A épica batalha de Cristina

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Avenida Alvear, de longe vejo as placas indicativas do Cemitério da Recoleta. Caminho por essa via que respira a opulência de uma Buenos Aires que insistia em se espelhar em Madrid e Paris, enquanto os ventos frios de julho cortam o meu rosto. Lembro de Evita Perón. A “abanderada de los humildes”, ironicamente sepultada no metro quadrado mais caro e exclusivo da capital, onde repousam seus algozes históricos. Lembro de Tomás Eloy Martínez, de sua magistral “La novela de Perón” e de “Santa Evita”. A ficção, em Martínez, nunca foi uma fuga da realidade, mas a única lente capaz de capturar o absurdo labiríntico da história argentina. Lembro das continuidades e descontinuidades do peronismo, esse movimento proteiforme que, como um rio subterrâneo, ora submerge, ora inunda a planície política, desafiando obituários precoces.

Hoje, essa história não se escreve em túmulos, mas em petições internacionais. No saguão de um hotel, encontro os advogados de Cristina Kirchner. Ternos elegantes, experiência que transborda no olhar, português do Brasil, espanhol portenho, andaluz e muita simpatia. O grupo entra na van em direção ao hotel NH. Uma vez lá, toda a indumentária da imprensa — câmeras como metralhadoras, microfones em riste, blocos de notas ansiosos — todos esperando a comunicação da defesa de Kirchner, anunciando ao público argentino que os advogados de Cristina recorreram ao Comitê de Direitos Humanos da ONU, denunciando as violações cometidas contra a ex-presidente no infame caso Vialidad.

O cenário tem algo de teatral, mas a aposta é existencial. Cristina Kirchner, atualmente cumprindo prisão domiciliar e inabilitada perpetuamente para exercer cargos públicos, joga suas últimas fichas no tabuleiro internacional. O objetivo não é apenas a liberdade, mas a ressurreição política: manter viva a possibilidade de competir nas eleições presidenciais de 2027.

No palanque improvisado, dois homens corporificam as novas estratégias. Javier Borrego, o espanhol, ex-juiz do Tribunal Europeu de Direitos Humanos, assume o microfone. Apaixonado, dotado de uma retórica invejável, dosa o discurso como um maestro e comove os presentes. Borrego não fala apenas de códigos e parágrafos, ele invoca o fantasma do machismo estrutural. “Por que essa hostilidade contra a doutora Kirchner? Porque é mulher”, sentencia ele, lembrando que a única ex-presidente condenada pela Corte Suprema enfrentou quatro instâncias judiciais sem a presença de uma única juíza ou promotora. É o “lawfare” desnudado em sua face misógina.

A seu lado, Rafael Valim, o brasileiro. Sereno, técnico, cirúrgico. Valim, que já esteve nas trincheiras de Genebra defendendo Luiz Inácio Lula da Silva em um processo espelhado, anuncia os pedidos de medidas cautelares. Sua voz contrasta com a comoção andaluza de Borrego; ele fala a língua precisa do direito público e internacional. “O Comitê não permite inabilitações perpétuas”, explica Valim, pedindo a suspensão imediata da sanção que alijou Cristina do xadrez eleitoral.

Sinto que a sombra de Lula paira sobre a sala. O roteiro brasileiro — condenação, prisão, recurso à ONU, anulação pela Suprema Corte e retorno triunfal à presidência — é uma espécie de farol que guia a defesa. Contudo, como o próprio Valim pontua com prudência, a História não se repete sem ironias. No Brasil, as vias internas não estavam esgotadas; na Argentina, a Corte Suprema já carimbou a sentença de Vialidad.

O peronismo, mais uma vez, encontra-se encruzilhado entre a lei dos homens e o tribunal da História. O caso Vialidad, com suas 51 obras públicas na província de Santa Cruz, tornou-se o calvário de Cristina. Mas na Argentina de Tomás Eloy Martínez, a verdade jurídica raramente coincide com a verdade mítica. A condenação a seis anos de prisão por administração fraudulenta pode ter trancafiado o corpo de Cristina na rua San José 1111, mas seu espectro político continua a assombrar a Casa Rosada.

Ao sair da conferência, o vento portenho parecia trazer os ecos do passado. O peronismo sobreviveu ao exílio de Perón, ao roubo e às violações do cadáver de Evita, a ditaduras sanguinárias e a constantes colapsos econômicos. A batalha que Borrego e Valim — junto ao advogado Carlos Alberto Beraldi — travam agora em Genebra transcende a mera defesa criminal. É uma disputa pela narrativa, pelo passado, uma tentativa de arrancar Cristina das garras do judiciário local e devolvê-la à arena política. Se o Comitê de Direitos Humanos da ONU acatar a cautelar em outubro, a inabilitação perpétua pode ruir, e a eleição de 2027 ganhará sua protagonista mais polarizadora.

Caminho de volta pela Alvear. A Recoleta guarda os mortos, mas a política argentina teima em não deixá-los descansar. Cristina Kirchner, como a protagonista de um romance de Martínez, recusa-se a ser um mero verbete na crônica de um país que devora seus líderes. A petição voa para a ONU, e com ela, a promessa de que o último capítulo desta novela ainda está por ser escrito.

Buenos Aires, 30 de julho de 2026

Cartaz da rua San José 1111, em frente ao apartamente onde vive – em prisão domiciliar – Cristina Kirchner.





ICL Notícias

4 COMENTÁRIOS

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