Início BRASIL O Brasil como projeto – ICL Notícias

O Brasil como projeto – ICL Notícias

0


O mais consistente projeto de estado produzido ao longo de grande parte da história do Brasil após 1500 é o da concentração de riqueza e poder ancorado na exclusão social. Fiquemos em um exemplo simples: vivemos em um país que articulou estratégias em relação à pobreza fundadas no marco histórico mais impactante da nossa formação: a escravidão.

O fim legal da escravidão exigiu a redefinição dos mecanismos e estratégias de controle social dos corpos, articulando isso a projetos modernizadores que buscaram moldar a inserção do Brasil entre os povos ditos civilizados. A escravidão acaba, mas a obra da escravidão, cito Joaquim Nabuco, continua.

Nessa perspectiva, até mesmo certo pensamento progressista imaginou que somente elementos externos aos negros, indígenas e pobres em geral – a ciência, o cristianismo institucionalizado , a democracia representativa, a economia de mercado, a inclusão pelo consumo de bens, a escola ocidental, etc. – poderiam inseri-los naquilo que concebemos com arrogância ser a história da humanidade. É o que chamo de inclusão subalterna: incluir preservando posições, hierarquizando saberes e espaços de poder. Incluir sem igualar, em suma.

No fundo do tacho do problema brasileiro, o mesmo mote é glosado desde o século XVI: somos uma engrenagem especializada em confinar, afastar, normatizar, negar, domar, usar, punir e descartar as sobras viventes, todas e todos que ameaçam o projeto predador que nos constituiu como estado-nação.

Nós somos um país que não conseguiu ainda, como contraponto a isso, universalizar de fato direitos fundamentais como princípios inegociáveis. Conseguimos apenas avançar circunstancialmente – e pouco – em um ponto ou outro.

Pensem na atual configuração do parlamento. O Congresso Nacional, com exceções louváveis e importantíssimas que confirmam a regra, parece ser um castelo fantasmagórico em que senhores de engenho, bandeirantes apresadores, feitores, capatazes, exorcistas, machões truculentos, sinhás, sinhozinhos e capitães do mato que nunca saíram do século XVI legislam sobre o que devemos ser no século XXI.

Para quem enxerga o país do alpendre da casa grande , o projeto é simples: inviabilizar no Brasil qualquer ideia de país que não seja fundamentada na lógica acumulativa mais tacanha, na manutenção de privilégios, na domesticação dos corpos para o trabalho subalternizado e no descarte genocida destes corpos tão logo eles não sejam mais viáveis para a engrenagem do imenso engenho colonial do qual desconfio que nunca saímos de fato.





ICL Notícias

SEM COMENTÁRIOS

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Sair da versão mobile