O Carnaval de Manaus e a trajetória da Mocidade Independente de Aparecida ganharam espaço em uma conversa de aproximadamente três horas no podcast Falando em Harmonia, que antecipou sua transmissão habitual de quinta-feira para terça-feira, 3 de novembro, aproveitando a presença dos representantes amazonenses na Cidade Maravilhosa.
Os convidados foram Eduardo Pacheco, o Duda Pacheco, presidente do Grêmio Recreativo Escola de Samba Mocidade Independente de Aparecida (GRESMIA), e Martinho de Oliveira Alves, diretor-geral de Harmonia da agremiação. A entrevista foi conduzida por Tatiana Sobral, Douglas Falcão e Fernando Feijó.
Com uma trajetória familiar diretamente ligada à escola, Martinho apresentou aspectos da formação da Aparecida e compartilhou experiências acumuladas ao longo de sua vida no Carnaval. Entre os temas abordados, destacou a importância de uma Harmonia que seja, acima de tudo, harmoniosa e harmonizadora.
A conversa também permitiu conhecer técnicas de organização e preparação desenvolvidas dentro dos diferentes segmentos da escola, especialmente nos naipes, que acabaram se tornando referências para outras agremiações. A Aparecida, afinal, construiu uma trajetória de destaque e é a maior vencedora do Carnaval amazonense.
Uma história construída por famílias e gerações
A fundação da Aparecida, a união das famílias e o fortalecimento da comunidade aparecidense estiveram entre os assuntos que receberam atenção especial.
Duda Pacheco fez questão de recordar o presidente Hamilton Bandeira (in memoriam) e reconhecer a importância dos fundadores na construção da agremiação. A história de como nasceu a escola foi contada em detalhes, incluindo os vínculos familiares e os ensinamentos transmitidos entre gerações que ajudaram a consolidar sua identidade.
Ao longo dos anos, a Aparecida ultrapassou os limites de sua comunidade de origem e passou a reunir brincantes de praticamente todas as zonas de Manaus. Essa característica foi apresentada como uma de suas maiores forças, mas também como um desafio permanente de organização e integração.
Nesse contexto, os entrevistados falaram sobre a necessidade de fortalecer o sentimento de pertencimento, estabelecer regras e promover uma reeducação disciplinar dentro da escola.
A abordagem foi bastante clara: disciplina não significa tratar mal os componentes. Significa acolher, orientar e conduzir cada integrante pelo caminho correto, fazendo com que todos compreendam sua importância no processo de construção do desfile.

O padrão Aparecida e os desafios do Sambódromo
Os bastidores dos desfiles também ocuparam boa parte da entrevista. Foram discutidos aspectos específicos do Carnaval amazonense, como a distribuição das cabines de julgamento, o comprimento do Sambódromo, a velocidade dos desfiles, a participação das comunidades e o espaço destinado aos componentes dentro da estrutura das escolas.
As particularidades do regulamento e as dificuldades enfrentadas pelas agremiações foram apresentadas a partir da experiência de quem participa diretamente da organização do espetáculo.
Um dos pontos que ganhou destaque foi o chamado padrão Aparecida: uma concepção de trabalho que envolve planejamento, preparação técnica, organização dos segmentos e compromisso com a qualidade do desfile.
A afirmação de que a GRESMIA entra na avenida para disputar o título foi uma das mensagens mais fortes transmitidas pelos representantes da escola. A busca pela vitória, segundo a perspectiva apresentada na conversa, está diretamente relacionada à qualidade do trabalho desenvolvido e ao comprometimento de todos os envolvidos.
O papel da presidência e a valorização dos especialistas
Duda Pacheco também falou sobre sua própria trajetória dentro da agremiação. Vindo do segmento de Harmonia, o presidente destacou a importância do trabalho desenvolvido pelos profissionais e dirigentes responsáveis por cada área do Carnaval.
Ao abordar sua função, explicou que cabe à presidência assegurar as condições estruturais necessárias para que os especialistas de cada segmento possam desenvolver o melhor trabalho possível pela escola.
A declaração reforçou uma visão de gestão baseada na valorização das equipes e na compreensão de que um desfile competitivo depende da integração de diferentes conhecimentos e responsabilidades.
O presidente também apresentou críticas à organização do julgamento do Carnaval de Manaus. Entre os pontos questionados, citou a utilização dos mesmos julgadores nos grupos de acesso A e B e no Grupo Especial, apesar das diferenças entre os regulamentos, além de problemas identificados nos procedimentos de julgamento e nas rasuras das avaliações.
Seminário de análises críticas e samba-enredo por encomenda
Um dos assuntos elogiados pelos entrevistadores foi a realização dos Seminários de Análises Críticas das Notas, iniciativa adotada pela Aparecida para avaliar o desempenho da escola e discutir tecnicamente as justificativas dos julgadores.
A proposta foi apresentada como uma experiência que pode servir de referência para outras escolas de samba brasileiras, especialmente pela oportunidade de transformar as avaliações em instrumentos de aprendizado e aperfeiçoamento.
Os representantes também explicaram os motivos que levaram a Aparecida a optar pela encomenda do samba-enredo para o Carnaval 2027, decisão relacionada às características e às necessidades específicas do projeto desenvolvido pela agremiação.
Lindolfo Monteverde e a conexão entre o samba e o boi-bumbá
Naturalmente, o Carnaval 2027 também esteve na pauta. O enredo dedicado a Lindolfo Monteverde conduziu a conversa para a cultura popular amazonense e para a importância do boi-bumbá na identidade cultural do estado.
Os convidados abordaram a contribuição dos artistas de Parintins para o Carnaval brasileiro. Profissionais formados na tradição artística dos bois Garantido e Caprichoso participam de projetos de praticamente todas as regiões do país, levando conhecimentos, técnicas e experiências para os barracões das escolas de samba.
A discussão ampliou o olhar dos entrevistadores sobre a relação entre o Carnaval de Manaus e as manifestações culturais do Amazonas, mostrando como essas linguagens se encontram e contribuem para a diversidade do espetáculo brasileiro.
Carnaval, economia e o futuro da cultura amazonense
Outro aspecto importante foi a dimensão econômica e social do Carnaval. Os entrevistados falaram sobre a movimentação de trabalhadores que atuam nos bastidores, muitas vezes invisíveis ao grande público, mas fundamentais para a realização dos desfiles.
Foram abordadas as dificuldades financeiras das agremiações, a organização dos ensaios, a participação das comunidades e o impacto econômico gerado pela cadeia produtiva do Carnaval.
Nesse cenário, a atuação do poder público também foi lembrada. Duda e Martinho destacaram a importância do governador Omar Aziz, responsável pela construção dos barracões destinados às escolas do Grupo Especial.
Com o retorno de Omar Aziz ao Governo do Amazonas, previsto para 1º de janeiro de 2027, os representantes manifestaram esperança de que a cultura amazonense receba atenção e condições para avançar. A expectativa é compartilhada por diferentes setores da produção cultural, que reconhecem a importância de investimentos e políticas públicas para a continuidade de suas atividades.
A Soberana e o compromisso com 2027
Ao longo dos 180 minutos de conversa, Duda Pacheco e Martinho Alves apresentaram uma visão abrangente da história, da estrutura e dos desafios da Mocidade Independente de Aparecida.
Com 25 títulos conquistados em 45 anos de disputas, a escola construiu uma trajetória que a transformou na Soberana do Carnaval Amazonense.
Mas a mensagem deixada pelos representantes foi além da lembrança das conquistas. A Aparecida quer continuar vencendo e, para isso, entende que a qualidade de um desfile depende do envolvimento de cada componente, dirigente, profissional e colaborador.
A entrevista ao Falando em Harmonia foi também uma oportunidade de apresentar ao público de outras regiões do Brasil um pouco da dimensão do Carnaval de Manaus e da experiência acumulada por uma escola que reúne tradição, formação familiar, organização e capacidade de renovação.
A mensagem para 2027 foi direta: a Aparecida vem forte. Mas a construção de mais um grande desfile exige o comprometimento de todos.
Mais do que falar de títulos, Duda Pacheco e Martinho Alves falaram sobre a responsabilidade de manter viva uma história construída por muitas mãos e que hoje representa uma parcela significativa da cultura popular amazonense.
APARECIDA ANUNCIA OFICIALMENTE LINDOLFO MONTEVERDE COMO ENREDO DO CARNAVAL 2027
APÓS ANUNCIO, APARECIDA DÁ LARGADA PARA O CARNAVAL EM HOMENAGEM A LINDOLFO MONTEVERDE