Brasil pode ter vantagens com guerra de tarifas de Trump

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A escalada da guerra de tarifas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pode trazer vantagens competitivas ao Brasil, na avaliação de especialistas. Porém, é preciso ter cautela, uma vez que as consequências para a economia global do “tarifaço” que vem sendo imposto pelo republicano ainda são imprevisíveis.

Desde o prenúncio do que vinha pela frente desde que Trump tomou posse, em 20 de janeiro, a diplomacia brasileira tem tido uma postura considerada impecável nas negociações com o governo norte-americano. Tanto que o Brasil foi um dos países com a menor sobretaxa do pacote de Trump (10%).

O principal argumento usado nas negociações é de que a balança comercial entre os dois países é superavitária em favor dos Estados Unidos, ou seja, o Brasil mais compra do que vende para lá, e isso não é de hoje. Portanto, o Brasil deixou claro que não é um problema para os norte-americanos. Mas Trump usou o argumento de que algumas tarifas cobradas pelo Brasil são maiores do que aquelas cobradas pelos EUA. Só se esqueceu de dizer, que a discrepância não é por acaso: é fruto de acordo realizados sob o guarda-chuva da OMC (Organização Mundial do Comércio).

Entre os setores brasileiros que devem ser mais atingidos pelas sobretaxas anunciadas por Trump até aqui estão a siderurgia e o agronegócio, além de empresas como a Embraer.

No caso do agro, entre os produtos mais comprados pelos norte-americanos dos brasileiros estão produtos florestais, café, carnes e sucos.

Em um mundo globalizado, nenhum país consegue ser autossuficiente em tudo. Mas, ao impor o tarifaço, Trump argumenta que quer retomar a potência da indústria nacional e combater os déficits comerciais de bens que somam cerca de US$ 1 trilhão ao ano.

Guerra de tarifas: se souber negociar, Brasil pode se dar bem

No cenário das relações comerciais, assim como em certos jogos de cartas, a posição do participante pode ser determinante. Quando uma grande potência do agronegócio e da indústria decide se retirar, o impacto sobre a disputa é inevitável. Segundo o economista André Perfeito, ao adotar tarifas elevadas, Donald Trump pode ter afastado os Estados Unidos do tabuleiro.

“Ele está deixando toda a demanda que era americana na mesa, ou seja, ele ia consumir mais de outros países, não vai consumir porque ele está tarifando esses países. Então, essa demanda que ficou solta pode ser capturada por outros países. Esse jogo do mercado do comércio global, o que o Trump fez foi reembaralhar o baralho do comércio mundial e agora cabe aos jogadores, os outros países, saberem se aproveitar disso”, disse o economista André Perfeito ao Jornal Nacional.

Ao taxar todos os países ao mesmo tempo, Trump pode ter criado as condições para uma reação coordenada do mundo. Na avalição dos economistas, os países terão que se reorganizar, rever acordos, alguns, em resposta, podem se fechar para os Estados Unidos. O que coloca novas cartas na mão do Brasil.

Como a tarifa de importação imposta ao Brasil é menor, alguns setores, como o calçadista, se preparam para ganhar mercado.

“Hoje, o imposto de importação médio dos Estados Unidos é em torno de 17,3%. Bom, 17,3% acrescido 10% passa para 27%. Se nós compararmos o quanto a China vai crescer de 34% ou Vietnã 46%, a Indonésia 32%, essa é a oportunidade que nós enxergamos que nós podemos ter uma competitividade maior no mercado americano”, afirmou Haroldo Ferreira, presidente-executivo da Abicalçados, ao Jornal Nacional.

“Se a gente souber utilizar esse momento com o uso do Itamaraty, sabendo pegar todos os países que podem se beneficiar de produtos nossos, entender que o Brasil tem um desconto em relação aos outros para exportar para os Estados Unidos e, por fim, entender que não é só mundo agro, mas o mundo industrial nosso pode se beneficiar, tem tudo aí para a gente construir no médio a longo prazo uma trilha de crescimento bastante vantajosa para o Brasil”, afirma o economista André Perfeito.

Acordo entre Mercosul e União Europeia

Em entrevista ao jornal Repórter Brasil, da TV Brasil, o economista e professor da Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Adalmir Marquetti, defendeu a urgência da aprovação do acordo entre o Mercosul e a União Europeia (UE).

“O processo de negociação é um ponto importante a ser levado. Tem que tentar uma retaliação em alguns produtos, mas também tem que haver uma negociação com outros países. Acho a viagem do presidente Lula para o Japão e para o Vietnã importante no sentido de buscar novos parceiros comerciais, de intensificar nossas relações com esses países que estão crescendo, estão se tornando importantes na economia mundial”, disse o professor.

Para Marquetti, o acordo Mercosul–UE tem importância estratégica para amenizar o impacto da decisão do governo Trump. Segundo ele, o acordo não beneficiará apenas a balança comercial (exportação e importação de bens), mas também a balança de serviços, em que o Brasil importa muito mais do que exporta e consome cerca de 40% do superávit comercial.

Ele lembrou que a decisão dos Estados Unidos abrange apenas as importações de bens, não de serviços. Isso porque o país é um dos maiores exportadores de serviços do planeta, principalmente de serviços tecnológicos e audiovisuais.

O professor disse ainda que o Brasil, como a sétima ou a oitava maior economia do planeta (dependendo da medição), tem espaço para ocupar o mercado mundial à medida que outros países retaliarem os Estados Unidos.

Sobre o acordo Mercosul-UE, o presidente da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), Jorge Viana, disse que o “tarifaço” pode acelerar o pacto.

“Eu acho que o Brasil não tem que focar em qual vantagem a gente vai tirar nisso. Até porque o presidente Lula é do multilateralismo, propõe acordos. Mas é óbvio que, qualquer analista vai ver, se os Estados Unidos conseguirem implementar essas medidas, pode ter como consequência, por exemplo, acelerar o processo do acordo Mercosul-União Europeia”, disse, em entrevista coletiva na tarde desta quinta-feira (3).

Agro forte

O setor agrícola dos EUA critica as tarifas impostas por Donald Trump e pede que a Casa Branca negocie acordos com os países mais afetados, inclusive com a China. O temor do setor, comunicado ao governo dos EUA, é de que os agricultores sejam afetados, tanto pelo fechamento de mercados externos como retaliação como pelo encarecimento da importação de fertilizantes e outros insumos.

Consultadas pela coluna de Jamil Chade no UOL , as maiores entidades do agronegócio americano apontam que o risco da guerra comercial é de que Trump abra caminho para um avanço do Brasil no mercado internacional, principalmente na soja e no milho.

O ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, vê nas tarifas uma oportunidade para o agronegócio. Porém, ele avaliou que as ações do governo Trump podem, “infelizmente”, atrapalhar os mercados internacionais.

“Mas o Brasil tem competência e certamente vai saber usufruir e fazer disso uma grande oportunidade”, afirmou o ministro, que participou na quinta-feira (3) de conferência sobre etanol de milho no Mato Grosso. “O Brasil é muito competitivo, principalmente na agropecuária.”

Fávaro admitiu também que a alta da Selic, atualmente em 14,25% ao ano, dificulta equalização de juros para que o Tesouro subsidie as taxas do próximo Plano Safra.

Como alternativa, ele disse que o governo brasileiro vai priorizar, no próximo Plano Safra, os agricultores médios, seguindo as ações já realizadas para os pequenos produtores, buscando garantir alimentos mais acessíveis para a população em um cenário de preocupação com a inflação.

“Vamos dar prioridade ao Pronamp [voltado aos médios produtores], muito parecido com os moldes do Pronaf, que é agricultura familiar”, disse o ministro.

“Tarifaço” não será suficiente para retomada da indústria dos EUA

Porém, analistas ouvidos por reportagem da Agência Brasil acreditam que, sozinhas, as tarifas não dão conta de ajudar os EUA a reverterem a perda de competitividade, principalmente contra potências como a China, um dos principais alvos de Trump.

Essa é a opinião, por exemplo, do economista-chefe do Banco Master, Paulo Gala. “A Ásia foi muito eficiente em desenhar políticas para desenvolver a indústria dela nos últimos 20 a 30 anos. Os governos do Vietnã, da Malásia, da Tailândia, da Indonésia, da China, até mesmo da Índia, têm conseguido desenhar políticas de inovação e industriais com subsídios ao desenvolvimento tecnológico”, comentou.

Na avaliação dele, o tarifaço representa “um choque brutal” na economia mundial, o maior desde os anos 1930. Além disso, diz que não se tratam de tarifas recíprocas, como prometia o governo Trump, e que haverá impacto para a economia brasileira, em especial, para alguns setores e empresas, como a Embraer.

Em média, as tarifas aplicadas por Trump foram de 10% para países da América Latina, de 20% para Europa e de 30% para Ásia, mostrando que o problema maior está no continente asiático.

“Hoje, a Ásia deve ter quase 25% do mercado mundial de carro, para não falar da China com a BYD, que está quase matando a Tesla nos mercados mundiais”, comentou.

A Tesla é a fabricante de carros do multibilionário Elon Musk, dono da plataforma X e aliado do presidente Trump.





Fonte: ICL Notícias

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