Não importa o motivo. O resultado é dor e morte.

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Dia desses estava rindo com um post de internet onde mulheres relatavam suas vinganças com ex-companheiros traidores. Uma delas colocou um camarão em cada ponto de luz da casa, provocando uma fedentina tão insuportável e não identificada, que o sujeito teve que abandonar o imóvel. Outra moça comprou dois quilos de purpurina e soltou os sacos pela casa inteira. Geladeira, sofá, televisão, armários, máquina de lavar, roupas de cama, banheiro… Tudo purpurinado. Um vingança, literalmente, brilhante. Ri muito até pensar no contrário, ou seja, se eles decidissem se vingar delas por uma traição? Nenhuma das vinganças delas envolvia o resultado morte, mas e as deles? Um arrepio percorreu a espinha.

Os últimos dias foram especialmente macabros. Duas mulheres foram mortas dentro do CEFET, o Rio de Janeiro, por tiros de um colega de trabalho; outra perdeu a vida em São Paulo, quando um homem atirou, usando duas armas, contra sua ex-companheira na pastelaria em que ela trabalhava; e uma quarta mulher teve as pernas severamente mutiladas após ser atropelada e arrastada, por cerca de um quilômetro, enquanto ainda estava presa embaixo do veículo.

Todos os exemplos que darei aqui saíram na imprensa.

Uma mulher teve um romance rápido com um homem. Não quis prosseguir. Ele a matou.

Uma moça teve um romance rápido com um colega de escola. Não quis prosseguir. Ele a esperou na saída com um vidro de ácido e deformou seu rosto.

Uma mulher não quis mais o casamento. Ele a matou na frente das filhas.

Uma jovem, no dia de seu aniversário, desagradou o namorado. Ele desferiu 61 socos dentro de um elevador que destruíram sua face e a fez perder a visão de um dos olhos.

Você já ouviu alguma destas frases, talvez todas: Feministas odeiam homens; Feministas vão destruir as famílias; Feministas defendem a morte de bebês; A mulher deve ser submissa ao homem; Não aguento mais esse “mimimi”; Vai valer apenas a palavra dela? Cadê a prova?

A palavra de uma mulher vale muito pouco ou nada. Sempre lembrando que investigações policiais comparam padrões de comportamento, ouvem as vítimas mais de uma vez, questionam as contradições, tomam outros depoimentos. Sustentar uma mentira deste grau diante de uma investigação não é nada fácil, mas a mulher nunca é dada presunção da confiabilidade.

A mãe de uma menina, filha e irmã de outra mulheres, uma profissional… gritou aos quatro ventos anunciando que o colega de trabalho a mataria. Adoeceu psiquicamente, tirou licença, trabalhou de casa. Seus superiores não escutaram, seus outros colegas não a escutaram. O homem a matou assim que ela pisou de volta no ambiente de trabalho.

O corpo da mulher é um território disputado e retalhado pelo estado, pela família, pelos homens, pelas religiões. Que pedaço dela sobra para ela mesma? Um pedaço destroçado por violências sem conta, por silenciamentos e medos. Uma voz que não é ouvida por mais que grite.

Trezentas mil mulheres negras marcharam em Brasília há duas semanas. Nenhuma linha em grandes veículos ou telejornais, nenhuma menção nas esferas governamentais mais altas, nenhuma atenção.

Não me venham com “Fulana, presente!”. Tainara Souza, Allane Matos, Layse Pinheiro e centenas de outras que perderam a vida nos último dias não estão presentes. Foram brutalmente arrancadas de suas famílias, amigos, amores, sonhos.

A competência em silenciar fazem do Brasil um país cínico, abusador, cruel demais. O que de efetivo faremos para virar este jogo?

 





ICL Notícias

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