Horas depois de anunciar um socorro financeiro bilionário ao governo argentino, o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, deixou claro que o acordo vai além da economia: é também geopolítico. Em entrevista à Fox News, Bessent afirmou que o presidente Javier Milei está “comprometido em tirar a China da Argentina”, elogiando o libertário como “um grande aliado dos EUA” e um símbolo de mudança para a América Latina (para entender a crise argentina, clique aqui para assistir ao documentário “Vai pra Argentina, Carajo!”, do ICL).
A fala escancarou a troca de favores por trás do acordo: em troca da ajuda cambial de US$ 20 bilhões, fundamental para enfrentar o colapso monetário e evitar um novo estouro social às vésperas das eleições legislativas, Milei oferece alinhamento total à Casa Branca e hostilidade aberta a Pequim.
“O peso argentino está subvalorizado. Isso não é um resgate, é um investimento”, declarou Bessent, tentando afastar críticas internas ao plano.
A operação, intermediada com apoio do Fundo de Estabilização Cambial (FSE), prevê compra direta de pesos no mercado e visa conter a escalada da inflação e o risco de hiperdesvalorização da moeda argentina.
Fracasso do plano Milei para salvar a Argentina
Pressionado pela deterioração das condições econômicas, o governo Milei aposta em um reposicionamento internacional para conter o agravamento da crise interna. Após meses de políticas de ajuste duro, especialmente contra a população mais pobre e aposentados, os indicadores sociais se deterioraram sem entregar a prometida estabilização fiscal.
Nesse contexto, a aliança com os EUA surge como uma tábua de salvação. A equipe econômica argentina — liderada por Luis Caputo e assessores de perfil pró-mercado — manteve reuniões a portas fechadas em Washington, articulando um pacote com o Tesouro americano e o FMI (Fundo Monetário Internacional), que também teria papel ativo nas negociações.
Para Washington, o apoio à Argentina não é apenas financeiro: é estratégico. A presença da China na América Latina, sobretudo via swap cambial com o Banco Central Argentino (de cerca de US$ 18 bilhões), é vista como ameaça direta à hegemonia do dólar.
O novo acordo sinaliza que Washington pode exigir, em breve, o fim do swap com o gigante asiático — embora isso ainda não tenha sido formalizado.
Democratas reagem a plano
Críticos dentro dos EUA, especialmente do Partido Democrata, reagiram ao plano. A senadora Elizabeth Warren ironizou: “Em vez de comprar pesos argentinos, Trump deveria ajudar os americanos a pagar por saúde”. Warren é uma das vozes mais críticas da ajuda externa a governos autoritários ou ultraliberais, comparando Milei a “um peronista às avessas”.
No pano de fundo, o apoio de Trump a Milei — que terá um encontro com o ex-presidente no Salão Oval — revela a dimensão política da aliança. Para setores conservadores dos EUA, a Argentina libertária de Milei pode ser uma vitrine ideológica para contrabalançar os avanços da China e conter o retorno de governos progressistas na região.
Assista à análise da economista e apresentadora do ICL Mercado e Investimentos, Deborah Magagna, sobre a situação econômica na Argentina:



