Por AFP
Os ex-presidentes do Federal Reserve (Fed, banco central dos Estados Unidos), criticaram, em uma declaração conjunta, a investigação criminal contra seu atual dirigente, Jerome Powell, considerada uma tentativa de “minar” a independência do órgão.
“A investigação criminal contra o presidente do Federal Reserve, Jay Powell, é uma tentativa sem precedentes de usar ataques processuais para minar a independência” da instituição, que define a política monetária americana, diz a declaração também assinada por outros ex-funcionários de alto escalonamento do setor econômico.
Entre os signatários estão os ex-presidentes do Fed Alan Greenspan, Ben Bernanke e Janet Yellen.
Powell informou no domingo que a instituição recebeu uma intimação do Departamento de Justiça e enquadrou uma decisão na campanha de pressão do presidente Donald Trump.
Em comunicado, o atual dirigente disse que o banco central recebeu na sexta-feira intimações relacionadas ao seu depoimento no Senado em junho, quando falou sobre um grande projeto de reforma dos prédios do Fed.
Ele, no entanto, minimizou a possível ameaça de uma acusação penal por seu depoimento ou pelo projeto em si.
“A ameaça de acusações penais é consequência de o Federal Reserve fixar as taxas de juros com base na nossa melhor avaliação do que atende ao público, em vez de seguir as orientações do presidente” Trump, afirmou Powell no comunicado.
Para o dirigente do banco central americano, a intimação ocorre em meio à pressão do mandatário republicano sobre a instituição para que reduza as taxas de juros de forma monetária, enquanto a inflação segue acima da meta de 2%.
Trump criticou Powell diversas vezes, chamando-o de “cabeça oca” ou “imbecil”.
Nesta segunda-feira, à porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, disse à Fox News que Powell “demonstrou que não é muito bom no que faz”.
“Quanto a saber se ele é um criminoso, essa é uma resposta que o Departamento de Justiça terá que encontrar”, afirmou.
Jogo perigoso
Para David Wessel, pesquisador da Brookings Institution, “Trump descobriu que os americanos estavam preocupados com o custo de vida e fazem tudo o que é possível para demonstrar que busca melhorar as coisas”, em particular por meio da promessa de juros mais baixos.
Se Trump conseguir influenciar o Fed, a economia dos Estados Unidos poderá experimentar “mais inflação, e a disposição dos investidores globais de emprestar dinheiro ao Tesouro diminuirá em certa medida”, disse Wessel à AFP, em alusão a rendimentos mais baixos dos títulos da dívida da maior potência mundial.
É um jogo perigoso, avaliado por especialistas, na medida em que os mercados, assim como o próprio Partido Republicano, podem se rebelar.
Apesar das preocupações geradas pela investigação, os índices da Bolsa de Nova York fecharam em níveis recordes nesta segunda-feira.
“O fato de as expectativas de inflação do mercado terem permanecido calmas indica que os mercados estão descartando a investigação como tendo pouco ou nenhum impacto sobre a independência do Fed”, disse Bernard Yaros, economista-chefe dos Estados Unidos na Oxford Economics.
O Fed, independente, tem um duplo mandato: manter a estabilidade dos preços e o desemprego baixo. Sua principal ferramenta é o estabelecimento de uma taxa de juros de referência que tem influência no preço dos títulos do Tesouro americano e nos custos de individualização.
Tensões entre republicanos
Vários parlamentares republicanos conseguiram manifestar publicamente sua desaprovação sobre esta situação, em um partido governista que, até o momento, ofereceu pouca resistência às iniciativas da Casa Branca.
“Os riscos são altos demais para ignorarmos: se o Federal Reserve perder sua independência, a estabilidade de nossos mercados e da economia como um todo sofrerá”, escreveu a senadora do Alasca Lisa Murkowski no X.
Assim como seu colega Tom Tillis, ela também anunciou que não apoiará um candidato de Trump para o cargo no Fed enquanto este assunto persistir.
O chefe de Estado deve anunciar o nome da pessoa que deseja ser sucessor de Powell, cujo mandato à frente do banco central termina em maio.
Desde que voltou ao poder em janeiro de 2025, Trump vem defendendo os cortes de juros para reduzir os custos de individualização e sustentar o crescimento. A magnata considera infundados os temores sobre a inflação.
