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Crise entre PF e Mendonça se agrava com mensagem de Vorcaro; diretor-geral não recua

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Por Cleber Lourenço

 

A crise entre a Polícia Federal e o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), ganhou um novo capítulo. Enquanto o ministro pediu à Procuradoria-Geral da República (PGR) esclarecimentos sobre uma mensagem de Daniel Vorcaro que cita o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, uma fonte com conhecimento das discussões confirmou ao ICL Notícias que o chefe da corporação não pretende recuar da contestação levada à Advocacia-Geral da União (AGU).

A posição de Rodrigues é manter a pressão para que a AGU questione medidas adotadas por Mendonça nos inquéritos relacionados às fraudes do INSS. Segundo a fonte, apesar das tentativas de reduzir a tensão entre os dois lados, não há neste momento perspectiva de recuo do diretor-geral.

A ofensiva da PF contra Mendonça começou depois que o ministro determinou que a corporação entregasse ao STF os dados brutos obtidos nas investigações, incluindo a íntegra de materiais decorrentes de quebras de sigilo fiscal, bancário e telemático. Mendonça também determinou que alterações nas equipes responsáveis pelas apurações fossem previamente submetidas a ele.

A cúpula da PF considera que as determinações interferem na autonomia da corporação para organizar suas equipes e conduzir as investigações. Por isso, Rodrigues acionou a AGU para tentar levar o questionamento à Justiça.

O advogado-geral da União, Jorge Messias, porém, tem resistido à iniciativa. A avaliação na AGU é de que uma contestação judicial poderia produzir consequências sobre outras investigações e abrir espaço para questionamentos sobre provas já obtidas.

É nesse ambiente de confronto que Mendonça decidiu pedir esclarecimentos à PGR sobre uma anotação encontrada no celular de Vorcaro.

Mensagem cita Andrei Rodrigues e Paulo Gonet

O relatório da Polícia Federal analisado pelo ICL Notícias mostra que, em 30 de outubro de 2025, Vorcaro registrou no aplicativo de notas do celular que pretendia viajar a Abu Dhabi para encontrar um interlocutor. Na anotação, o banqueiro dizia ter recebido informações confidenciais sobre a investigação do Master.

Na sequência, Vorcaro afirmou que seria importante esse interlocutor agir junto a “Andrei” e “Paulo”.

A própria Polícia Federal registra no documento que os nomes seriam provavelmente referências a Andrei Rodrigues e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet.

O trecho registrado por Vorcaro é direto:

“É importante reforçar com Andrei e Paulo pra não deixar ninguém de baixo fazer uma sacanagem que aí vai tudo pro saco.”

Em seguida, acrescentava: “Estou disponível pra tratar e explicar qq coisa, só não pode ter sacanagem.” O relatório da PF registra que Vorcaro buscava evitar uma atuação de integrantes subordinados da Polícia Federal e do Ministério Público Federal.

Mendonça decidiu agora pedir à PGR informações complementares sobre o episódio. No relatório policial analisado pelo ICL Notícias, a pessoa com quem Vorcaro pretendia se encontrar e a quem dirigia as observações é chamada apenas de “interlocutor”.

Também não há, nesse relatório, elemento que indique que Rodrigues ou Gonet tenham atendido ao pedido, interferido na investigação ou prestado algum tipo de proteção ao banqueiro. O documento registra a tentativa de Vorcaro de fazer seu interlocutor chegar às duas autoridades.

PF diz que Vorcaro tentava influenciar agentes públicos

A mensagem ganha peso quando lida junto às conclusões do próprio relatório policial. Ao sintetizar o material extraído do celular de Vorcaro, a PF afirma ter identificado “tentativas de influenciar agentes públicos” por meio da busca de informações internas sobre investigações, reuniões institucionais e decisões judiciais. Segundo os investigadores, as mensagens revelam ainda “monitoramento de autoridades” e “obtenção de dados protegidos por sigilo funcional”.

A PF também afirma que Vorcaro “monitorava autoridades públicas e acessava informações sigilosas relacionadas à investigação em curso”.

Um dos episódios usados para sustentar essa conclusão ocorreu poucos dias antes da anotação que menciona Rodrigues e Gonet.

Em 17 de outubro de 2025, integrantes da PF e do Banco Central participaram de uma reunião sigilosa para discutir a investigação sobre o Master. Quatro dias depois, Vorcaro registrou no celular os nomes de delegados e agentes que haviam participado do encontro. A lista incluía ainda três procuradores da República que, segundo a PF, não estavam presentes.

Poucos minutos depois da mensagem que mencionava Rodrigues e Gonet, Vorcaro criou outra anotação. O título era revelador: “De pessoas de dentro do Bacen que são meus amigos e ficaram preocupados”.

Vorcaro dizia que essas pessoas haviam participado da reunião e classificava as informações recebidas como “100% confiáveis”. Acrescentava que não poderia “queimá-los”.

As duas notas foram apagadas minutos depois.

A perícia conseguiu recuperá-las. No relatório, a PF afirma que a exclusão indica que Vorcaro não queria conservar registros que revelassem “a obtenção e o repasse de informações confidenciais provenientes de servidores públicos”.

Relatório fala em monitoramento e tentativa de interferência

O episódio não aparece isoladamente no documento. Nas conclusões da análise, a PF afirma que Vorcaro teve acesso antecipado a informações sobre atos da própria investigação. Um dia antes da operação que resultou em sua prisão, segundo o relatório, o banqueiro já sabia qual juiz e qual Vara Federal estavam responsáveis pelo procedimento — informação que ainda não havia se tornado pública.

Vorcaro também procurava saber se seus interlocutores tinham “proximidade” com o magistrado.

Para a PF, o conjunto das mensagens aponta ainda “tentativas de interferir no trabalho da Justiça”, com movimentos destinados a influenciar decisões que estavam prestes a ser tomadas.

Na síntese do relatório, os investigadores afirmam que Vorcaro “obtinha documentos sigilosos”, “monitorava autoridades” e “tentava influenciar agentes públicos”.

É dentro desse conjunto de evidências que está a anotação sobre Rodrigues e Gonet agora submetida por Mendonça à PGR.

Diretor-geral mantém pressão sobre AGU

O novo movimento de Mendonça ocorre enquanto o ministro trava uma disputa aberta com o próprio diretor-geral citado na mensagem.

Rodrigues quer que a AGU reaja juridicamente às determinações impostas pelo ministro à PF nas investigações do INSS.

Um dos principais pontos de atrito é a ordem para que a Polícia Federal encaminhe ao gabinete do relator os dados brutos das investigações, e não apenas relatórios e provas selecionadas pela equipe policial. Entre os materiais alcançados pela determinação estão dados decorrentes de quebras de sigilo.

Outro foco da crise é a determinação de que mudanças na composição das equipes responsáveis pelas investigações sejam previamente comunicadas ao ministro.

A reação ultrapassou a direção-geral da corporação. Superintendentes da Polícia Federal assinaram uma manifestação em defesa da autonomia institucional e contra interferências na gestão das equipes.

A AGU, entretanto, não levou até agora o questionamento da PF ao Judiciário. Messias tem buscado uma saída negociada para o impasse e já se reuniu com Mendonça. O presidente do STF, Edson Fachin, também entrou nas articulações para tentar reduzir a tensão.

A tentativa de distensionamento não mudou a posição do diretor-geral.

Segundo a fonte ouvida pelo ICL Notícias, Rodrigues continuará pressionando a AGU para que conteste as medidas de Mendonça e não pretende abandonar a ofensiva. O resultado é uma sobreposição de duas frentes distintas de tensão.

De um lado, o diretor-geral da PF tenta derrubar medidas de Mendonça por considerá-las uma interferência na autonomia da corporação. De outro, o ministro pede à PGR esclarecimentos sobre uma mensagem apreendida no caso Master na qual Vorcaro buscava usar um interlocutor para chegar justamente ao chefe da Polícia Federal e ao procurador-geral da República.





ICL Notícias

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