One Piece: como o anime se tornou símbolo de resistência em protestos contra o governo do Peru

1
87


“Os desenhinhos não são tão delicados, nem tão infantis, nem tão inocentes”, afirmou a congressista Martha Moyano durante os debates parlamentares sobre a retirada do projeto de reforma do sistema de pensões no Peru. Integrante do partido de extrema direita Fuerza Popular – vinculado à família Fujimori –, suas palavras rapidamente viralizaram e tomaram conta das redes sociais em forma de memes.

Esses “desenhinhos” que despertaram preocupação da congressista vêm do mangá e do anime One Piece. Considerada uma das obras mais importantes do mangá, as histórias em quadrinhos japonesas, a série é um fenômeno cultural. Não apenas é um dos mangás mais vendidos da história, como também sua adaptação para anime vem sendo exibida ininterruptamente desde 1999, já ultrapassando 1.100 episódios. A esse vasto universo ficcional somam-se 15 filmes, mais de 50 videogames e uma bem-sucedida adaptação live-action produzida pela Netflix em 2023.

Assim como ocorreu em países tão diversos quanto Nepal, Estados Unidos e França, faixas e bandeiras com a caveira dos Mugiwara, o símbolo de One Piece, inundaram as massivas mobilizações que nas últimas semanas colocaram o governo de Dina Boluarte contra a parede no Peru.

“Nós, os jovens do Peru, a Geração Z, saímos às ruas em todo o país para dizer ‘basta!’ à corrupção, à insegurança, à crise política e à indiferença de quem governa de costas para o povo”, afirma o “Pronunciamento Oficial de Jovens Líderes pelo Peru (JLP)”, divulgado por coletivos juvenis. Autodenominado um “grupo político sem políticos”, o coletivo exige – nada mais, nada menos – a renúncia do governo de Dina Boluarte. O único símbolo que acompanha o comunicado é a caveira dos Mugiwara.

A circulação desse símbolo em protestos e redes sociais, com forte presença transnacional, revela uma linguagem compartilhada que não funciona apenas como ornamento estético, mas como marca de identidade coletiva. É uma demonstração de como a cultura pop se integra ao repertório da ação coletiva, transformando a ficção em ferramenta de luta.

A reflexão é do jornalista e ensaísta peruano J. J. Maldonado, que, em conversa com o Brasil de Fato, ressalta que muitas vezes essas referências culturais funcionam como “uma infraestrutura de sentido que fornece quadros narrativos, símbolos e linguagens que permitem às juventudes interpretar o poder, imaginar alternativas e se reconhecer entre si”.

Autor do livro Uma galáxia pop chamada One Piece, publicado pelo Fundo Editorial da Universidade César Vallejo, Maldonado parece zombar da arrogância dos analistas que tentam explicar a situação sem sequer ouvir o que os jovens nas ruas têm a dizer.

Criado por Eiichirō Oda, One Piece narra as aventuras de Monkey D. Luffy e sua tripulação de piratas, os Mugiwara, em busca do tesouro lendário que dá nome à série. Ao longo de mais de duas décadas, a obra construiu um universo épico no qual amizade, liberdade e a busca por uma verdade histórica que o Governo Mundial tenta esconder se entrelaçam com uma crítica social incisiva. A viagem por mares dominados por uma entidade governamental opressiva, uma Marinha corrupta e piratas poderosos que impõem suas próprias leis reflete constantemente lutas contra a tirania, a injustiça e em defesa da autonomia dos povos.

O autor destaca que a série oferece o que chama de “uma gramática política clara e exportável: o inimigo é um poder ilegítimo, a resposta é a aliança horizontal e o horizonte é a liberdade coletiva”. Em outras palavras, os jovens mobilizados encontram na ficção uma linguagem que sintetiza suas demandas reais.

Cartografias para um mundo em ruínas

No início de setembro, milhares de jovens, em sua maioria entre 18 e 29 anos, lotaram as principais praças do Peru após serem convocados pelas redes sociais, em protesto contra uma reforma previdenciária impulsionada pelo governo de Dina Boluarte. O projeto pretendia modificar o sistema das AFP – implantado durante o governo de Fujimori em 1993, inspirado no modelo da ditadura de Pinochet –, elevando a idade mínima para aposentadoria antecipada e estabelecendo a obrigatoriedade de contribuições inclusive para trabalhadores informais, que representam aproximadamente 75% da força de trabalho do país.

A medida foi rapidamente percebida como injusta e favorável aos grupos empresariais do setor, o que desencadeou massivos protestos. A resposta do Estado consistiu no envio de 5.000 policiais a Lima, acusando os manifestantes de estarem “infiltrados”. Os participantes, por sua vez, denunciaram que a mobilização era pacífica e que o objetivo era criminalizá-la. O saldo foi de dezenas de jovens feridos e detidos.

Esse episódio abriu um novo capítulo na crise política que atravessa o governo de Boluarte desde a destituição de Pedro Castillo, em dezembro de 2022. A rejeição à reforma previdenciária se articulou com questionamentos mais amplos ao Congresso, a um Executivo que mal alcança 2,5% de aprovação e à brutal repressão sistemática denunciada por organizações nacionais e internacionais, com graves violações de direitos humanos e dezenas de manifestantes assassinados em diferentes regiões do país.

Para Maldonado, a chave da apropriação da simbologia de One Piece está na dimensão política que a obra oferece. “One Piece condensa uma crítica às estruturas de poder”, explica, “em cujo universo ficcional encontramos uma crítica a um ‘governo mundial’ corrupto, hierarquias que legitimam a violência e povos obrigados a se organizar de baixo para cima”. Essa arquitetura narrativa resulta “em contextos reais de abuso estatal, autoritarismo ou desigualdade”, o que facilita a transferência de seus símbolos para o protesto.

Uma gramática política

Não é a primeira vez que a cultura pop se traduz em protestos de rua. Cada geração encontrou em seus próprios códigos culturais as chaves para uma identificação coletiva. O jovem escritor define esse fenômeno como um “capital político e cultural” que pode se transformar em “tecnologias políticas de resistência”.

Meios de comunicação e analistas definiram os protagonistas dos protestos como a “Geração Z”. No entanto, Maldonado adverte que essa etiqueta pode ser enganosa. “O rótulo funciona mais como categoria midiática do que como explicação real do conflito”, esclarece.

Os processos políticos de cada país mantêm particularidades que não podem ser ignoradas, embora compartilhem uma dimensão geracional no uso de linguagens culturais comuns. “Quando esses códigos são levados para o protesto, mostram que o cultural não é acessório, mas sim um terreno central a partir do qual se disputa o político”, afirma.

Assim como no passado, diversos setores políticos e midiáticos classificaram como “banalidade” o uso de símbolos pop na mobilização. “A acusação de frivolidade ou desinteresse costuma ser uma forma de deslegitimar suas linguagens políticas, porque não se encaixam nos moldes tradicionais. Isso ocorreu com o rock nos anos 1960, com o hip hop nos anos 1990 e hoje com o uso de memes, cosplay ou referências a animes nas manifestações”, aponta Maldonado.

Por isso, a máscara do Anonymous, o meme Troll Face ou a caveira do Luffy não podem ser entendidos como simples brincadeiras. “São recursos que permitem transformar o protesto em algo reconhecível e compartilhado. O que para a geração anterior é banalidade, para a atual é uma gramática política legítima”, sustenta o ensaísta.



Fonte:Brasil de Fato

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui