Por Schirlei Alves
Em meio à mais grave ofensiva militar dos Estados Unidos contra a Venezuela dos últimos tempos, Alejandra Laprea — membro da coordenação continental da Marcha Mundial das Mulheres e representante continental do comitê político do movimento — concedeu entrevista ao ICL Notícias para analisar os acontecimentos desencadeados após o sequestro do presidente Nicolás Maduro.
Na última segunda-feira (5), Alejandra falou diretamente de Ciudad Guayana, onde estava temporariamente na casa de sua família para as festas de fim de ano, sobre o impacto do sequestro de Maduro e da primeira-dama Cilia Flores por forças externas. Ela vive atualmente na capital Caracas.
Para a liderança feminista, o episódio não é um evento isolado, mas o ponto de ruptura de uma estratégia de agressão coordenada pelos Estados Unidos que já dura 25 anos. Nesta conversa, ela detalha como a presença de submarinos e frotas norte-americanas na costa venezuelana transformou a histórica ameaça de intervenção em uma realidade física e imediata.
Mais do que um balanço político, seu relato é um testemunho da Unidade Popular: a determinação de um povo que, mesmo sob o peso de sanções e ataques militares, recusa o “modo de sobrevivência” para seguir construindo soberania.

ICL Notícias — Como está o clima nas ruas e nas comunidades desde os ataques e o sequestro do presidente? O que mudou na vida cotidiana das pessoas?
Alejandra Laprea — Eu creio que isso ainda é muito difícil de medir. Creio que as pessoas estão agora como que despertando e se dando a oportunidade de chorar, dando a oportunidade de sair de um modo de sobrevivência, que é a primeira reação que todas e todos tivemos.
Imagino que, no transcurso da semana, continuaremos fazendo reuniões como a que acabo de sair com minha organização de base aqui na Venezuela, que é justamente para saber como estávamos e começar a definir como vamos continuar e quais são as ações que vamos tomar em curto e médio prazo.
Por um lado, houve desde o primeiro momento, no domingo, em cidades afetadas como Caracas, mobilizações rumo ao centro para manifestar apoio ao governo revolucionário e nosso rechaço à incursão militar e ao sequestro do nosso presidente e da nossa companheira Cilia Flores.
Ontem [domingo] houve uma marcha multitudinária em Caracas exigindo que regresse o presidente, que está sequestrado e sendo julgado por um tribunal que não tem nenhum tipo de competência para isso.
Vocês imaginavam que os primeiros ataques dos Estados Unidos a embarcações poderiam evoluir para a situação atual?
A possibilidade de uma intervenção armada na Venezuela está presente na mente dos venezuelanos há mais de 25 anos. É uma ameaça com a qual crescemos e caminhamos na revolução. Pessoas como meu filho, por exemplo, não tiveram outro registro de vida porque os Estados Unidos nos ameaçam com intervenção armada desde o início da revolução. Também é preciso dizer: apoiaram economicamente movimentos paramilitares no país e atentados contra o presidente.
Essas coisas não são muito cobertas pela mídia internacional porque não tiveram consequências devastadoras, mas a realidade é que Maduro sofreu um atentado.
Evidentemente, quando a frota norte-americana, com submarinos e tudo incluído, estava aqui na frente das nossas costas, a ameaça era muito mais próxima. Pensávamos: ninguém faz um movimento de tropas desse tamanho para nada, ou para fazer o que estiveram fazendo durante estes 5 meses, que foi executar extrajudicialmente pescadores ou pessoas em embarcações pequenas.
No fundo, sempre foi uma possibilidade, mas nunca ninguém quis acreditar que fosse verdade. É um sentimento muito confuso porque sabemos — quando analisamos as 1.042 sanções, quando vemos o que custou nos confiscarem ativos no estrangeiro ou roubarem nosso ouro em Londres —, obviamente tínhamos presente, mas não no coração. No coração, esperávamos que nunca passasse.
Em sua avaliação, o que buscam os Estados Unidos com estes ataques neste momento e como isso se relaciona com os interesses econômicos na Venezuela?
Bom, creio que é uma avaliação compartilhada por movimentos sociais: há um avanço sem precedentes das direitas e movimentos fascistas no mundo inteiro. Esse avanço não se mede apenas em propaganda; ele tem impacto direto em nossos territórios e nossos corpos, porque esse avanço vem justamente pelos nossos territórios e corpos.
O presidente Trump foi mais do que claro no que entende por fazer a América grande novamente: é voltar a consolidar uma hegemonia, converter o continente em seu quintal e ser o único administrador e beneficiado de nossos bens comuns.
E não é uma ameaça apenas sobre a Venezuela; é verbalizada contra a Colômbia, contra o México, ou executada com ameaças de tarifas contra o Brasil. É um momento muito parecido com o pré-guerra das Guerras Mundiais, onde uma pessoa lança mão de todo o pacote de supremacismo branco, fundamentalismos religiosos e barbárie.
Como você analisa o êxodo venezuelano para o Brasil? Que fatores internos e externos ajudam a explicá-lo e como ele dialoga com a situação atual do país?
É muito complexo. Primeiro, há um fator que nunca se coloca: houve uma indução forte do exterior para a imigração. Instalou-se pelas redes sociais a ideia de que o país ia colapsar e que era uma questão de vida ou morte sair. Eu tenho filhos de 20 anos e diziam diretamente a eles que no país não tinham futuro e que tinham que ir embora. Por outro, há uma coisa que precisa ser dita: é preciso ter um certo preparo, uma certa firmeza, para viver sob ameaça.
E a guerra econômica a que o povo venezuelano foi submetido leva mais de 20 anos. Viver com 1.042 sanções que afetam comida, remédios e insumos básicos não é fácil. Eu não critico a gente que foi embora, porque têm o direito de buscar uma vida em paz.
Além disso, as estatísticas da migração são muito manipuladas. Por exemplo, contavam as saídas, mas nunca os retornos. Eu mesma, por minhas responsabilidades, saio e entro no país, mas nunca contei para a estatística de retorno. Na Venezuela, vivem 5 milhões de colombianos, além de colônias enormes de portugueses, espanhóis e italianos.
É triste que façam uso político disso para invisibilizar quem ficou aqui construindo. Por exemplo, durante esse período, conseguimos passar de um país que dependia 90% de importações para um país que hoje produz 98% de sua comida. Ativamos a produção agrícola; temos dificuldades, mas estamos construindo soluções.
Pensando no presente e no médio prazo, quais você considera que são hoje os principais desafios para o povo venezuelano e para os projetos populares?
Somos um povo que resiste a renunciar à esperança. E a demonstração é que não passaram 48 horas do ataque e nossa resposta não é só estar na rua, mas é convocar reuniões. Eu estive o dia todo em reunião hoje, perguntando ‘onde estamos?’, ‘o que fazemos?’, ‘como vamos ativar as redes de cuidado e as organizações?’.
Vou te dar um exemplo do que é a vida aqui: eu estou na casa da minha mãe, vim passar o dezembro aqui, e estou fazendo uma pequena obra, uma construção. Hoje, no meio de todo esse quadro, o engenheiro me ligou para dizer: ‘Alejandra, não se preocupe, na quarta-feira estarei aí na obra para terminar os detalhes e te entregar a chave’.
Você vê a dimensão disso? Nos deram um golpe, nos invadiram, sequestraram o presidente, temos muito medo e muita raiva — algumas de nós ainda nem conseguiram sentar para chorar — mas seguimos nos levantando e pensando em como terminar os projetos.
Então, o primeiro desafio é processar este momento emocionalmente e analisá-lo. O segundo é resistir às tentativas de semear dúvida e divisão que já começaram nas redes sociais. É preciso entender a magnitude: a Venezuela foi atacada pelo país que tem o complexo militar e de inteligência mais forte do mundo, e nós somos um país de menos de 30 milhões de pessoas, bloqueado há 20 anos.
O desafio agora é manter a Unidade Popular acima de tudo. Já provamos que sobrevivemos à perda do nosso Comandante [Chávez] quando o mundo todo dizia que a revolução acabaria ali; desta vez também vamos nos manter firmes e seguir em revolução.
Ter como interina uma mulher como Delcy Rodríguez possui um peso simbólico?
Olha, eu creio que não é gratuito que ela estivesse ocupando o cargo de vice-presidente há tanto tempo. Como você sabe, pela nossa Constituição, em caso de ausência absoluta ou, neste caso, de um sequestro do presidente, é ela quem deve assumir as rédeas do país.
Para nós, mulheres, e para o movimento popular, o fato de ser ela traz uma camada de compromisso. Eu espero sinceramente que a companheira Delcy tenha toda a fortaleza necessária, porque o que ela está enfrentando não é algo fácil; é uma pressão imensa, tanto interna quanto externa, em um momento de agressão direta.
Todo o meu apoio está com ela, porque entendemos que na fortaleza dela e no triunfo da gestão dela neste momento de crise, está também a nossa fortaleza e o nosso triunfo como povo. É a continuidade do projeto revolucionário sob o comando de uma mulher que conhece profundamente as estruturas do Estado.
Que mensagem você gostaria de enviar à comunidade internacional, especialmente aos movimentos feministas e populares, neste momento?
A primeira coisa que eu gostaria é de agradecer. Agradecer profundamente a todas as organizações e movimentos populares que se têm mobilizado desde domingo. A solidariedade de vocês, o abraço, a indignação e até a raiva que nos transmitiram, tudo isso nos preencheu. Sentir que não estamos sozinhas e sozinhos foi o que nos deu sustentação e nos consolou nestas últimas horas.
É muito importante que o mundo saiba que a Venezuela segue de pé. A Revolução Bolivariana segue de pé. Não vamos recuar. Vamos continuar a construir pátria, a construir soberanias populares e, acima de tudo, continuar a sonhar. Vamos continuar a dar o nosso contributo para uma América livre, soberana e que seja, finalmente, nossa.



