Messi: o silêncio do Capitão

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Enquanto o time do excepcional Lionel Messi avança pelo mata-mata da Copa do Mundo, hipnotizando o planeta com seu futebol de toque curto e paixão desmedida, algo de podre caminha junto à caravana celeste e branca: das arquibancadas ao ônibus da delegação, dos cânticos de rua às lives dos próprios campeões, o racismo acompanha essa seleção como uma sombra que ninguém — sobretudo o capitão — parece disposto a encarar.

Convém dizer logo, para que não se acuse este cronista de chauvinista às avessas: torcedores, em qualquer país, não são criaturas caídas de outro planeta. Eles reproduzem, no microcosmo hiperbólico das arquibancadas, o racismo estrutural das sociedades que os pariram. No Brasil, sabemos muito bem, não é diferente — o país que chamou Vini Jr. de “cachaceiro” e demorou décadas para admitir que a arquibancada tricolor, alvinegra ou rubro-negra também imita macacos, joga bananas e naturaliza a injúria como “provocação”. A hipocrisia do antirracismo seletivo, aquele que só desperta quando a Argentina vence, é ela mesma um sintoma do problema. Mas reconhecer a viga no próprio olho não nos obriga ao silêncio diante do cisco alheio — até porque, no caso argentino, o cisco virou pedra nas chuteiras.

O histórico é implacável e recente. Na Libertadores, torcedores do Boca Juniors foram presos em São Paulo e em Belo Horizonte imitando macacos; houve saudação nazista na Neo Química Arena, celular com a palavra “macaco” exibido na Bombonera, multas seguidas da Conmebol que se acumulam como papel de bala. Em 2022, no Catar, nasceu nas ruas de Buenos Aires a cançoneta que perguntava por que os jogadores da França “jogam pela França se são todos de Angola” — um compêndio de racismo, xenofobia e transfobia embalado em melodia de festa. Quando a Federação Argentina de Futebol tentou, em 2025, publicar uma tímida campanha antirracista antes de um jogo contra o Brasil, a resposta da própria torcida veio nos comentários: emojis de macaco e iconografia nazista. E nesta Copa, o espectro voltou a dar as caras: torcedores argentinos hostilizaram com insultos racistas um jovem streamer negro que vestia a camisa de Cabo Verde e, dias depois, imitaram macacos diante da torcida do Egito — episódio que levou o técnico egípcio a cruzar os braços em “X”, acionando pela primeira vez na história das Copas o protocolo oficial de denúncia de racismo. O jogo não foi interrompido. A FIFA, como de costume, “abriu investigação”.

Seria cômodo parar aí e dizer que o problema é “da torcida”, essa entidade abstrata e inimputável. Mas a cultura não ficou na arquibancada. Após o título da Copa América de 2024, a live de Enzo Fernández flagrou os próprios campeões, dentro do ônibus da delegação, entoando a plenos pulmões a mesma canção racista de 2022. Não eram borrachos anônimos: eram os heróis nacionais, o escrete de ouro, cantando a ancestralidade africana alheia como escárnio. O Chelsea abriu procedimento disciplinar contra Enzo, a Federação Francesa acionou a FIFA, Wesley Fofana resumiu o vexame em uma frase — “futebol em 2024: racismo desinibido”. Enzo pediu desculpas protocolares; o xerifão Rodrigo De Paul explicou que “cantamos mais como brincadeira”, como se a piada não fosse precisamente o modo pelo qual o racismo se naturaliza. E em 2026, às vésperas do Mundial, a revelação Gianluca Prestianni foi suspensa por seis jogos após Mbappé relatar tê-lo ouvido repetir “macaco” cinco vezes na direção de Vini Jr. — a defesa do garoto, num requinte de época, foi alegar que o insulto não era racista, era “apenas” homofóbico. Da arquibancada para o ônibus, do ônibus para o gramado, do gramado para o palco máximo do futebol mundial.

Messi: por que se cala?

E no centro dessa engrenagem, pairando acima dela como um deus de mármore, está Lionel Messi. O homem que enxerga passes que não existem, que desacelera o tempo com a sola da chuteira, parece perder toda a visão de jogo quando a bola é a dignidade humana. Convém registrar, em nome da precisão: Messi não aparece no vídeo do ônibus, ninguém provou que tenha cantado, nenhuma acusação formal pesa sobre ele. Seu problema não é o que fez — é o que jamais fez. Em 2022, quando a musiquinha virou hino informal do tricampeonato, ele nada disse. Em 2024, quando seus comandados a cantaram diante do mundo, ele nada disse. Em 2026, com duas investigações da FIFA abertas contra sua torcida em plena Copa, ele segue nada dizendo. Quando Vini Jr., humilhado no Mestalla (Valência), escreveu que “o campeonato que já foi de Ronaldinho, Ronaldo, Cristiano e Messi hoje é dos racistas”, Ronaldinho respondeu, Ronaldo respondeu — Messi, nada.

O episódio mais eloquente, porém, é outro. Dias depois do escândalo do ônibus, o subsecretário de Esportes da Argentina, Julio Garro, ousou o óbvio: sugeriu que o capitão da seleção e o presidente da AFA pedissem desculpas em nome do país, porque “com tanta glória”, aquilo “nos deixa mal como nação”. Em poucas horas, Garro foi sumariamente demitido pelo presidente Javier Milei, que fez questão de anunciar a degola com uma nota pomposa: nenhum governo pode dizer à seleção campeã “o que comentar, o que pensar ou o que fazer”. Eis a fotografia perfeita da inversão: na Argentina de hoje, o risco não recai sobre quem cala diante do racismo, mas sobre quem cobra o capitão. Falar custa o emprego; silenciar rende estátuas. Típico de uma ditadura, não? Hoje em dia ela se chama “totalitarismo mercantil neoliberal”.

E que ninguém diga que o genial jogador Messi é apenas um homem tímido, alérgico a polêmicas, um monge do futebol. Na mesma semana em que engolia o escândalo, o capitão interrompeu as férias para correr às redes sociais e classificar de “insólita” a arbitragem de um jogo da seleção olímpica argentina contra Marrocos. Para reclamar de um juiz encontra voz, e sua indignação vira manchete em segundos. Para repudiar o racismo cantado por seus companheiros, em seu ônibus, sob sua braçadeira, a garganta trava. O silêncio, aqui, não é temperamento: é escolha. E quando o capitão escolhe calar, o silêncio desce à arquibancada como permissão.

O muro de Pelé, o muro de Messi

Correndo o risco altíssimo de manchar biografias douradas, insista-se na pergunta: por que as grandes lendas têm tanta dificuldade de se posicionar exatamente quando mais se precisa delas? A pergunta nos arrasta, inevitavelmente, ao grande monarca do futebol: Pelé.

Edson Arantes do Nascimento foi cobrado a vida inteira por seu muro. Fotografou-se sorridente ao lado do general Médici com a taça de 1970 nas mãos, enquanto os porões da ditadura trituravam gente. Esquivou-se do movimento negro quando Paulo Cézar Caju e Reinaldo pagavam caro por erguer o punho — o próprio Caju cravou a sentença mais dura: “agiu como um negro submisso que aceita tudo e não luta por nada”. Comprou e revendeu a fábula da democracia racial, jurando que preferia “dar o exemplo” a denunciar os “macacos” que ouviu em campo. Em 1978, admitiu ao jornal O Globo que o muro era estratégia consciente: “sendo radical, começa-se a ser tolhido por um certo grupo de pessoas”. Pelé foi, tantas vezes, mais conservador do que seu tempo lhe pedia — e seu tempo lhe pedia muito, justamente porque ele era, e segue sendo, o atleta negro mais popular da história do planeta.

Mas é precisamente aqui que o paralelo, em vez de absolver Messi, o condena. Porque o silêncio de Pelé, por mais frustrante que fosse, era o silêncio de um homem negro nascido nas agruras de Três Corações e Bauru, neto de gente escravizada, construindo grandeza dentro de uma ditadura militar que vigiava, difamava e destruía carreiras — a mesma ditadura que o criticou quando ele ousou não jogar a Copa de 1974. Era o silêncio de quem sabia, na pele, o preço da palavra: os que falaram foram cortados de Copas, tachados de rebeldes, empurrados ao ostracismo. Pode-se — e deve-se — criticar as escolhas de Pelé, mas é impossível ignorar que cada uma delas era feita sob a mira de um sistema desenhado –– desde as profundezes do Brasil escravocrata –– para vê-lo fracassar. E mesmo esse Pelé, o do muro, desceu dele algumas vezes: vestiu a camisa das Diretas Já em 1984, pregou como ministro que negro votasse em negro, e escolheu uma de suas últimas mensagens públicas, três meses antes de morrer, para abraçar Vini Jr.: “continuaremos combatendo o racismo desta forma: lutando pelo nosso direito de sermos felizes e respeitados”. O Rei gastou uma das últimas palavras que tinha com a luta.

E Messi? Messi é um homem branco, bilionário e intocável, ídolo máximo de um país que se narrou por dois séculos como a Europa transplantada à América — a Argentina que se disse “sem negros”, apagando de sua autoimagem os afro-argentinos que um dia foram um terço de Buenos Aires. Messi vive em plena democracia, não deve nada a general nenhum, não teme porão, censura ou corte de convocação. Temeria ele a figura de Milei?

Nenhum patrocinador o abandonaria por condenar o racismo; ao contrário, o mundo inteiro aplaudiria de pé. O risco de Pelé era a vida; o risco de Messi é, no máximo, um instante de desconforto num churrasco de concentração. Uma única frase sua — uma story, dez segundos de coletiva — teria mais força que todas as multas da Conmebol, todas as campanhas da AFA, todas as notas “veementes” da FIFA somadas. Nenhum ser humano vivo tem mais autoridade sobre aquela arquibancada do que ele. É exatamente por isso que seu silêncio pesa mais que o de qualquer outro. Certamente, lá do além, Maradona observa atentamente.

Os contraexemplos, aliás, não faltam — e não exigiram de ninguém heroísmo de estátua. Sócrates fez do Corinthians uma trincheira democrática em plena ditadura. Samuel Eto’o, companheiro de Messi no Barcelona, saiu de campo em Zaragoza sob gritos de macaco e sua revolta virou lei na Espanha. Lilian Thuram transformou o pós-carreira numa fundação de educação antirracista. Neymar, com todos os seus infinitos defeitos, apontou o dedo e gritou “racista” no Parque dos Príncipes. Vini Jr. parou um jogo, levou a pauta à ONU e arrancou da Espanha a primeira condenação criminal por racismo em estádio de sua história. E Mbappé, alvo nominal da cançoneta argentina, acaba de responder à senadora paraguaia que o comparou a um animal: “nunca deixarei que pessoas como você tenham a liberdade de propagar seu ódio pelo mundo”. Uma frase de capitão — e três instituições de dois países se moveram em seguida. É assim que funciona quando o capitão abre a boca.

O drible na responsabilidade

O futebol nunca foi só futebol. O estádio é o lugar onde um país aparece sem filtro, e a braçadeira de capitão nunca foi apenas um elástico no bíceps: é um púlpito. Messi a carrega como ninguém quando se trata de erguer taças, consolar companheiros, encarnar a nação. Mas há um segundo jogo em disputa, aquele que não se decide nos pênaltis, e nele o maior jogador de sua geração — um dos maiores da história do futebol — vem acumulando uma eliminação atrás da outra — por W.O., por recusa a entrar em campo.

Talvez a Argentina levante mais uma taça neste Mundial. Afinal, ninguém aqui nega o talento e a resiliência de Messi e a garra dos argentinos em campo. Talvez Messi encerre a carreira consagrado como o maior de todos os tempos dentro das quatro linhas — disputa aritmética que já não interessa a ninguém. Fora delas, porém, seu legado tem um buraco no formato exato de uma frase nunca dita. A história do esporte guarda um lugar cruel para os que dominaram o jogo e fugiram do jogo que importava: Pelé passou a vida negociando sua ambiguidade, e nem toda a sua realeza o livrou da cobrança póstuma. Messi, que teve tudo o que Pelé não teve — “a cor certa” segundo o racismo do mundo, a liberdade, a democracia, o dinheiro, a intocabilidade —, escolheu repetir justamente o pior de Pelé, sem nenhuma das suas atenuantes.

No fim, o drible mais desconcertante da carreira de Lionel Messi não foi sobre Boateng, nem sobre os quatro do Getafe em 2007. Foi o drible na própria responsabilidade — executado em silêncio, sem torcida, diante de um mundo inteiro que esperava apenas que o gênio, uma vez na vida, jogasse a bola para frente. Quando o capitão se cala, quem grita é a arquibancada. E a arquibancada, todos ouvimos, está gritando “macaco”.

Messi é celebrado pela seleção argentina após a classificação contra Cabo Verde. Foto : ODD ANDERSEN / AFP.





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