Ao ser montado, todo esquema financeiro de grandes pretensões precisa ter à testa um personagem discreto. Apaixonados por rolos, os roleiros profissionais, sempre preferem alguém que não dê festas de US$ 3 milhões para a filha, não alugue iates em Mônaco, não compre ilhas para dar de presente. Daniel Vorcaro e Augusto Lima, ex-sócios no controle do finado Banco Master, não seguiram a cartilha, por óbvio. A turma do rolo carece, sempre, de um outro alguém que fique na retaguarda, debruçado sobre planilhas, estruturando as caixas de ressonância contábil que transformam papel podre em “ativo”, terreno superfaturado em “lastro” e dinheiro sem origem em “cota de fundo exclusivo”.
No enredo que uniu o Banco Master de Daniel Vorcaro, os fundos dedicados a “special situations” capitaneados por Nelson Tanure (também chamados de “fundos abutre”, ou “vulture funds” na literatura dos escândalos financeiros) e a engenharia societária de Maurício Quadrado, esse personagem tem nome, sobrenome e registro no Conselho Regional de Contabilidade: João Carlos Falbo Mansur, o ex-dono da REAG DTVM. No início da manhã da última quarta-feira, 26 de agosto, a jornalista Natália Portinari revelou no portal UOL que o personagem com nome e sobrenome registrados no CRC de São Paulo havia organizado densos anexos a uma proposta de delação premiada que negocia com o Supremo Tribunal Federal e a Procuradoria Geral da República. O calhamaço, se andar no STF, onde carece de uma assinatura aquiescente do ministro André Mendonça, pode ser explosivo.
Mansur é a resposta à pergunta que o mercado financeiro fez durante anos e fingiu não querer responder: onde o Master guardava seus esqueletos? A solução da questão sempre esteve ali; era simples e direta: nos fundos da REAG. Praticamente todas as operações do banco de Vorcaro estavam lastreadas em fundos administrados pela distribuidora de Mansur, inflados com debêntures do extinto Banco do Estado de Santa Catarina, imóveis avaliados a cem, 150, 200 vezes o valor real e créditos que só existiam no papel. Quando o Banco Central liquidou extrajudicialmente a REAG DTVM, em janeiro de 2026, um mês depois de liquidar o Master, a autoridade monetária não estava fechando duas empresas. Estava desligando os dois pulmões de um mesmo organismo.
O CONTADOR QUE VIROU DONO DE 700 FUNDOS
Paulista, contador de formação, com mais de três décadas de mercado, Mansur construiu sua reputação longe dos holofotes. Passou por empresas como a WTorre e a Monsanto, especializou-se na estruturação de fundos de investimento — mais de 200, antes mesmo de fundar seu próprio negócio — e, em 2012, criou a REAG Investimentos. O crescimento foi vertiginoso. No auge, a REAG administrava cerca de 700 fundos, distribuídos por 300 grupos empresariais e famílias, movimentando dezenas de bilhões de reais. Companhia aberta, auditada por empresas internacionais, com departamento de compliance de 12 pessoas. O próprio Mansur exibe essas credenciais quando encurralado. Conselheiro do Palmeiras, fundador da Ciabrasf, sócio da Revee, o contador colecionava fachadas de respeitabilidade como quem forra as paredes de um cofre.
O problema é o que havia dentro do cofre. Em 28 de agosto de 2025, a Operação Carbono Oculto — deflagrada pelo Ministério Público de São Paulo em conjunto com a Receita Federal e a Polícia Federal — escancarou a infiltração do Primeiro Comando da Capital no setor de combustíveis e, dali, no coração da Faria Lima.
O esquema importava metanol, adulterava combustível, sonegava impostos em escala industrial e lavava o produto do crime por meio de fintechs e fundos de investimento. A REAG aparecia no centro da lavanderia. Segundo os investigadores, fundos administrados pela gestora de Mansur teriam sido usados para movimentar cerca de R$ 250 milhões de interesse do PCC.
Um documento judicial da operação é de um pragmatismo devastador. Aponta Mansur como responsável pelo fundo Hans 95 e o implica na ocultação de valores sem origem por meio do BK Bank, instituição de pagamento que funcionava como “conta bolsão” — o liquidificador que embaralhava a trilha do dinheiro e cegava os sistemas antilavagem. Naquela manhã, Mansur recebeu a polícia duas vezes: no escritório da Faria Lima e em casa.
A TRINCA DA REAG E O SONHO DE ENGOLIR O BTG
Foi na sombra desse império de fundos que se consolidou o que investigadores e informantes da força-tarefa que também estão falando com o ICL chamam de “trinca da REAG”: Mansur, Nelson Tanure e Maurício Quadrado. Somados a Vorcaro, a Augusto Lima e ao pastor e “gestor de sicários” Fabiano Zettel, cunhado do ex-banqueiro, formavam o núcleo de um projeto de poder econômico com ambição declarada — erguer um conglomerado capaz de rivalizar com o BTG Pactual de André Esteves. Deram com os burros n’água. Mas, antes de afundar, o grupo teceu uma teia de negócios cruzados que as operações Carbono Oculto e Compliance Zero destrincham ponto a ponto.
Quadrado é a costura original. Ex-sócio do Master — em 2022, o banco tinha três acionistas: Vorcaro, Lima e a 133 Investimentos Participações, veículo do próprio Quadrado —, foi ele quem, por volta de 2020, apresentou Tanure a Vorcaro. Controlador da Trustee DTVM, gestora que também aparece nas investigações como uma das utilizadas pelo PCC para lavar dinheiro, Quadrado assessorou Tanure na tentativa de compra do Grupo Pão de Açúcar e recebeu, em janeiro de 2025, a gestão de fundos transferidos da REAG Trust — uma dança das cadeiras patrimonial executada exatamente quando o cerco do Banco Central se fechava. Foi por meio de fundos geridos pela Trustee que Tanure assumiu o controle da Alliança Saúde, com a corretora do Master atuando como sua representante em leilão na B3.
Tanure, o “investidor em ativos estressados” que prefere mergulhar em dramas shakespeareanos a se tornar arroz-de-festa em baladas e badalações (e diz fazer questão de que os filhos viajem de classe econômica), usou a mesma engrenagem com apetite de tubarão-tigre. Ou seja, no topo da cadeia alimentar. A Polícia Federal investiga, desde maio de 2025, se o empresário baiano radicado no Rio é o controlador oculto do Master. Quem primeiro acusou o empresário baiano de estar por trás do Banco Master foi o investidor Vladimir Zimerman. A defesa judicial de Tanure refuta o que chama “ilações” com veemência e já conseguiu até a condenação de Zimerman por injúria e difamação. Os dois foram sócios em fundos que controlavam a incorporadora Gafisa.
De acordo com uma das denúncias de seu ex-sócio, Nelson Tanure, por meio de um fundo chamado “Estocolmo”, teria financiado, em 2022, quatro aportes que somaram mais de R$ 700 milhões no banco de Vorcaro. Um outro fundo ligado a Tanure (ainda de acordo com as denúncias originais de Zimerman, feitas inclusive durante uma Comissão Parlamentar de Inquérito no Senado Federal) detinha R$ 366 milhões em debêntures da Banvox Holding Financeira — apontada pelos investigadores como o veículo usado por Vorcaro e Quadrado para investir no Master. Em meio a esse emaranhado de empresas há também a Blum Participações, sócia controladora de uma securitizadora de crédito que amarra os quatro personagens num só nó. Mansur foi conselheiro da Blum entre 2019 e 2022, comprou a companhia em dezembro de 2023 e, três meses depois, viu o Master capitalizá-la com R$ 480 milhões saídos de um fundo do próprio banco. Seria um caso típico de dinheiro de correntista dando cria dentro da holding de um amigo.
COMPLIANCE ZERO: O NOME DIZ TUDO
A Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, tem o mérito raro da síntese batismal. Zero compliance. Era exatamente isso. A primeira fase, em 18 de dezembro de 2025, prendeu Vorcaro, o sócio Augusto Lima e dois diretores do Master no mesmo dia em que o Banco Central liquidava a instituição com passivo de mais de R$ 80 bilhões. A segunda fase, em 14 de janeiro de 2026, foi buscar o resto da trinca. Mansur foi alvo de mandados de busca e apreensão em ambas, mas já naquele momento havia desconfiança entre sócios, investidores e colaboradores da REAG que era o próprio criador e ex-controlador da distribuidora de títulos e valores quem dava o caminho das pedras para os investigadores enquanto amadurecia um acordo de delação premiada. Tanure, que estava de férias desde o Natal, foi surpreendido ao tentar embarcar num voo doméstico e teve o celular apreendido pelos agentes no Aeroporto do Galeão na 1ª fase da Compliance Zero. Fabiano Zettel, o pastor-cunhado fundador da Moriah Asset, completou a lista dos detidos.
O que a PF e a fiscalização do BC encontraram a partir dos mergulhos investigativos parece confirmar o desenho das suspeições. A delação de Mansur dirá se isso é fato ou ilação. Entre julho de 2023 e julho de 2024, fundos administrados pela REAG Trust estruturaram operações fraudulentas com o Master, em desacordo com as normas do Sistema Financeiro Nacional e com falhas graves — assim registrou o Banco Central em relatório ao TCU — de gestão de risco, de crédito e de liquidez. Em 2024, o Master multiplicou de forma acelerada o número de fundos ligados à REAG sem que ninguém no mercado compreendesse o destino dos recursos. Agora, sabe-se que era a fase terminal da fabricação de lastro.
Quando um agonizante Master tentou se vender ao BRB, em março de 2025, em operação suspeita e que levantou dúzias de lebres em todo o Sistema Financeiro Nacional, os títulos oferecidos pela instituição de Vorcaro para sustentar a troca de ações com o banco público de Brasília estavam calçados em fundos operados pela REAG cujo único cotista era justamente João Carlos Mansur.
Diante da CPI do Crime Organizado, em março de 2026, palco a partir do qual Vladimir Zimerman metralhou Nelson Tanure com um arsenal de acusações, Mansur escolheu o silêncio prudente. Disse que a REAG foi “penalizada por ser grande e independente” e chamou a Carbono Oculto de “rolo compressor”. Reduziu o Master a “um cliente entre sete ou oito instituições financeiras”. A frase é tecnicamente verdadeira e substancialmente falsa — velho truque dos contadores para ajustar balanços patrimoniais.
O Master não era um cliente da REAG. A REAG era o porão do Master. E o contador discreto da Faria Lima, que passou 35 anos aprendendo a dar forma jurídica ao informe e aparência de valor ao que não valia nada, agora terá de explicar aos liquidantes, aos delegados, aos procuradores e à História por que os 700 fundos que administrava serviram, ao mesmo tempo, a um banco insolvente, a um comprador serial alavancado, a um ex-sócio operador de bastidores e à maior facção criminosa do país. No Brasil, quem fabrica lastro para todo mundo termina sem lastro para si.




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