Janja, a Evita brasileira, está de volta, e com uma nova roupagem

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Por Lucas Rocha

Quando Janja pegou o microfone para cantar ao lado de Kleber Lucas, deu para ouvir bem baixinho: “não chores por mim, São Bernardo”. Se foi problema no meu fone de ouvido ou ecos do passado, não saberei afirmar.

O fato é que Rosângela Lula da Silva, a primeira-dama e socióloga que provocou um rebuliço na eleição de 2022, está de volta ao centro do debate eleitoral com uma nova roupagem.

Mais madura enquanto figura pública, Janja parece disposta a cumprir um papel diferente nesse pleito de 2026. Não quer ser apenas a ponte de Lula com setores da cultura, mas uma voz ativa que dialogue tanto com segmentos femininos mais progressistas quanto com as evangélicas.

Em um momento em que a ex-primeira-dama Michelle deixou explícita sua insatisfação com o bolsonarismo e quase rompeu com Flávio, as escolhas de uma saia longa e de uma música gospel para a apresentação de Janja no lançamento da campanha de Lula vão além do simbólico.

Vale lembrar que a entrada de Michelle na campanha de Jair em 2018 foi fundamental para consolidar o apoio dos crentes em torno do capitão reformado. Ainda que não provoquem um rompimento mais direto, os atritos de 2026 podem gerar desconfianças, em especial entre as obreiras.

O bolsonarismo nunca garantiu autonomia às suas militantes. Sempre foram as primeiras a serem abandonadas, vide Joice Hasselmann, que foi de líder do governo à inimiga pessoal do clã. Declaração recente de Paulo Figueiredo sobre o voto feminino reforça a visão de que o lugar das mulheres no bolsonarismo é o da submissão.

É nesse cenário de cizânias no campo adversário que Janja chama para si a responsabilidade de ampliar o horizonte petista. Tal como uma certa argentina de Los Toldos…

Quando cantou no comício o jingle gospel “Tapete Vermelho”, Janja pode ter deixado confuso o eleitor mais desatento, mas a adoção dessa estética para músicas “mundanas” já se tornou comum no mercado fonográfico. Um exemplo quiçá extremo é o hit “Rajadão”, da cantora Pabllo Vittar, artista bem distante do imaginário de uma varoa tradicional e que já foi alvo de fake news com relação ao presidente. A canção, de 2020, fez sucesso dizendo que a “chuva da vitória vai reinar no fim”. Ô, Glória!

Para além do cancioneiro, o discurso da primeira-dama não foi nada protocolar, a começar pelo ineditismo em homenagear Marisa Letícia. De acordo com os jornalistas do ICL presentes no evento, a plateia ficou positivamente surpresa. Janja está longe de ser uma unanimidade entre a militância petista, que parece ter se sensibilizado com o gesto. É gol!

No escopo de sua fala de pouco mais de cinco minutos, a primeira-dama mobilizou pautas caras para o eleitorado feminino que atingem tanto a ativista quanto a obreira evangélica. E, de forma brilhante, fez isso sem recuar no discurso.

Relembrou a luta histórica e coletiva das mulheres ao mesmo tempo em que cobrou oportunidades, saúde e educação. Reafirmou a importância da companheira que está ao lado das conquistas do parceiro e rejeitou o papel apenas de cuidado. Em uma indireta a Flávio Bolsonaro, disse que as mulheres também precisam ser cuidadas.

“Cada uma de nós é muita coisa. Somos mães, filhas, avós, tias, estudantes, professoras, empreendedoras, doutoras, mães solo, chefe de família, base de sustentação da nossa casa, financeira e emocionalmente. Somos quem segura as pontas, somos muitas em uma, e não só mais uma porque nunca estamos sozinhas. Nossa luta, das mulheres, sempre foi coletiva, nos fortalecemos em casa, no trabalho, na comunidade. Juntas somos um horizonte infinito”, discursou.

De uma forma bastante honesta, Janja chama o eleitorado evangélico para o debate. Para isso, é evidente, ela muda na forma, mas não sacrifica o conteúdo. E talvez essa seja a forma mais respeitosa de tratar um eleitorado que é visto como um bicho de sete cabeças por grande parte do campo progressista.

Não é preciso entoar a fatídica frase “sou contra o aborto” para abrir diálogo. Até porque essa está longe de ser a preocupação número um de uma mulher evangélica que quer ver lá seus filhos seguros para ir e voltar da escola. Que quer estabilidade para colocar comida na mesa no dia a dia, que precisa de remédios para uma mãe doente, que tem ver o seu varão gastando o dinheiro da família em bets como se fosse alguma forma de investimento. É com essa realidade concreta que Janja se esforça para dialogar.

É certo que grande parte desse eleitorado não é tão aberto diante de bolhas em que as orientações espirituais guiam as escolhas políticas, mas não é correto tratar como um grupo totalmente homogêneo. Ainda há aquelas que se colocam à disposição para conversar e é com elas que Janja quer essa aproximação.

Se essa estratégia será exitosa, só o tempo poderá dizer, afinal, a campanha oficialmente acaba de começar. No entanto, em uma eleição em que os principais adversários parecem jogar “parados”, a repaginada Janja pode oxigenar o debate e servir como uma nova agregadora de apoios para o petista.

Aos mais puristas, deixo um lembrete: a canção que ficou famosa na voz de Madonna no filme ‘Evita’ nunca foi entoada pela homenageada. Mas bem que poderia.





ICL Notícias

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