Gasto com sistema prisional recua e maioria dos estados não tem política para ex-detentos

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Por André Fleury Moraes

(Folhapress) – O gasto dos estados brasileiros com o sistema prisional recuou no último ano, apesar da crescente população carcerária, ao mesmo tempo em que governadores patinam para implementar políticas públicas para quem sai da cadeia, iniciativa que a maioria das unidades federativas ainda não tem.

É o que aponta a mais recente edição do Funil de Investimentos da Segurança, levantamento elaborado pelo Justa, instituto especializado em estudos de política e Justiça, que analisou a execução orçamentária das unidades federativas em 2025. Os resultados foram divulgados nesta quinta-feira (17).

Foram R$ 22,3 bilhões em despesas estaduais no sistema prisional no ano passado frente a R$ 22,8 bilhões no exercicio anterior, de 2024. Em 2023, por sua vez, os gastos somaram R$ 21,5 bilhões. Todos os valores são corrigidos pela inflação no período.

Tocantins apresentou o maior aumento nas despesas com o setor entre um ano e outro. Foram 89% a mais em gastos no ano passado. Na sequência vêm Alagoas (38%), Goiás (23%) e Rondônia (21%).

População carcerária e projetos

A população carcerária, enquanto isso, continua em alta. Dados da Senappen (Secretaria Nacional de Políticas Penais) mostram que o número atual de presos no Brasil (727,8 mil) é o maior desde o segundo semestre de 2019, quando o país tinha 731 mil detentos.

Projetos voltados a apoiar os egressos, porém, continuam aquém do ideal na avaliação do Justa.

Segundo o levantamento, foram R$ 19 milhões repassados a iniciativas do gênero em 2025. Em 2024, foram R$ 18 milhões. As despesas estão majoritariamente concentradas em São Paulo, que responde sozinho por R$ 13 milhões do total do ano passado.

Na sequência vêm Ceará (R$ 3,8 milhões), Mato Grosso (R$ 781 mil) e Bahia (R$ 482 mil). Além deles, apenas Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Sergipe investiram no tema. À exceção do Acre, que não forneceu os dados, o restante dos estados não tem gastos na área, diz o estudo.

Segundo o relatório, o cenário preocupa porque a reintegração de ex-detentos é um dos pilares do Pena Justa, plano elaborado pelo CNJ (Conselho Nacional de Justiça) na esteira de uma decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) que reconheceu o chamado “estado de coisas inconstitucional” no sistema prisional.

“Não podemos generalizar, mas no geral existe uma dificuldade dos estados de se adequarem a essa demanda do plano”, diz Taciana Santos, coordenadora de estudos em orçamento do Justa.

No caso daqueles que investem no tema, segundo ela, os repasses vão principalmente a escritórios de apoio social, estruturas voltadas a prestar atendimento aos egressos. “Eles ajudam com a questão documental, a conseguir algum abrigo, emprego ou a prestar apoio psicológico”, afirma.

Parte das unidades federativas que repassam valores a políticas para ex-detentos passou a fazê-lo somente após a criação do plano, caso de Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Bahia, diz o Justa.

Além de políticas de reintegração, o plano do CNJ também prevê ferramentas de controle de vagas para acabar com a superlotação, ampliação da oferta de estudo e trabalho aos presos, melhorias de infraestrutura, higiene, saúde e alimentação nas unidades e valorização dos servidores penais.

São mais de 300 metas a serem cumpridas até o ano que vem.

Apesar disso, afirma o Justa, “o levantamento não identificou mudança relevante no volume nacional destinado às políticas para egressos no país”.

O Funil de Investimentos também analisou os gastos estaduais com as polícias Militar, Civil, Penal e Técnico-Científica. Os gastos com as forças de segurança nas 26 unidades federativas analisadas somaram R$ 103,5 bilhões em 2025, conforme o Justa.

A maior fatia, R$ 60,7 bilhões (58,6% do total), foi para as Polícias Militares, responsáveis pelo policiamento ostensivo.

Encarregadas das investigações, as Polícias Civis ficaram com R$ 22,2 bilhões (21,5% do valor total), e as Técnico-Científicas, responsáveis pelas perícias, com R$ 2,8 bilhões (2,7%).

São números que se aproximam dos apresentados na última edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, publicado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em julho.

O estudo do Fórum revelou que o Brasil nunca gastou tanto com segurança pública: somadas as despesas da União, dos estados e dos municípios, o valor desembolsado no ano passado foi de R$ 163,1 bilhões, 2,1% acima dos R$ 159,8 bilhões do exercício anterior.

O aumento é impulsionado pelos estados, mas municípios também têm ganhado espaço nas despesas com segurança: em agosto, um estudo do Fórum mostrou que as guardas municipais ultrapassaram as polícias Civis e são hoje a segunda maior força de segurança no país, atrás apenas das PMs.





ICL Notícias

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