Prisão de professor durante protestos de 2013 vira peça de teatro

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Por Rodrigo de Andrade

Professor e ativista, Igor Mendes viu a própria vida mudar de rumo em 2014, quando foi preso sob a acusação de participar de atos criminosos ligados à onda de manifestações iniciada no ano anterior.

Foram cerca de seis meses no sistema prisional enquanto respondia ao processo, uma experiência que se tornou símbolo dos debates sobre a criminalização dos protestos e motivou questionamentos de juristas, movimentos sociais e organizações de direitos humanos sobre a condução das investigações e das prisões.

A experiência vivida por Mendes deu origem a um livro publicado em 2017. Na obra, ele relata o cotidiano dentro das prisões e as relações construídas durante o período em que esteve preso. O drama descrito no livro agora vai ser levado aos palcos: a peça A Pequena Prisão estreia nesta quinta-feira (09) no Rio de Janeiro.

Na época, o Ministério Público acusou Mendes de integrar uma organização criminosa ligada a atos de violência durante as manifestações. A defesa negou as acusações e sustentou que a prisão representava um caso de criminalização dos movimentos sociais, posição que também foi defendida por juristas e entidades de direitos humanos que questionaram a legalidade das prisões preventivas e a condução das investigações.

O relato autobiográfico ultrapassou o registro pessoal e passou a integrar debates sobre direitos humanos, encarceramento e violência de Estado. Ao transformar uma experiência individual em reflexão sobre o sistema prisional brasileiro, a obra despertou o interesse de artistas e chegou aos palcos pela primeira vez.

A montagem adapta, pela primeira vez para o teatro, a obra homônima de professor, narrando sua experiência após ser preso durante as manifestações iniciadas em 2013. Embora tenha como ponto de partida esse episódio, o espetáculo concentra sua narrativa nas relações humanas construídas dentro do sistema penitenciário, apresentando personagens e histórias que revelam diferentes aspectos da vida nas prisões brasileiras.

Em entrevista ao ICL Notícias, Vino Fragoso, ator e idealizador da peça, comentou sobre a importância de relembrar os protestos de 2013. “A ideia da peça é gerar lucidez. Em 2013, houve um movimento popular e, para conter uma manifestação de cunho popular, prenderam 23 pessoas em presídios de segurança máxima, sem provas”, diz Vino.

Ainda sobre as manifestações, Vino alertou para as diferenças entre a iniciativa popular de 2013 e a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023. “A grande diferença é que a prisão do Igor e dos demais presos em 2013 teve origem em um movimento popular. Ela não tinha a intenção de depor um presidente eleito democraticamente.”

A peça busca ampliar a discussão para o sistema prisional brasileiro. O monólogo aborda o cotidiano das penitenciárias e propõe uma reflexão sobre as condições do cárcere, os desafios da ressocialização e a humanidade dos detentos, tema central do livro que inspira a montagem.

Em cena, Vino Fragoso interpreta mais de 30 personagens em uma narrativa que transita entre memória, testemunho e ficção. A proposta cênica aposta na proximidade entre atores e espectadores, com uma plateia disposta em formato não convencional e uma cenografia formada por grandes portas-grade móveis, que transformam constantemente o espaço da apresentação.

Além da temporada, a produção prevê uma programação paralela com encontros entre artistas e o público e atividades ligadas ao relançamento do livro A Pequena Prisão, em edição comemorativa.

 





ICL Notícias

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