Por Cleber Lourenço
A Procuradoria-Geral da República (PGR) decidiu arquivar uma representação que pedia a abertura de investigação sobre o vazamento de informações sigilosas relacionadas à chamada Operação Última Milha, investigação conduzida pela Polícia Federal sobre o uso irregular da Agência Brasileira de Inteligência (Abin).
A decisão foi assinada em 19 de novembro de 2025 pelo procurador da República Vítor Vieira Alves, membro auxiliar do procurador-geral da República mas só veio a público recentemente. O procedimento havia sido apresentado pela Intelis — União Nacional dos Profissionais de Inteligência de Estado da Abin.
A entidade solicitava a apuração de possível vazamento de informações sigilosas após a publicação de reportagens que revelaram a existência de uma operação de espionagem envolvendo o governo do Paraguai.
Segundo a representação, a reportagem indicaria que informações protegidas por sigilo judicial teriam sido acessadas indevidamente. O caso envolve a Petição 11.108/DF, em tramitação no Supremo Tribunal Federal sob sigilo.
No pedido encaminhado à PGR, a entidade argumentou que o vazamento poderia caracterizar crimes previstos no Código Penal, como violação de segredo, divulgação de informação sigilosa e violação de sigilo funcional.
No entanto, ao analisar o caso, a Procuradoria concluiu que não havia necessidade de abertura de uma nova investigação, uma vez que o tema já estava sendo apurado pela Polícia Federal.
“Foi amplamente noticiada pela imprensa a instauração de investigação pela Polícia Federal, destinada a apurar o vazamento de informações sigilosas relacionadas à Operação Última Milha”, afirma a decisão.
O documento também registra que o Ministério Público atua regularmente no acompanhamento da investigação conduzida pela Polícia Federal, exercendo o controle externo da atividade policial.
“Não há, a partir do veiculado na representação, outra providência a ser adotada no momento”, conclui o procurador. Com isso, a PGR determinou o arquivamento do pedido apresentado pela entidade.
A investigação da Operação Última Milha
A Operação Última Milha foi aberta pela Polícia Federal para investigar o uso irregular de ferramentas de inteligência da Abin durante o governo Jair Bolsonaro.
A investigação apura a existência de uma estrutura paralela dentro da agência que teria sido utilizada para monitorar adversários políticos, autoridades públicas e jornalistas.
Entre os instrumentos citados nas investigações está o sistema conhecido como FirstMile, que permitiria rastrear a localização aproximada de celulares a partir do número telefônico.
A apuração da Polícia Federal acabou revelando outras frentes de investigação envolvendo possíveis operações de inteligência conduzidas pela Abin.
Uma delas envolve a suspeita de uma ação hacker contra sistemas do governo do Paraguai.
Espionagem e negociação de Itaipu
Segundo informações reveladas ao longo da investigação, a operação de inteligência teria sido realizada para obter dados estratégicos durante as negociações envolvendo o Tratado de Itaipu.
O acordo binacional entre Brasil e Paraguai regula a divisão da energia produzida pela usina hidrelétrica e passou por processo de revisão após completar 50 anos em 2023.
As negociações envolvem temas sensíveis, como o preço da energia vendida ao Brasil e a possibilidade de o Paraguai ampliar sua autonomia para comercializar energia no mercado internacional.
Itaipu é considerada uma das maiores usinas hidrelétricas do mundo e desempenha papel central na matriz energética dos dois países.
Por esse motivo, qualquer alteração no acordo pode ter impacto direto no sistema elétrico brasileiro e no equilíbrio econômico da parceria entre os dois países.
Crise diplomática
A revelação da suposta operação de espionagem provocou reação do governo paraguaio e autoridades do país chegaram a convocar representantes diplomáticos brasileiros e solicitar esclarecimentos sobre o episódio.
O governo do Paraguai também abriu investigação interna para apurar a suspeita de espionagem.
O episódio ocorreu em meio às discussões sobre a revisão do Anexo C do Tratado de Itaipu, considerada uma das etapas mais importantes da renegociação energética entre os dois países.



