Estudantes lutam por acesso a RU na UFCG e acusam Reitoria de perseguição

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Ainda sem acesso ao Restaurante Universitário (RU), desde o dia 1º de setembro, os alunos do Centro de Desenvolvimento Sustentável do Semiárido (CDSA), campus Sumé da UFCG, enfrentaram dias sem alimentação adequada, enquanto professores que tentaram ajudá-los foram surpreendidos por processos administrativos abertos pela própria universidade. Em 3 de setembro de 2025, diante da suspensão do RU – que já apresentava problemas crônicos de alimentação e infraestrutura – os estudantes decidiram ocupar as centrais de aula em protesto.

Durante a ocupação, os docentes que forneceram apoio logístico e alimentação aos alunos, acabaram sendo alvos de processos administrativos. Em 13 de setembro, a reitoria recorreu à Justiça para solicitar a reintegração de posse. Yanna Pachêco, presidenta do Centro Acadêmico de Ciências Sociais, e Y.C*., professor do campus, denunciam a negligência histórica da administração e a criminalização do movimento estudantil.

Estudantes: gota d’água foi a suspensão da alimentação

No início de setembro, estudantes do Centro de Desenvolvimento Sustentável do Semiárido (CDSA), campus Sumé da UFCG, ocuparam as centrais de aula em protesto contra o fechamento do Restaurante Universitário (RU). A decisão foi tomada em assembleia do Diretório Central dos Estudantes (DCE), com ampla participação estudantil. 

Assembleia estudantil 03 de setembro | Comunicação | Ocupação UFCG

Yanna Pachêco, presidenta do Centro Acadêmico de Ciências Sociais, afirmou que o fechamento do RU foi o estopim: “Já enfrentávamos problemas estruturais há meses, e a gota d’água foi a suspensão da alimentação. A qualidade da alimentação do RU vinha causando má digestão e infecção intestinal nos estudantes, como relataram também alguns professores.”

Ela denuncia diversos outros problemas: “A residência e o NEAF, que é um espaço dentro da universidade, não são gerenciados como se estivessem sob a administração da instituição. Os alunos que ficam lá são aqueles que ainda não tiveram acesso ao programa estudantil e, por isso, permanecem temporariamente nesse ambiente, totalmente inadequado, sem estrutura adequada para receber esses estudantes, que chegam a se encontrar em situação de vulnerabilidade.”

Consequências  

Pachêco relata diversas consequências dessa situação. “Não estão acontecendo os jogos estudantis da universidade; os quartos PCD das duas casas das residências estão ocupados como almoxarifados, ao invés de estarem disponíveis para as pessoas que realmente precisam, como aquelas que estão no NEAF, em um local totalmente inóspito. Assim, percebemos um desequilíbrio em relação à forma como os alunos estão sendo assistidos aqui.”

Ela acrescenta que os estudantes também enfrentam medo e insegurança alimentar, além de insegurança na própria estadia em Sumé, uma vez que o RU é uma política de permanência estudantil. “Há uma alta falta de comunicação da reitoria, da direção de centro e da assistência estudantil com os alunos e com a comunidade acadêmica, principalmente em relação ao RU. Até então, sabíamos apenas que o RU iria aumentar o valor, não que iria fechar. Então, quando ficamos sabendo num sábado que, na segunda-feira, não teríamos o RU, isso gerou insegurança para todo mundo”, comenta Pachêco.

Estudantes debatem | Comunicação | Ocupação UFCG

Motivos da ocupação

Pachêco explica que, por esses diversos motivos, os estudantes presentes na assembleia do dia 3 de setembro decidiram pela ocupação. “A ocupação aconteceu de maneira pacífica, sem interromper o direito de ir e vir, como eles mesmos colocaram, e sem interferir em ambientes como biblioteca e laboratórios, que continuaram funcionando normalmente. A ocupação teve um teor pacífico: iniciou de forma pacífica e se construiu também de forma pacífica. Além disso, foi feita de maneira muito coletiva e muito política.”

Ela acrescenta que, durante a ocupação, os estudantes promoveram diversas atividades culturais. “Nesses espaços ocorreram ações como oficinas de coco de roda, oficinas de capoeira, rodas de conversa sobre as ocupações de 2015 e 2016, rodas de conversa com professores sobre o fechamento das escolas do campo e como isso impactava a nossa região. Enfim, foram diversos momentos em que pudemos construir coletivamente espaços de construção política e de mobilização cultural, algo que não existia aqui na universidade. Produzimos cartazes, lambes, espalhamos, colorimos a universidade”, comenta Pachêco.

Ocupação Cultural | Comunicação | Ocupação UFCG

Processo contra estudantes

Yanna Pachêco relata que não houve diálogo por parte da reitoria antes da abertura de processos administrativos. Segundo ela, “o que fizeram com a gente, na verdade, foi abrir um processo administrativo – primeiramente, o que já foi um absurdo. Esse processo, no final, é totalmente ditatorial, porque nele o reitor cobra e pede à direção de centro que indique em uma lista o nome, o curso e a matrícula dos estudantes envolvidos na ocupação. Então, existe aí ainda uma caça aos estudantes.”

Ela acrescenta que, além do processo interno, a reitoria acionou o Ministério Público Federal para denunciar a ocupação e pedir a reintegração de posse do espaço ocupado. O único centro acadêmico notificado foi o Centro Acadêmico de Ciências Sociais, e a presidenta do centro foi intimada pessoalmente.

Infraestrutura solidária | Comunicação | Ocupação UFCG

Pachêco afirma que a situação poderia ter sido resolvida de maneira democrática: “Se houvesse diálogo com os alunos… a todo momento alegam que houve diálogo, mas que diálogo foi esse? Na primeira reunião que tiveram conosco, ainda no dia 8 de setembro, ao saírem de Sumé e chegarem em Campina Grande, a primeira consulta foi com a Procuradoria Federal. Então, queremos saber: que diálogo foi esse construído com os alunos, sendo que nem eles sabiam do fechamento do RU?”

Ela questiona ainda a falha de comunicação da administração: “Como uma gestão que fiscaliza uma empresa privada atuando na universidade pública federal não tem ciência de que essa empresa iria fechar, ou que havia possibilidade de atraso no contrato? Percebemos falha na comunicação e a falta de disposição para admitir o erro. Então, partiram para a via judicial.”

Reitor judicializa o movimento | Comunicação | Ocupação UFCG

Mesmo após a ocupação, Pacheco afirma que os estudantes continuam mobilizados para mostrar o próprio lado da história. “Por mais que produzamos materiais e divulguemos, sabemos que a gestão tem influência política e na própria Justiça, o que mobiliza muita coisa. Mas nós temos a comunidade estudantil e muita atuação.”

Ela comenta que, na pós-ocupação, houve audiência pública no dia 22, em que os estudantes tentaram solicitar o arquivamento do processo: “Estávamos lá reforçando nossos direitos, mas percebemos que eles não estão dispostos a retirar esse processo. Envolve nomes de alunos de maneira muito explícita e covarde. O mínimo seria reconhecer que não foi uma atitude que deveria ter acontecido em uma instituição em que nunca se viu algo assim.”

Apoio docente e perseguição

Durante a ocupação, professores como Y.C. forneceram apoio logístico e alimentação aos estudantes, enfrentando depois acusações da reitoria. O docente afirmou que foi injustamente acusado de apoiar a ocupação: “Fui acusado de apoiar a ocupação, quando na verdade estava apenas auxiliando os estudantes em uma situação de necessidade. E, na verdade, instalou-se esse conflito interno, com os professores apoiando os estudantes e entendendo que era uma luta justa.”

Yanna Pachêco complementa, denunciando a ação da administração: “A reitoria criminalizou o movimento estudantil e perseguiu professores que se solidarizaram com a causa.”. Já Y.C. detalha que, no mesmo dia 11, a reitoria abriu um processo administrativo incluindo os docentes que prestaram apoio: “Uma das medidas foi arrolar no processo os professores que estavam apoiando os estudantes, no sentido de levar alimentação e suporte, citando que esses docentes estariam descumprindo a lei 8.112, caracterizando deslealdade contra a instituição, o que poderia implicar penalidades administrativas. Esse processo caminhou no sentido de incluir, inclusive, uma ata de assembleia estudantil que ocorreu, mas sem deliberação, e que nem sequer estava assinada, sendo colocada pelo próprio diretor de centro.”


Cronologia dos fatos

  • 1º de setembro de 2025: Estudantes do Centro de Desenvolvimento Sustentável do Semiárido (CDSA), campus Sumé da UFCG, são surpreendidos com a suspensão do Restaurante Universitário (RU) e enfrentam dias sem alimentação adequada.
  • 3 de setembro de 2025: Assembleia do DCE decide pela ocupação das centrais de aula.
  • 5 de setembro de 2025: Reitoria comunica o fechamento do RU, alegando questões orçamentárias.
  • 6 a 12 de setembro de 2025: Ocupação estudantil ocorre, com apoio de professores que fornecem alimentação e logística.
  • 12 de setembro de 2025: Reitoria abre processo administrativo contra estudantes e docentes envolvidos.
  • 13 de setembro de 2025: Vara Federal de Monteiro determina reintegração de posse do prédio ocupado.
  • 14 de setembro de 2025: Ocupação é desfeita pacificamente; atividades acadêmicas são retomadas.

Medidas propostas pela Reitoria

A Reitoria da UFCG ofereceu bolsas em pecúnia no valor de R$ 700 para estudantes residentes e R$ 350 para não residentes, alegando limitações orçamentárias e legais. Além disso, anunciou a abertura de licitação emergencial para a contratação de nova empresa de alimentação.

Pachêco destacou que, no dia 8 de setembro, houve uma representação da reitoria, com a vice, professora Fernanda Leal, e o professor Reginaldo, da PRAC (Pró-Reitoria de Assuntos Comunitários), para conversar com os estudantes. “Nesse dia, os estudantes colocaram todas as pautas, reivindicações e questões que estavam acontecendo. A administração informou que, infelizmente, não tinha como reabrir o RU, que isso era impossível devido aos trâmites burocráticos, e que o que poderiam providenciar era apenas o pagamento de uma bolsa para os estudantes”, explicou.

Ela ressaltou que as bolsas oferecidas eram insuficientes para cobrir as necessidades alimentícias dos alunos. “A Reitoria não apresentou soluções concretas”, disse.

Y.C. acrescentou que a proposta da administração não atendia à demanda real: “É uma medida paliativa, que não resolve a situação dos estudantes que estavam sem acesso à alimentação adequada.”

Perseguição a estudantes

Felipe Santos, um dos integrantes da ocupação, afirmou que a mobilização tinha como objetivo lutar por assistência estudantil. Segundo ele, a resposta da gestão foi a abertura de processos administrativos e a criação de listas com os nomes dos estudantes envolvidos, o que gerou situações de vulnerabilidade e perseguição.

“Alguns estudantes foram perseguidos à noite dentro do campus, por conta da narrativa de que uma central de aulas fechada, numa universidade cheia de prédios, poderia prejudicar o período letivo”, relatou. Ele destacou que a postura adotada não partiu apenas da reitoria, mas também da direção de centro e de alguns professores contrários à ocupação, caracterizando um conflito coletivo envolvendo diferentes setores da universidade.

Situação atual da ocupação

A ocupação no CDSA não permanece mais no prédio das centrais de aula. Após decisão judicial, dois oficiais de justiça compareceram ao local e intimaram os estudantes a desocupar. A saída ocorreu de forma pacífica, assim como havia sido a entrada na central de aulas.

Apesar disso, os estudantes mantêm a intenção de se organizar. Santos explicou que o grupo agora está no espaço da residência universitária, onde a maioria dos estudantes envolvidos já permanecia. “Estamos organizando a alimentação, recebendo doações. Inclusive, a vereadora Jô Oliveira enviou doações ontem para que pudéssemos garantir a alimentação durante esta semana”, relatou. Ele destacou que, mesmo com a desocupação do prédio, a mobilização segue ativa. “Continuamos com a ideia de garantir a alimentação, porque essa situação ainda não foi resolvida”, completou.

Desocupação pacífica

Após a desocupação pacífica, as atividades acadêmicas no CDSA foram retomadas normalmente. No entanto, a falta de uma solução definitiva para os problemas estruturais e a ausência de diálogo contínuo com a reitoria deixaram um clima de insatisfação persistente entre estudantes e docentes.

Y.C. comentou que a administração ainda precisa melhorar a comunicação e a gestão: “A reitoria precisa ouvir mais a comunidade acadêmica e agir de forma mais transparente e eficaz.”

Yanna Pachêco destacou a continuidade da mobilização estudantil: “Continuaremos vigilantes e mobilizados para garantir nossos direitos e melhorias no campus.”

Tentativas de contato com a Reitoria

A redação do Jornal Brasil de Fato tentou, por diversas vezes, entrar em contato com a Assessoria de Comunicação da Reitoria da UFCG, por telefone e e-mail, buscando uma nota pública ou esclarecimentos sobre os fatos ocorridos. Até o fechamento desta matéria, não houve retorno. O jornal permanece aberto para receber qualquer manifestação ou direito de resposta da Reitoria.

*Y.C – iniciais ficticias de professor que prefere não se identificar.


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Fonte:Brasil de Fato

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