida da covardia de quem a ataca, mas também da eficácia do seu trabalho investigativo”, afirmou Chico Alves, editor-chefe do ICL Notícias.

“No que depender do ICL Notícias, ela continuará tendo todo apoio para fazer suas reportagens e revelar o que a extrema direita tanto quer esconder.”

Ataques online à imprensa crescem 67,3% na segunda quinzena de campanha

Entre 30 de agosto e 12 de setembro, foram identificados 4.400 ataques contra jornalistas, veículos e a imprensa em geral no X e no Instagram, um aumento de 67,3% em relação aos 2.630 registrados nas duas semanas anteriores.

A coleta e o processamento dos conteúdos do X e do Instagram são realizados pelo Laboratório de Internet e Ciência de Dados (Labic), do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Espírito Santo.

A metodologia considera publicações e comentários envolvendo candidatos à Presidência, Congresso Nacional e governos estaduais, jornalistas e veículos, além de 652 termos e hashtags ofensivos. Os conteúdos filtrados são processados e analisados para identificar ataques e suas características. Publicados quinzenalmente durante a campanha, os boletins também acompanham episódios emblemáticos que ultrapassam o ambiente digital, permitindo observar como diferentes formas de violência e pressão afetam o exercício do jornalismo e a circulação de informações de interesse público.

O crescimento ocorreu em um período de forte expansão da própria conversa eleitoral nas redes. O universo de conteúdos coletados pelo monitoramento aumentou 128%, passando de 519.224 posts e comentários na primeira quinzena para 1.183.753 na segunda. Os ataques, portanto, cresceram em números absolutos, mas em ritmo menor que o conjunto de conteúdos eleitorais analisados.

Dos ataques identificados no segundo período, 3.011 ocorreram no Instagram e 1.389 no X. Assim como nas primeiras semanas da campanha, o Instagram concentrou o maior volume absoluto, mas os ataques foram proporcionalmente mais frequentes no X. Foram analisados 89.118 posts, reposts e comentários no X, diante de 1.094.635 posts e comentários no Instagram.

A dimensão de gênero também permanece relevante. No Instagram, foram identificados 636 ataques direcionados a jornalistas específicos, dos quais 375 atingiram mulheres e 261 homens. Assim, mulheres foram alvo de 59% das agressões, apesar de o número de profissionais homens atingidos ter sido maior: foram 39 homens e 25 mulheres.

O dado mostra uma concentração maior da violência sobre as mulheres atingidas e dá continuidade a um padrão observado na primeira quinzena, quando elas receberam cerca de dois terços dos ataques direcionados a jornalistas específicos nas duas plataformas.

Hostilidade atinge mais jornalistas e veículos

O crescimento dos ataques também ampliou o conjunto de alvos. Entre 30 de agosto e 12 de setembro, 86 jornalistas e 109 veículos distintos foram atingidos nas duas plataformas, ante 46 jornalistas e 91 veículos na quinzena anterior. Meios de alcance nacional permaneceram em destaque: no X, a Folha de S.Paulo recebeu 241 ataques, seguida por GloboNews (206) e g1 (161). A audiência e o alcance desses veículos, que aumentam sua exposição nas redes, também devem ser considerados na leitura dos números.

A eleição presidencial concentrou a maior parte da hostilidade diretamente associada às disputas eleitorais. Dos 3.026 ataques identificados nesse contexto, 2.232 estavam ligados à disputa presidencial e 794 às estaduais — quase três em cada quatro registros.

Deslegitimação segue em destaque

Mesmo com a ampliação dos alvos, os padrões de hostilidade permaneceram semelhantes aos observados no início da campanha. Expressões como “imprensa militante”, “mídia golpista”, “jornalista militante”, “fake news”, “caiu Pix” e “imprensa vendida” continuaram associando jornalistas e veículos a interesses políticos ou financeiros e colocando em dúvida a independência de seu trabalho.

Mais uma vez, esse tipo de ataque apareceu em diferentes posições do espectro político. Coberturas sobre o Banco Master, o Supremo Tribunal Federal (STF) e o governo federal estiveram entre os contextos que desencadearam agressões, muitas vezes deslocando a contestação da reportagem para a credibilidade ou características pessoais dos profissionais.

Disputas estaduais criam novos focos de hostilidade

Esse cenário também se refletiu na mudança da distribuição geográfica dos ataques ligados às eleições estaduais. Se nas primeiras duas semanas São Paulo (80) liderava, entre 30 de agosto e 12 de setembro Minas Gerais passou à frente, com 213 ataques, seguido por São Paulo (174), Bahia (94), Distrito Federal (86) e Pernambuco (64).

O crescimento em Minas Gerais coincidiu com a repercussão de coberturas envolvendo atores políticos do estado, especialmente as relacionadas ao deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e ao banqueiro Daniel Vorcaro, no contexto do caso Banco Master, que estiveram entre os temas que desencadearam ataques contra jornalistas e veículos no período.

X mantém maior índice de toxicidade

O X manteve o maior índice de toxicidade entre as duas plataformas analisadas. Entre 30 de agosto e 12 de setembro, a média foi de 38,2%, repetindo o índice registrado na quinzena anterior. No Instagram, a toxicidade apresentou uma pequena redução, de 23,7% para 22,9%.

A análise é realizada pelo monitoramento da CDJor em parceria com o ITS Rio, utilizando a ferramenta Perspective API, do Google, que atribui a cada mensagem uma pontuação de toxicidade em uma escala de 0% a 100%. Quanto mais próximo de 100%, maior a probabilidade de o conteúdo ser percebido como tóxico pelos usuários.

Violência afasta veículo da cobertura eleitoral 

Fora das redes, o Tapajós de Fato, veículo independente de Santarém (PA), decidiu não cobrir as eleições de 2026 após anos de ameaças e episódios de violência contra sua equipe. A redação desistiu antes da primeira reportagem e deixou de realizar pautas previstas sobre vínculos de candidatos com garimpo, agronegócio e grandes obras que afetam a região.

A decisão ocorre após uma sequência de intimidações. Nas eleições de 2022, os pneus do carro usado pela equipe foram rasgados e, posteriormente, a cabeça decapitada de um gato foi deixada ao lado de um bilhete com ameaça de morte ao fundador do veículo. O caso mostra um dos efeitos mais graves da violência contra a imprensa: quando o risco impede uma cobertura de acontecer, informações de interesse público também deixam de circular.

Como funciona o monitoramento

Ataques crescem junto com a conversa eleitoral

Da primeira para a segunda quinzena monitorada, o volume de conteúdos relacionados às eleições cresceu 128%. No mesmo período, os ataques contra a imprensa aumentaram 67,3%.

4.400 ataques em duas semanas

Entre 30 de agosto e 12 de setembro, foram identificados 4.400 ataques contra a imprensa no X e no Instagram.

As agressões atingiram 109 veículos de comunicação e 86 jornalistas distintos, além de ataques direcionados à imprensa de forma geral.

Eleição presidencial concentra os ataques

Dos 3.026 ataques diretamente relacionados às disputas eleitorais, 2.232 estavam ligados à eleição presidencial e 794 às disputas estaduais.

A disputa nacional concentrou quase três em cada quatro ataques eleitorais contra a imprensa no período.

Minas Gerais passa à frente

Minas Gerais passou de 77 ataques na primeira quinzena para 213 na segunda, tornando-se o estado com mais ataques contra jornalistas relacionados às disputas estaduais.

O crescimento coincidiu com a repercussão de coberturas sobre Nikolas Ferreira (PL-MG) e Daniel Vorcaro no caso Banco Master.

Misoginia e incentivo à violência

No X, Juliana Dal Piva foi a jornalista mais atacada, com 94 ocorrências.

Em meio à repercussão de sua cobertura sobre áudios envolvendo Ferreira e Vorcaro, recebeu acusações de “fake news”, ofensas sexuais e misóginas e até incentivo à violência física. 

Quando a violência impede a cobertura

Após anos de ameaças e violência contra sua equipe, o Tapajós de Fato, de Santarém (PA), decidiu não cobrir as eleições de 2026.

O caso mostra como ataques à imprensa podem afetar também o acesso da sociedade a informações de interesse público.





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