Brasil tem alta nas emissões de metano e alcança 2º maior nível da história

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As emissões brasileiras de metano cresceram e chegaram em 2023 ao segundo maior patamar da série histórica. De acordo com levantamento do Observatório do Clima, divulgado nesta quarta-feira (27), o país liberou 21,1 milhões de toneladas do gás, uma elevação de 6% em comparação a quatro anos antes.

Com esse resultado, o Brasil aparece como o quinto maior emissor mundial, ficando atrás apenas de China, Estados Unidos, Índia e Rússia. Embora esteja presente em menor quantidade na atmosfera do que o dióxido de carbono (CO₂), o metano (CH₄) é considerado muito mais prejudicial para o clima, podendo reter até 28 vezes mais calor ao longo de um período de cem anos.

A pecuária bovina responde pela maior parte desse impacto. Em 2023, o setor lançou 14,5 milhões de toneladas de metano na atmosfera, número superior a todas as emissões de gases de efeito estufa da Itália no mesmo período. Isso ocorre em um cenário de crescimento do rebanho nacional, que chegou a 238,6 milhões de cabeças de gado — recorde histórico e quase 20 milhões a mais do que em 2020.

O relatório foi publicado como complemento à proposta de uma nova NDC (Contribuição Nacionalmente Determinada), apresentada pelo Observatório do Clima em 2024, que deverá orientar as próximas rodadas de negociações internacionais sobre o tema.

Apesar do aumento no metano, o SEEG (Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa) mostrou que o Brasil registrou, em 2023, a maior redução de gases do efeito estufa em 15 anos. Foram liberadas 2,3 bilhões de toneladas de CO₂ equivalente, uma queda de 12% em relação ao ano anterior. Esse total corresponde às emissões anuais de cerca de 540 milhões de automóveis.

Essa diminuição foi a mais expressiva desde 2009, quando as emissões brutas haviam recuado para 1,77 bilhão de toneladas, o menor nível desde o início da série histórica em 1990.

A divulgação ocorre a menos de três meses da COP30, que será sediada em Belém (PA). Segundo o Observatório, a intenção é pressionar o governo brasileiro a adotar metas mais claras para conter a liberação de metano, considerado o “segundo vilão” do aquecimento global.

O Brasil aderiu em 2021, durante a COP26 em Glasgow, ao Compromisso Global do Metano, que prevê reduzir em 30% as emissões até 2030. No entanto, ainda não apresentou um plano estruturado para alcançar esse objetivo.

Um relatório anterior do próprio Observatório já havia apontado que o país teria condições de cortar até 36% de suas emissões de metano até 2030, caso avançasse em políticas de combate ao desmatamento, modernização da agropecuária e melhor gerenciamento de resíduos.

“O OC tem mostrado tecnicamente que, para liderar a ambição climática mundial, o Brasil precisa focar em soluções de regeneração florestal, recuperação de solo e adoção de energias renováveis. Ao mesmo tempo, terá de reduzir as emissões de metano, lidando com a magnitude da atividade pecuária, a precariedade da gestão de resíduos sólidos e a pobreza energética”, afirma David Tsai, coordenador do SEEG.

Metano é 28 vezes mais potente que o CO₂, mas é bem menos abundante (Foto: Ralf Vetterle/Pixabay)

Principais setores emissores do Brasil

O agronegócio segue como a maior fonte de metano no país, concentrando 75,6% do total. Apenas a pecuária representa 98% dessa fatia.

Na sequência, aparecem:

  • Resíduos sólidos: 3,1 milhões de toneladas, sobretudo do lixo orgânico descartado em aterros e lixões.
  • Mudança de uso da terra e florestas: 1,33 milhão de toneladas, associadas principalmente às queimadas.
  • Energia: 0,55 milhão de toneladas, das quais mais da metade ainda resulta da queima de lenha em residências.
  • Indústria e uso de produtos: 0,02 milhão de toneladas.

Caminhos para redução

Segundo o Observatório do Clima, cortes mais profundos poderiam trazer resultados imediatos. A estimativa é que reduzir em 45% as emissões de metano até 2040 ajudaria a limitar o aquecimento global em até 0,3 ºC.

  • No setor pecuário, especialistas defendem práticas já conhecidas, como
  • melhorar a dieta dos animais, diminuindo a fermentação no processo digestivo;
  • reduzir o tempo de abate, encurtando o período de emissão por animal;
  • investir em melhoramento genético para aumentar a produtividade sem elevar as emissões na mesma proporção.

No caso dos resíduos, o relatório reforça a urgência de eliminar todos os lixões até 2028, meta prevista em lei, mas ainda não cumprida pela maioria dos municípios. A rede também recomenda ampliar a coleta seletiva, a reciclagem e o aproveitamento do biogás liberado em aterros, que poderia ser convertido em energia limpa.

Quanto ao desmatamento, pesquisadores chamam atenção para uma falha nas estatísticas oficiais: o Inventário Brasileiro de Emissões não contabiliza queimadas em vegetação nativa, o que pode deixar de fora uma parcela significativa das emissões ligadas ao fogo em biomas como a Amazônia e o Cerrado.

“Como só são contabilizadas as emissões por fogo associadas ao desmatamento, o estudo do SEEG mostra que essa lacuna precisa ser solucionada à medida que cresce a relevância do fogo como agente de degradação nos biomas brasileiros”, afirma Bárbara Zimbres, pesquisadora do Ipam.





Fonte: ICL

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