Petróleo que atingiu Nordeste em 2019 chegou até a Flórida em lixo plástico

0
27


Por Jéssica Maes

(Folhapress) – Num exemplo de diferentes impactos dos combustíveis fósseis, pesquisadores descobriram que o petróleo que atingiu as praias do Nordeste brasileiro em 2019 chegou até a Flórida, nos Estados Unidos, transportado por lixo plástico.

O mapeamento do trajeto percorrido pelos resíduos oleados mostra que eles viajaram cerca de 8.500 quilômetros. Ao longo de aproximadamente 240 dias, saíram da costa do Brasil, passaram pelo Caribe e chegaram até as areias de Palm Beach, no sudoeste do estado americano.

Em casos de vazamento de petróleo, o material raramente viaja mais de 300 km, já que se desintegra naturalmente (processo chamado de intemperismo) ou é removido por ações emergenciais. O registro de uma distância tão longa percorrida por esses detritos, usando o plástico como veículo, é inédito.

A descoberta é de uma equipe composta por pesquisadores do Instituto de Ciências do Mar da Universidade Federal do Ceará (Labomar-UFC) e instituições internacionais e foi descrita em um estudo publicado na revista científica Environmental Science & Technology.

Em 2019, ao longo de vários meses, um vazamento de petróleo atingiu mais de 3.000 km do litoral brasileiro, afetando ecossistemas e causando danos duradouros às comunidades costeiras e ao turismo.

O caso é considerado o pior derramamento de óleo da história do país. Investigações da Polícia Federal apontaram que o material veio do navio de bandeira grega Bouboulina.

Na sequência, de maio a setembro de 2020, uma grande quantidade de garrafas de vidro e plástico sujas de petróleo chegaram diariamente a Palm Beach. Com rótulos com inscrições em português e espanhol, além de inglês, o material chamou a atenção de uma ONG que trabalha na limpeza das praias da região, a Friends of Palm Beach, que divulgou as imagens nas redes sociais.

A região é considerada uma das praias mais poluídas por detritos no sudeste dos Estados Unidos, já que os ventos que chegam à costa transportam plástico, betume e sargaço para o local.

Também foram parar nas areias da Flórida fardos de borracha semelhantes aos encontrados na costa do Nordeste brasileiro em 2018.

A coincidência dos eventos levou pesquisadores do Labomar-UFC, em parceria com entidades norte-americanas, a investigarem se os acontecimentos estariam conectados.

“Nós temos a ‘impressão digital’ de todo o óleo que chega na nossa costa”, explica Rivelino Cavalcante, pesquisador do Labomar e um dos autores do estudo. Essa assinatura química do petróleo possibilita saber exatamente de qual bacia sedimentar ele foi extraído, no caso do óleo bruto.

Cruzando a “impressão digital” do petróleo que atingiu as praias nordestinas com o encontrado no litoral norte-americano, os resultados coincidiram.

“Batia certinho. É uma coisa irrefutável”, diz o professor, que é especialista em química ambiental e oceanografia química. “Nós sabemos que existe esse transporte [de material] por várias correntes no mundo todo. Com esse perfil químico [do óleo] e usando modelagem oceânica, nós podemos ter ideia do tempo e até do trajeto percorrido por ele.”

O estudo demonstra um efeito multiplicador da contaminação oceânica, no qual a poluição plástica facilita o transporte de longo alcance da poluição por petróleo. Com isso, eventos regionais que atingem o mar podem ter impactos transfronteiriços.

“O planeta é um só. Enquanto os países em desenvolvimento tiverem essa dificuldade muito grande de gerenciar resíduos sólidos e líquidos, esse problema não é só deles, mas também dos países desenvolvidos”, afirma Cavalcante.

No artigo, os cientistas também propõem uma explicação diferente daquela da PF para a origem do óleo que sujou as praias em 2019.

Alguns dos primeiros locais onde foi encontrado petróleo à época são os mesmos onde foram achados fardos de borracha em 2018. O pesquisador da UFC explica que esses fardos eram usados como matéria-prima nas décadas de 1940 e 1950 e que, mais tarde, foram gradualmente substituídos pelo plástico.

“Membros de nossa equipe levantaram a hipótese de que o petróleo e os fardos provinham do SS Rio Grande, um navio de abastecimento alemão afundado pela Marinha dos EUA em janeiro de 1944, que se encontra a 1.000 km da costa brasileira a uma profundidade de 5.762 metros”, escrevem os autores.

“O SS Rio Grande é um dos milhares de naufrágios da Segunda Guerra Mundial que foram chamados de ‘bombas-relógio ecológicas’ devido ao potencial de vazamento do petróleo restante em seus tanques”, acrescentam.

Até hoje ninguém foi punido pelo caso.





ICL Notícias

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui