Por Paulo Batistella — Ponte Jornalismo
Yuri Cavalcante, de 24 anos, caminhava já a poucos metros de casa, na Avenida General Ataliba Leonel, na zona norte de São Paulo, no início da manhã do último sábado (22/3) quando foi abordado por um motorista que encostou o carro junto à calçada. O condutor do veículo desceu e apontou uma arma de fogo para o jovem, que é negro, no que aparentava ser um assalto: “Não corre, senão eu vou atirar.”
Assustado, Yuri correu ainda assim, sem saber ainda que estava sendo injustamente acusado de um furto que não cometeu. Ele foi perseguido pelo carro enquanto gritava, na tentativa de chamar a atenção dos poucos pedestres que transitavam pela avenida naquele horário, por volta das 5h40 — o jovem, que é publicitário, voltava de uma festa no centro da cidade, após desembarcar na estação do metrô Parada Inglesa.
Na tentativa de fuga, jogou o celular e a bolsa no chão, para que o aparente assaltante ficasse com seus pertences. Mas acabou alcançado em frente ao condomínio onde vive, quando foi derrubado ao receber um chute pelas costas de um outro homem que o perseguia a pé — identificado posteriormente como Matheus Sampaio. Caído à beira da sarjeta, passou a receber socos na cabeça do agressor.
Jovem: ‘Tive certeza de que ia morrer’
O carro da perseguição chegou então ao local. Dele, desceram Felipe dos Santos Antônio, segurança de um bar na avenida Luiz Dumont Villares, na mesma região, e Ellen Wirth Ribeiro Auada, cliente do mesmo estabelecimento. Ela relatava ter tido o celular furtado. Surgiu também um amigo dela, Rhamon Máximo da Fonseca Alves. A cena foi toda filmada por uma câmera de segurança.
Ainda com Yuri caído e cercado por Felipe e Rhamon, Matheus e Ellen seguiram com o linchamento. Em certo momento, a vítima levou um chute da cabeça e perdeu a consciência por um instante. “O segurança desceu do carro com a arma apontada para mim, perguntando: ‘Cadê o celular?’. Eu dizia: ‘Eu já entreguei, já entreguei’. Tive certeza de que ia morrer, foi horrível. Aí apaguei”, conta Yuri à reportagem.
O jovem recobrou a consciência quando policiais militares de uma base vizinha ao condomínio surgiram no local. Só então entendeu o motivo de ter sido agredido, ao ser apontado como suspeito de um furto. Os policiais foram compreensivos com sua condição de vítima, diz Yuri, e o questionaram se gostaria de receber atendimento médico. Ele conta que negou e preferiu ir à delegacia por medo de que a versão dos agressores pudesse prevalecer.
“Eu quis falar com o delegado, estar presente, falar onde eu estava, para que nenhuma injustiça ocorresse, porque, a gente sabe, eu sou uma pessoa negra e estava sendo acusado de furto, então até tive sorte pelo delegado que estava lá e pelos policiais que me atenderam”, ressalta a vítima.

Yuri sofreu chutes na cabeça enquanto estava caído no chão e chegou a perder a consciência (Foto: Reprodução)
‘Se eu fosse branco, não teria sido abordado assim’
Yuri diz compreender que foi vítima de racismo no caso e lembra de um episódio parecido ocorrido no Rio de Janeiro recentemente, com o jornalista Igor Melo de Carvalho, de 31 anos, baleado por um policial militar aposentado ao ser injustamente acusado de um roubo que não cometeu. “Vamos supor que eu fosse um homem branco de 50 anos, ou estivesse de terno, fosse uma senhora, uma criança, enfim, se não tivesse um fenótipo como o meu, de jovem negro, não teria sido abordado com essa violência”, afirma.
“Não é só coincidência que todas essas pessoas tenham as mesmas características, que sejam jovens e negros. Como dizem: é mais um caso isolado, mas que, na próxima semana, vai ter outro igual, e depois outro”, lamenta o jovem agredido em São Paulo.
Dois dos agressores de Yuri eram, assim como o homem que atirou em Igor, também negros. Em publicação anterior envolvendo a vítima carioca, a Ponte mostrou que a cor da pele do algoz não minimiza a eventual dimensão racista da violência contra negros, conforme explica o jornalista e pesquisador Dennis de Oliveira, autor de Racismo Estrutural: Uma perspectiva histórico-crítica, entre outros livros.
“O racismo, como componente estrutural e ideológico, não está ligado a quem pratica. Inclusive, a própria Lei Caó, a lei 7.716/1989, que tipifica o crime de racismo, não fala em momento algum ser uma lei somente para pessoas brancas. É uma lei para quem pratica racismo”, explicou o pesquisador à reportagem, naquela ocasião.
Intimidação de ‘lesão corporal leve’
O caso de Yuri foi registrado no 13º Distrito Policial, no bairro Casa Verde, para onde foi acompanhado da mãe, que despertou com a confusão e foi acudir o filho em frente ao condomínio. Mesmo na delegacia, a agressora Ellen, também acompanhada da mãe, não recuava da falsa acusação, relata a vítima. “Elas ficavam nos provocando. Falavam que tinham parentes na Corregedoria, na tentativa de intimidar os policiais. Falavam nomes de criminosos: ‘liga para o Marcola, liga para ele’”, conta o publicitário.
Ellen, que é uma mulher branca, afirmou à polícia que teria recebido uma suposta localização do aparelho furtado com a indicação de que estaria na mesma avenida em que Yuri foi linchado. Felipe, que depôs na condição de testemunha, negou que tivesse uma arma e disse portar, na verdade, uma lanterna. O segurança afirmou ainda que prestou apoio à cliente após receber a notificação do suposto furto. Rhamon também foi à delegacia. Já Matheus evadiu-se do local da ocorrência.
O caso foi registrado como lesão corporal leve. Yuri teve múltiplas lesões traumáticas no rosto e no crânio, conforme indica o laudo médico do pronto-socorro que o atendeu após ter passado pela delegacia. A vítima teve também escoriações nos joelhos e diz ainda sentir dor intensa.
Yuri se recupera de casa, enquanto teve a rotina interrompida. O publicitário havia deixado um último trabalho em fevereiro, para cuidar dos preparativos de um intercâmbio na Austrália. Ele pretende buscar reparação nas esferas cível e criminal. “Agora tenho que lidar ainda com os inchaços, o rosto, a vergonha, o medo, porque essas pessoas sabem onde é a minha casa. E também tenho sofrido muito ódio nas redes sociais, comentários homofóbicos e em tom político”, afirma.
“Mas reconheço que ainda tenho privilégios. Tenho uma condição financeira que me permite buscar uma defesa, morar em um condomínio com câmera, perto de uma base policial. Mas quantos outros não têm esses privilégios, não tiveram a mesma sorte que eu?”, questiona-se Yuri, sobre ter sobrevivido.
O que diz a SSP-SP
A reportagem questionou a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) sobre por qual razão o caso foi registrado como lesão corporal leve, e não lesão corporal grave ou tentativa de homicídio. Em resposta, a pasta afirmou, por meio de nota, que o resultado de um exame solicitado ao Instituto Médico Legal (IML) sobre a gravidade das lesões a Yuri poderá alterar a natureza da ocorrência.
A reportagem não conseguiu contato direto com Ellen, Felipe e Rhamon. Pelas redes sociais, enviou mensagens para Matheus e para o bar ao qual Felipe presta serviços. Não houve retorno até esta publicação. Caso as demais partes queiram se manifestar, o espaço está aberto.
Leia a íntegra do que diz a SSP-SP
O caso foi inicialmente registrado como lesão corporal e segue sendo investigado pelo 9º Distrito Policial (Carandiru). Foi requisitado exame ao IML, para que seja apontada a gravidade da lesão. O resultado poderá atualizar a natureza do boletim, contribuindo para as investigações. De acordo com o artigo 129 do Código Penal, a gravidade da lesão é comprovada apenas por meio de laudo médico ou pericial.
Fonte: ICL Notícias