Por Cleber Lourenço
O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), surpreendeu líderes partidários ao pautar, de forma súbita, o projeto de anistia e dosimetria dos condenados pelos atos de 8 de janeiro. A votação ocorreu na madrugada, após um dia marcado por decisões controversas, episódios de confronto no plenário e forte reação de governistas e integrantes do Centrão.
A mudança de rota não foi antecipada aos líderes e só ficou clara durante a própria reunião de líderes na manhã de terça-feira. Foi ali — e não na véspera — que o líder do PDT, deputado Mário Heringer, e outros parlamentares perceberam o movimento súbito de Motta.
Até então, a única sinalização vinha da noite anterior, quando Motta se reuniu com a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, e integrantes da articulação política do governo, ocasião em que havia se comprometido a priorizar exclusivamente a pauta econômica do Planalto.
Dentro da reunião de líderes, o cenário mudou rapidamente. Motta pediu que todos os assessores deixassem a sala — gesto incomum que imediatamente chamou atenção dos parlamentares. Com a porta fechada, anunciou que colocaria a anistia em votação ainda naquele dia, sem consulta prévia ou discussão de mérito. Foi nesse momento que Heringer e outros líderes entenderam que a pauta combinada havia sido modificada. Como justificativa para a guinada, Motta. Apenas disse aos presente que era prerrogativa sua pautar os temas da casa.

Líderes governistas afirmam que não havia qualquer indício de que o tema seria votado e classificaram a decisão como quebra de confiança. No Centrão, parlamentares viram a iniciativa como um gesto intempestivo, interpretado como tentativa de demonstrar força em meio ao desgaste crescente da Câmara.
O relator da proposta, Paulinho da Força (Solidariedade-SP), também foi surpreendido. Convocado às pressas, foi informado da votação apenas ao chegar à reunião — já com os assessores do lado de fora. Paulinho havia dito anteriormente que não existia acordo com o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, nem tratativas com Davi Alcolumbre para garantir a tramitação do texto na outra Casa.
Mesmo assim, Motta decidiu acelerar o processo alegando estar em buscar de “destrancar” a pauta. Uma apuração do ICL Notícias revelou, no entanto, que Motta e Alcolumbre teriam conversado na noite anterior sobre pautar o tema, o que ampliou a desconfiança entre líderes. A celeridade reforçou questionamentos sobre as razões de avançar com um tema politicamente explosivo sem aviso prévio e sem articulação formal.
Críticas à condução da Câmara
No Palácio do Planalto, o movimento de Motta também gerou desconfiança. Integrantes da articulação política avaliam que pode haver algum tipo de entendimento em torno da anistia, ainda que rejeitem a tese de acordo formal. Uma fonte próxima ao governo resumiu a percepção: “Não é um absurdo imaginar que algum arranjo exista. Ninguém acredita que Bolsonaro, generais e figuras influentes vão apodrecer na cadeia. A questão é dar a lição. Mas ainda precisa modular, porque a redução das penas está muito alta para os líderes do golpe”.
Alguns parlamentares ainda ainda tentaram usar o episódio para pressionar o governo por mais liberação de emendas. A leitura no Planalto, porém, é diferente. Segundo integrantes da articulação política, essa não é a causa real do movimento de Motta. Um interlocutor do governo explicou: “Sempre é emenda a desculpa… porque os atrasos, em geral, se devem a problemas nos projetos. Se estivesse tudo em dia, iam arranjar outra desculpa”.
Além da anistia, Motta incluiu de forma repentina as cassações de Glauber Braga (PSOL-RJ), Carla Zambelli (PL-SP), Alexandre Ramagem (PL-RJ) e Eduardo Bolsonaro (PL-SP). Nenhum líder esperava que os quatro processos fossem pautados ainda este ano. A interpretação predominante foi a de que o presidente da Câmara tentou compensar o desgaste da anistia com um gesto de suposto equilíbrio — mas acabou ampliando a tensão política.
A sessão degenerou rapidamente. Durante o protesto de Glauber Braga, que ocupou a cadeira da presidência, a Mesa Diretora determinou o corte da transmissão da TV Câmara e a retirada da imprensa do plenário. A Polícia Legislativa retirou o deputado à força, gerando registros de empurra-empurra e agressões contra parlamentares, assessores e jornalistas.
O episódio reacendeu críticas à condução da Casa, especialmente pelo contraste com a ocupação promovida pelo PL em agosto. Naquele caso, deputados bolsonaristas permaneceram por dois dias no plenário, paralisando os trabalhos sem que houvesse corte de transmissão, expulsão da imprensa ou uso de força policial. Para parlamentares de diferentes partidos, o contraste evidenciou dois pesos e duas medidas.
A votação da anistia ocorreu na madrugada, com plenário esvaziado e desgaste acumulado. Para governistas e integrantes do Centrão, a condução do processo evidenciou a fragilidade política da presidência da Câmara e abriu uma crise num momento sensível do ano legislativo.
Nos bastidores, as motivações de Hugo Motta seguem indeterminada para os políticos na Câmara. Alguns veem tentativa de afirmar protagonismo; outros apontam possível aproximação com o bolsonarismo; e há quem avalie que o presidente da Câmara tenha perdido o controle da própria narrativa ao tentar resolver múltiplos impasses simultaneamente. O resultado, porém, é consenso: um dia de tensão, atropelo e desgaste para o Congresso, que encerrou a votação de um tema sensível na madrugada, após decisões contestadas e sem transparência.



