O NÓS e os OUTROS

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Há cinquenta anos o conjunto das economias ocidentais, a Europa mais os Estados Unidos, a quem os ocidentais chamaram o país do NÓS, eram dez vezes mais fortes que o conjunto formado pela China e pela Índia, o país dos OUTROS. Em 2000 essa diferença baixou para 4 vezes mais. Em 2026, este ano, tudo indica que as economias ocidentais vão ser ultrapassadas pelo conjunto das duas maiores economias asiáticas. As previsões do FMI indicam que, nesta década, o peso somado das economias chinesa e indiana no produto interno mundial será de 30 % enquanto o peso das economias ocidentais da Europa e dos Estados Unidos será de 27%. O facto é este – o país do NÓS está a ser ultrapassado pelo país dos OUTROS. Acho que assim se percebe melhor o que está a acontecer no mundo.

Toda a conversa sobre a nova ordem mundial tem por detrás dela esta dura realidade – o deslocamento do eixo de gravidade econômico do mundo do Ocidente para Oriente. O NÓS está a ficar para trás, o OUTROS está a avançar. Podemos dizer que sempre foi assim, que ao longo da história sempre houve oscilações e mudanças na riqueza relativa entre Ocidente e Oriente. Sim, mas nunca essas mudanças acontecerem tão rapidamente – a China foi a grande vencedora da globalização econômica dos últimos quarenta anos. E mais: ganhou com as leis escritas pelo NÓS, com as instituições criadas pelo NÓS e com os dirigentes escolhidos pelo NÓS.

De outro ponto de vista. A Europa tem uma idade mediana de 43,1 anos e os Estados Unidos de 38, 9. A idade mediana da China e da Índia é de cerca de 33 anos. Esta diferença é significativa — o NÓS está mais velho do que o OUTROS.  Quanto à educação dos jovens, os resultados dos testes PISA que medem a proficiência dos alunos no ensino secundário, mostram um domínio oriental total. Os seis lugares primeiros lugares são ocupados por países asiáticos — Singapura, China, Japão, Taiwan, Coreia do Sul e Hong Kong. Os Estados Unidos estão em 18º lugar, a Alemanha em 24º e a França em 26º. Em síntese, o NÓS não só está a ficar menos rico comparativamente com os OUTROS, mas está mais velho e menos educado do que os OUTROS. Esta é a dura realidade para o Ocidente.

Estes três dados (outros podem ser invocados para fortalecer o argumento) são reveladores da mudança estrutural em curso. O envelhecimento demográfico, por exemplo, que me parece ser um dos grandes desafios políticos do Ocidente, deveria levar os países a pensar o quanto vai precisar das regiões do Sul, onde a mão de obra é mais jovem e mais barata. Pelo contrário, a política central do Ocidente — com os americanos na liderança — parece apoiar-se no populismo mais primário de combate à emigração, emigrantes esses de que a economia ocidental tanto precisa. Neste ponto político, absolutamente prioritário do ponto de vista econômico, o Ocidente está a fazer exatamente o contrário do que é necessário fazer. E todo este recente micro-militarismo de exibição — hoje a Venezuela, amanhã o Irã, depois de amanhã sabe-se lá quem mais — não é nenhuma prova de força, mas de insegurança: lembrem-se de que ainda somos capazes de rebentar com coisas.  Depois de séculos de liderança, o Ocidente está em negação.

 





ICL Notícias

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