Uma operação conjunta da polícia civil e militar na Fazenda Santa Lúcia, no sul do Pará, levou ao assassinato de dez trabalhadores rurais sem-terra, nove homens e uma mulher liderança do acampamento, Jane Júlia. Um massacre que ocorreu em maio de 2017 e ficou conhecido como ‘chacina de Pau D’Arco’, agora está registrado em documentário oito anos depois. O longa Pau d’Arco será exibido no Festival do Rio de cinema nos dias 3, 4 e 5 de outubro.
As filmagens começaram em 24 maio de 2017, dia da chacina, e seguiram por mais sete anos para acompanhar os sobreviventes e o advogado do caso. Ao longo de 89 minutos, o filme revela fatos chocantes que indicam a possível tentativa de silenciar testemunhas e encobrir o crime, que permanece impune. Desde que começou a ser exibido em festivais, o documentário já ganhou sete prêmios, entre eles o de melhor longa-metragem pelo júri na Mostra Ecofalante de Cinema 2025.
A equipe da Repórter Brasil já estava no Pará investigando uma articulação entre fazendeiros para intimidação de trabalhadores rurais sem-terra quando a operação ocorreu. “Um caso dessa magnitude sempre acaba virando simbólico em toda a região, em todo o Pará. Todo mundo conhece o caso de Pau d’Arco hoje e teme que algo parecido aconteça. E ali a gente decidiu, então, acompanhar a história”, conta ao Brasil de Fato a diretora da filme, Ana Aranha.
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O impacto do caso levou a uma grande cobertura jornalística na época e também, a uma investigação exemplar da Polícia Federal. Havia duas delações premiadas, inúmeras testemunhas e a PF fez uma reconstituição do caso detalhada. Toda essa movimentação levou a produção a crer que encerrariam o filme com o julgamento dos policiais. No entanto, quatro anos após o início das gravações e com o filme quase pronto, houve uma reviravolta.
O sobrevivente do massacre, que vitimou seu namorado, e protagonista do filme, Fernando Araújo, foi assassinado em 26 de julho de 2021 com um tiro na nuca após sofrer inúmeras ameaças. Somado a isso, o advogado do caso, José Vargas, foi preso sob acusação de participação em um assassinato. “Nesse momento ficou muito claro que a gente tinha uma outra história para contar e tínhamos que repensar o filme”. Em 2023, a inocência de Vargas foi confirmada pela justiça e o caso foi arquivado. O advogado é uma das presenças confirmadas na estreia do filme no festival, no dia 3 de outubro, ao lado da diretora e do jornalista e ativista Raúl Santiago.
Mais quatro anos se passaram após a execução de Fernando e em agosto deste ano uma decisão judicial determinou que o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) emita com urgência a posse da fazenda para as mais de 200 famílias que ocupam a fazenda desde 2017, após o decreto 12.395/2025 reconhecer a Fazenda Santa Lúcia como área de interesse social para fins de desapropriação.
A esperança da diretora é que nas próximas semanas a documentação para os assentados saia oficialmente. “Eu não vou dizer que isso é resultado do filme, porque não é, né? É uma história complexa, tem agentes públicos há muito tempo envolvidos nisso. Mas eu acho que se a gente colocar essa história à tona, sem dúvida alguma, no mínimo desencoraja pessoas que poderiam estar trabalhando contra esse processo”, diz. O lançamento do filme é acompanhado de uma campanha para que as vítimas sejam indenizadas, tenham seu direito à terra garantido e os responsáveis pelo massacre sejam julgados.
Festival do Rio
A 27ª edição do Festival do Rio de cinema acontece entre os dias 2 e 12 de outubro em salas de cinema espalhadas pela cidade do Rio de Janeiro. A programação inclui nove mostras, como destaques latinos, brasileiros e mundiais. Entre as diversas mostras promovidas pelo Festival do Rio está a Première Brasil, importante vitrine do cinema nacional, que reúne curtas e longas, documentários e ficções. Há também uma mostra de filmes clássicos e cults, outra com filmes de terror e uma especial sobre a COP 30. A programação ainda está dividida em exibições gratuitas que pode ser acessada aqui.
Serviço
Pau d’Arco (89 minutos / 2025)
Direção: Ana Aranha
Produção: Repórter Brasil e Amana Cine
Coprodução: RioFilme
Sessões no Festival do Rio:
3 de outubro (sexta-feira), 19h
Festival do Rio, Estação Net Rio
Sessão seguida de debate com Raull Santiago, advogado e protagonista do filme José Vargas e a diretora Ana Aranha.
4 de outubro (sábado), 16h
CineCarioca José Wilker
5 de outubro (domingo), 13h45
Cine Santa Tereza
Ingressos: No local e online pelo site do Festival de Cinema do Rio ou ingresso.com.



