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Vacina contra HPV e exames regulares podem evitar até 90% dos casos de câncer do colo do útero

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Por Gustavo Cabral*

A combinação entre vacinação e exames preventivos tem se mostrado uma das estratégias mais eficazes no combate ao câncer do colo do útero — uma doença que ainda impacta milhares de mulheres todos os anos no Brasil. Apesar de altamente evitável, o câncer segue entre os mais incidentes na população feminina, reforçando a importância da informação e do acesso à prevenção.

Para entender melhor como o vírus HPV está relacionado ao desenvolvimento da doença, quais são os principais sinais de alerta e de que forma a vacinação e o rastreamento podem reduzir drasticamente os casos, conversei com a médica, doutora Mariana de Paiva Batista, especialista em oncologia clínica, com atuação na Rede D’Or São Paulo e no ICESP (Instituto do Câncer do Estado de São Paulo). Na entrevista, ela explica por que até 90% dos casos podem ser evitados e destaca o papel fundamental da conscientização, especialmente em campanhas como o Março Lilás.

A doutora Mariana pode nos explicar o que é o câncer do colo do útero, como ele se desenvolve no organismo e quais são suas principais causas? Além disso, qual é a relação entre o HPV (Papilomavírus Humano) e o câncer do colo do útero? Por exemplo, toda pessoa infectada pelo HPV pode desenvolver a doença?

Mariana de Paiva Batista: O câncer de colo uterino representa um dos cânceres de maior incidência na população feminina mundial, com cerca de 660 mil novos casos anuais.

Entre as mulheres brasileiras, excluindo-se os diagnósticos de canceres de pele não melanoma, o número de casos de câncer de colo uterino é superado somente pelos de mama e de cólon/reto. De acordo com dados do INCA (Instituto Nacional de Câncer), são 17 mil brasileiras recebendo o diagnóstico anualmente.

O principal agente causador do câncer de colo de útero é o HPV, o papilomavírus humano, que apresenta centenas de subtipos, dos quais 40 podem infectar o trato genital.

A transmissão ocorre por meio do contato com a região genital acometida, infectando a pele ou mucosas e causando alterações na proliferação celular, o que propicia a formação de tumores.

Estudos apontam que 80% da população feminina irá contrair ao menos uma infecção por HPV na vida, porém em sua maioria, esta contaminação é debelada pelo sistema imunológico impedindo a formação de lesões cancerosas.

Quais são os principais sinais e sintomas do câncer do colo do útero e por que, em muitos casos, ele pode demorar a apresentar sintomas? Como funcionam os exames preventivos, como o Papanicolau, e com que frequência as mulheres devem realizá-los?

O câncer de colo uterino pode levar a sintomas como dor e sangramento na relação sexual, secreção ou sangramento vaginal espontâneos e dor pélvica, porém, tais sintomas não devem ser esperados para o início de seu rastreio. O principal álibi para a prevenção e tratamento curativo do câncer de colo uterino é o rastreio eficiente da doença, quando são identificadas lesões microscópicas precursoras do câncer, quando ainda assintomáticas e passíveis de tratamento curativo.

Os exames de rastreio disponíveis são a colpocitologia oncótica (Papanicolau) e a pesquisa de DNA HPV.

O Papanicolau busca identificar alterações precursoras de câncer nas células presentes no colo uterino e triar estas alterações para procedimentos mais invasivos que permitam o diagnóstico e o tratamento definitivo. Este exame é indicado anualmente para mulheres de 25 a 64 anos que já tiveram atividade sexual, até que se obtenha 2 resultados negativos e depois a cada 3 anos. Porém, de forma gradual, o Papanicolau vem sendo substituído como método de rastreio pela pesquisa de DNA HPV, em uma mesma população alvo.

A pesquisa de DNA HPV visa a identificação de HPV de alto risco e nestes casos leva à realização de colposcopia para a identificação de lesões cancerosas de forma precoce. Quando a pesquisa tem resultado negativo o teste pode ser repetido em 5 anos. A mudança do método tem o objetivo de aumentar a detecção precoce de lesões de alto risco para câncer e faz parte das novas diretrizes do brasileiras para o rastreamento do câncer de colo de útero publicadas em 2025 pelo ministério da saúde.

A vacina contra o HPV é realmente eficaz? Quem deve se vacinar e por que ela é considerada uma das principais formas de prevenção?

Um estudo realizado no Brasil avaliando dados do SUS de mulheres de 20 a 24 anos entre 2019 e 2023 observou que a vacina contra o HPV reduziu em 58% os casos de câncer do colo do útero e em 67% as lesões pré-cancerosas graves. A literatura estrangeira evidencia eficácia ainda maior quando a vacina é administrada em mulheres não previamente expostas ao HPV, alcançando taxas de redução de 97% em lesões cervicais pré-cancerosas de alto risco e 87% de redução em câncer de colo uterino.

Dessa forma, o programa nacional de imunização disponibiliza a vacina quadrivalente, que age contra 4 subtipos de HPV de maior risco para câncer para as seguintes situações:

  • Meninas e meninos de 9 a 14 anos;
  • Mulheres e homens de 9 a 45 anos que vivem com HIV, transplantados de órgãos ou medula, e pacientes oncológicos;
  • Vítimas de abuso sexual, de 15 a 45 anos, com esquema vacinal incompleto;
  • Usuários de PrEP (Profilaxia Pré-Exposição ao HIV), de 15 a 45 anos;
  • Pessoas com Papilomatose Respiratória Recorrente (PRR) a partir de 2 anos de idade.

Em serviços privados, a vacina nonavalente está disponível e amplia a proteção contra cânceres, infecções e lesões pré-cancerosas associadas ao HPV em homens e mulheres de 9 a 45 anos;

Qual é a importância da campanha Março Lilás na conscientização sobre o câncer do colo do útero e de que forma ações educativas podem contribuir para reduzir os casos e mortes pela doença?

O câncer de colo de útero é singular dentre os demais canceres, ele pode ser evitado por meio da vacinação, identificado por exames de rotina e tratado de forma eficaz em estádios muito precoces. Em meio a esse momento de privilégio no entendimento da doença e da eficácia das estratégias preventivas a Organização Mundial de Saúde cravou a meta que dá propósito à campanha Março Lilás — eliminar o câncer de colo uterino como problema de saúde pública global até 2030. Somente a adoção de medidas preventivas e a conscientização de sua importância permitirá a redução destes casos ainda tão prevalentes e o alcance deste objetivo.

Quando o câncer do colo do útero é diagnosticado, quais são as opções de tratamento disponíveis e quais são as chances de cura quando a doença é descoberta precocemente?

O tratamento de lesões precursoras de câncer de colo uterino é feito através de procedimentos locais para a retirada ou destruição destas células alteradas impedindo o desenvolvimento de câncer invasivo e chegam a taxas de cura de mais de 90%.

À medida que a doença se desenvolve as chances de cura se tornem menores e outros tratamentos se tornam necessários, como cirurgia de retirada de útero e anexos, radioterapia e quimioterapia e quimioterapia paliativa, a depender do estadio da doença no momento do diagnóstico.

Referencias:

  1. Vacinação contra HPV reduz casos de câncer do colo do útero em até 58%, aponta estudo da Fiocruz
  2. Archives of Health, Curitiba, v.6, n.4, special edition, p.01-05, 2025. ISSN 2675-4711
  3. Dados e números sobre câncer do colo do útero
  4. Nova pesquisa confirma que a vacinação contra o HPV previne o câncer do colo do útero

 

*Professor e doutor Gustavo Cabral é imunologista PhD pela USP, pós-doutor pela Universidade de Oxford (Inglaterra) e pós-doutor sênior pelo Hospital Universitário de Bern (Suíça). Atualmente, é líder de pesquisa na Faculdade de Medicina da USP.





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