Durante algum tempo, a animação Caverna do Dragão, de 1983, mobilizou inúmeras teorias sobre qual seria o destino daqueles personagens, presos em um mundo mágico, sem um caminho para voltar para casa. O tão aguardado último episódio nunca chegou a ver a luz do dia. Ou melhor, nunca chegou a reluzir nas TVs dos telespectadores que aguardavam ansiosos o desfecho de Hank, Eric, Diana, Sheila, Presto e Bobby.
Como um produto que emergiu da indústria cultural estadunidense, o seriado também chegou aos lares brasileiros e fez parte do cotidiano de crianças, adolescentes e até mesmo adultos. O mistério irresoluto e, portanto, curioso, de sua conclusão, também era parte das conversas na escola, nas ruas, casas e esquinas.
Diante dessa lacuna deixada pela cultura pop global, o cineasta Maurílio Martins, conhecido pela direção do filme No Coração do Mundo, surge com sua nova empreitada: o longa-metragem O Último Episódio, produzido pela Filmes de Plástico, mira em Caverna do Dragão para conduzir uma história sobre memória, amizade e senso de comunidade.
Cotidiano e celebração
A trama parte de um desafio comum e já muito explorado no cinema coming of age (termo para filmes sobre amadurecimento): o adolescente Eric, interpretado por Matheus Sampaio, quer conquistar Sheila, interpretada por Lara Silva. Os nomes não são um acaso, aliás. Para isso, o adolescente de 13 anos mente para a menina que tem a fita com o último episódio da animação de 1983 e a convida para ir até sua casa assistí-la.
É sim uma premissa comum, se considerarmos as inúmeras obras fílmicas que abordam a mesma temática. O seriado Anos Incríveis, de 1988, por exemplo, é uma inspiração notável. Mas o triunfo da história é o mesmo que consolidou a singularidade de outros longas da produtora, como Marte 1, selecionado para representar o Brasil no Oscar em 2023, No Coração do Mundo, Temporada, entre outros.
O Último Episódio parte dos afetos regionais e cotidianos da periferia de Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), em Minas Gerais, para personificar suas imagens, sua trama e seus personagens.
O ano é 1991 quando Eric, diante da mentira que ele mesmo inventou, precisa convencer seus amigos, Cassinho, interpretado por Daniel Victor, e Cristão, interpretada por Tatiane Costa, a embarcarem na empreitada de criarem, eles mesmos, o desfecho de Caverna do Dragão, com a câmera do seu pai, que faleceu quando ele ainda era uma criança.
O enredo toma forma quando o sotaque, as vivências características do período e o orgulho em ser um filme abertamente mineiro entram em cena. Essa decisão, marcadamente um traço de Maurílio Martins e da Filmes de Plástico, é mais um aceno assertivo a um cinema produzido com paixão pela autoria e pela investigação dos lugares de origem.
Enquanto esse trio passeia pelas ruas do bairro Jardim Laguna em busca dos objetos e localidades para gravação da fita, suas personalidades vão sendo desenvolvidas com uma delicadeza exemplar. Há espaço para os conflitos internos de Eric em relação à morte do pai e ausência da mãe; para os atritos entre Cassinho e sua mãe religiosa que o impede de viver em liberdade; e também para o seio familiar acolhedor de Cristão, que confere à personagem a personalidade mais interessante.
No caminho, chamam a atenção, em especial, dois coadjuvantes. A diretora da escola, Simone, interpretada por Babi Amaral, e Zena, interpretado por Leonardo de Jesus, que, além de encarnarem personas já conhecidas pelo imaginário popular, arrancam as risadas mais genuínas da produção.
A direção de Maurílio Martins, aliada ao design de produção, são talvez os maiores acertos do filme. Remontar os anos 1990, em Contagem, afinal, demandaria um orçamento grandioso, mas as decisões são espertas ao lidar com as limitações. Os objetos e cenários fazem esse trabalho com sutileza e sagacidade e são também parte fundamental de uma trama repleta de nostalgia. A feira de cultura na escola, o mimeógrafo e as impressões fotográficas, por exemplo, são apenas alguns dos elementos em uma projeção investida em fazer seu espectador procurar por diversas referências em primeiro e segundo plano.
A trilha sonora também faz bem esse trabalho. Idealizada por John Ulhoa e Richard Neves, da banda Pato Fu, o filme conta com interpretação inédita do clássico dos anos Qualquer Jeito, cantada agora por Fernanda Takai. Doce de Mel, canção que ficou famosa na voz de Xuxa, também tem um papel importante na trama.
O Último Episódio parte de um fragmento da história da cultura pop no sul global para colocar em perspectiva um cinema que olha para si, antes de olhar para fora, e que reconhece nesse laço estético que por tantos anos nos organizou uma possibilidade de reivindicar autoria e orgulho do cinema nacional.
Com esse filme, Maurílio Martins e a Filmes de Plástico celebram a cultura brasileira e mineira, em particular, e buscam na memória e nos afazeres comuns do cotidiano a graciosidade de um cinema que pulsa das periferias para o mundo.




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