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Por Bárbara Marques
(Folhapress) – O secretário de Segurança Pública de São Paulo, Guilherme Derrite, disse que já foi identificado um suspeito da morte do ex-delegado-geral de SP Ruy Ferraz Fontes, 64, morto a tiros em emboscada em Praia Grande (SP).
“Já temos um primeiro indivíduo identificado e qualificado. A Polícia Civil já está requisitando a prisão desse criminosos. É para a surpresa de zero pessoas, inclusive a nossa. É um indivíduo que já foi preso várias vezes pelas forças policiais. Foi preso por roubo duas vezes, foi preso quando era adolescente infrator.”
Derrite não descartou a ligação do suspeito com o crime organizado e prometeu uma “pronta resposta”.
“Todos os que participaram desse atentado terrorista contra o doutor Ruy serão punidos severamente”
A declaração foi dada durante o velório de Ferraz Fontes na Alesp (Assembleia Legislativa de São Paulo), nesta terça-feira (16).
O corpo do delegado chegou ao local às 11h. Policiais carregaram o caixão até o interior do andar monumental, onde Fontes será velado. A cerimônia conta com a presença de familiares e muitos policiais civis. Autoridades do governo do estado de São Paulo também devem comparecer à despedida.
O cortejo está previsto para as 15h. Fontes foi atacado na noite desta segunda-feira (15), ao sair da Prefeitura de Praia Grande, onde atuava como secretário.
O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) determinou a integração de uma força-tarefa para prender os responsáveis pelo assassinato e disse que o governo trabalha para que os criminosos sejam exemplarmente punidos pela Justiça.
De acordo com Artur Dian, atual chefe da Polícia Civil de SP, os criminosos usaram táticas e técnicas apuradas para o crime. “Então a gente não pode descartar nada sobre o crime organizado ter participado.”
Morte do delegado
Morto a tiros de fuzil em Praia Grande, o ex-delegado-geral de São Paulo Ruy Ferraz Fontes não chegou a se defender dos criminosos. A arma dele, segundo o registro de ocorrência do caso, uma pistola 9 milímetros, foi encontrada em uma bolsa junto com outros itens pessoais.
Segundo o boletim de ocorrência do caso, tiros foram disparados antes do ataque fatal, que ocorreu no encontro entre a avenida Doutor Roberto de Almeida Vinhas e a rua 1º de Janeiro, após ele bater o carro em dois ônibus enquanto tentava escapar dos criminosos. O veículo foi atingido por 29 disparos.
Segundo agentes da Guarda Civil Municipal de Praia Grande, vestígios de pólvora foram localizados próximo a Secretaria da Educação do município.
A perseguição ainda deixou duas pessoas feridas. Um homem e uma mulher deram entrada em hospitais da cidade com ferimentos causados por tiros. De acordo com o registro policial, eles disseram que estavam na frente da casa de familiares quando foram atingidos pelos disparos. O estado de saúde deles não foi informado.
Ao menos dois veículos foram usados no crime. Um Toytota Hilux, que aparece nas imagens transportando suspeitos com armas, foi encontrado pegando fogo a cerca de dois quilômetros do assassinato. Agentes da GCM encontraram um Jeep Renegade abandonado em outro ponto, também à mesma distância. Perto dele havia um carregador de fuzil e um de pistola e munição deflagrada.
Morto a tiros de fuzil em Praia Grande, o ex-delegado-geral de São Paulo Ruy Ferraz Fontes não chegou a se defender dos criminosos
Suspeito passou por ala de presídio ligada ao PCC, diz promotor
O suspeito identificado como um dos envolvidos no assassinato do ex-delegado-geral de São Paulo Ruy Ferraz passou pela ala de uma presídio ligada ao PCC (Primeiro Comando da Capital), segundo o promotor Lincoln Gakiya, integrante do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado de São Paulo) do Ministério Público.
Apesar da possível ligação do suspeito com a facção criminosa, o promotor disse que não dá confirmar que o crime foi praticado pelo PCC. “Isso não quer dizer que possa ter sido um crime praticado por outro tipo de organização criminosa, ligada a contratos públicos que por ventura o doutor Ruy tenha participado em Praia Grande”, diz.
A frente das investigações sobre a atuação do PCC no estado de São Paulo, Gakiya disse que falou com Ruy pela última vez em maio, durante as investigações da operação Fim da Linha, que identificou a atuação do crime organizado no sistema de transporte público de São Paulo. “Ele disse que estava presenciando isso também lá na Baixada Santista, estava temeroso de entrar esse tipo de influência na Praia Grande”, disse o promotor.
O promotor afirmou já ter alertado o ex-delegado várias vezes sobre decretos de morte em seu nome interceptados no sistema penitenciário. “Isso vinha desde 2006”, disse Gakiya. “Em 2010, em uma investigação nossa, apareceu um plano para matá-lo. Eu fui o responsável por comunicar a Rota [tropa de elite da PM] na época, e dois indivíduos foram presos na porta do 69º DP onde o doutor Ruy atuava. Esse plano foi desmobilizado e evitamos a morte dele.”
Aposentado desde 2023, Ruy atuava como secretário de Administração da Prefeitura de Praia Grande e não tinha direito à escolta armada do estado. O ex-delegado-geral costuma dirigir um veículo particular blindado, mas estava em um carro comum quando foi vítima da emboscada em uma avenida movimentada na Praia Grande.
“Eu alertei ele para manter a proteção e ele disse: doutor, para o senhor é mais fácil porque tem a escolta. Eu, como aposentado, não tenho mais esse direito”, disse Gakiya.
O promotor revelou a mesma preocupação: “Eu não tenho garantia nenhuma de que se eu me aposentar vou ter alguma garantia do Estado”.
Ele relembrou o assassinato de Ismael José Feitosa, diretor da extinta Casa de Detenção durante o “massacre do Carandiru”, em 2005 dois anos após se aposentar. “Foi uma vingança mesmo para mostrar para os diretores de presídios que, se incomodar a facção, será morto mesmo após aposentado. Não há perdão.”



