Por Cleber Lourenço
A tentativa da extrema direita de pautar o Projeto de Lei da Anistia na Câmara tem causado mais desgaste do que avanços. Parlamentares do Centrão apontam que a proposta já nasceu com prazo de validade. O momento decisivo teria sido a eleição de Hugo Motta para a presidência da Câmara dos Deputados, seguida de uma manifestação bolsonarista em Copacabana que, esvaziada, falhou em gerar apoio popular ou clima político favorável.
Para deputados experientes do Centrão, trata-se de uma pauta de nicho, sem apelo social ou repercussão pública. “Não é tema de conversa nas ruas”, disse um parlamentar próximo à Mesa Diretora. Nesse cenário, a bancada bolsonarista pressiona por um projeto que não mobiliza a sociedade e corre o risco de afastar um presidente da Câmara já incomodado com seus métodos.
Hugo Motta demonstrou irritação com o comportamento da extrema direita desde o início de seu mandato. Repreendeu parlamentares por tumultos no plenário e, mais recentemente, foi abordado de forma hostil por uma mulher identificada como esposa de um foragido dos atos golpistas de 8 de janeiro, durante evento dos Republicanos.
Como parte da pressão, a oposição iniciou obstruções nas comissões da Câmara e organiza um evento com familiares e condenados pelos atos antidemocráticos na Câmara. De acordo com o deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), “enquanto ele [Motta] não decide, o PL vai estar em obstrução total.”
O deputado Zucco (PL-RS) afirmou que a oposição continua em obstrução até a votação do texto da anistia. Segundo Zucco, a prioridade “é a anistia e agora também a suspensão [da ação penal contra o deputado Ramagem].”
“Anistia para nós é para as pessoas que estão lá presas, pagando a pena injustamente, não tem nada a ver com o presidente Bolsonaro. (…) Em nenhum momento fala-se de presidente Bolsonaro e nós nunca vamos falar, porque não é ele o alvo dessa questão do PL da anistia. Nunca foi”, afirmou ainda Zucco.

O deputado Hugo Motta, presidente da Câmara (Foto: Agência Câmara)
Motta tem resistência à pauta da anistia
Interlocutores próximos a Motta afirmam que essas ações, em vez de sensibilizá-lo, devem reforçar sua resistência à pauta da anistia. Além disso, Hugo Motta tem se aproximado do governo federal.
A viagem à Ásia ao lado do presidente Lula, na qual foram fechados acordos comerciais, fortaleceu os laços entre ambos. Segundo aliados, Motta passou a ver com mais clareza a importância da agenda econômica e consolidou um alinhamento pragmático com o Planalto na pauta econômica.
Esse alinhamento é reforçado pela boa relação com a ministra-chefe da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, responsável pela articulação política do governo. Próximos, Motta e Gleisi têm mantido diálogo constante sobre a pauta econômica e a organização da base aliada no Congresso.
A sintonia se expressa na prioridade dada a projetos como a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda, a PEC da reciprocidade tributária e propostas de combate à inflação. São pautas com impacto direto na vida da população e peso eleitoral, ao contrário da anistia, que não gera retorno político.
A avaliação no governo é de que Motta atua com foco em resultados e estabilidade. A insistência da extrema direita pode, portanto, ser contraproducente. Em vez de conquistar apoio, corre o risco de transformar o presidente da Câmara em adversário declarado.
Com pouca mobilização social, estratégias ineficazes e perda de apoio político, a extrema direita vê a pauta da anistia perder força. E, ao insistir no confronto, pode assistir à consolidação de sua derrota ainda mais fragosa dentro da própria Casa onde tenta impor sua agenda.
Fonte: ICL Notícias