Por Cleber Lourenço
As explicações apresentadas pelo deputado Mario Frias (PL-SP) para sua viagem internacional passaram a acumular inconsistências após questionamentos sobre sua situação funcional fora do país. Depois de afirmar que estava em “agenda oficial” no exterior, o deputado passou a apresentar novas versões para justificar as agendas no Bahrein e nos Estados Unidos.
A crise começou após o ministro Flávio Dino dar 48 horas para a Câmara dos Deputados esclarecer a situação funcional do parlamentar. Horas depois da decisão, Frias publicou uma mensagem nas redes sociais afirmando que estava em agenda oficial “com conhecimento” do presidente da Câmara, Hugo Motta.
“Estou em agenda oficial, com conhecimento do meu presidente Hugo Motta. Chegarei ao Brasil dia 25 de maio”, escreveu.
Porém, o contato de Mario Frias com Hugo Motta ocorreu apenas na noite de quarta-feira (20), já após a decisão de Dino. O deputado telefonou ao presidente da Câmara para explicar a viagem ao Bahrein e informar que agora estava nos Estados Unidos.
A própria Câmara adotou um tom mais cauteloso ao tratar da situação.
Em nota, a Casa informou apenas que Mario Frias “solicitou afastamento para missão oficial sem ônus para a Câmara no período de 19 a 22 de maio para cumprimento de agenda em Dallas, no Texas (USA)”. Segundo a Câmara, a viagem ocorreu a convite do grupo Yes Brazil USA.
A nota evita afirmar que a missão foi autorizada formalmente.
Esse tipo de pedido funciona inicialmente apenas como uma comunicação administrativa à Casa e depende de deliberação posterior.
Na prática, o pedido apresentado por Frias ainda não foi aprovado formalmente. Caso a missão seja autorizada, existem providências administrativas específicas, incluindo eventual ressarcimento quando aplicável. Caso contrário, podem ser adotadas outras medidas administrativas, incluindo desconto em folha pelas ausências.
Outro ponto que ampliou os questionamentos foi a diferença entre o período informado oficialmente pela Câmara e a data de retorno divulgada pelo próprio deputado.
Enquanto a nota da Casa fala em missão entre os dias 19 e 22 de maio, Mario Frias afirmou que só retornará ao Brasil no dia 25. A data coincide justamente com a viagem de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos, o que gerou dúvidas sobre possíveis agendas políticas além daquelas oficialmente comunicadas à Câmara.
Também chamou atenção a mudança nas justificativas apresentadas pelo deputado.
Em entrevista ao SBT, Frias afirmou que esteve no Bahrein propondo investimentos no Brasil e que agora está nos Estados Unidos prospectando investimentos ligados à segurança pública.
“Como deputado, estive agora no Bahrein propondo alguns investimentos no Brasil e agora estou nos Estados Unidos para fazer também uma prospecção de um investimento em segurança pública. Mas eu volto ao Brasil. Não devo nada. Estou pronto para prestar conta. Estou à disposição da Justiça”, declarou.
A nova justificativa passou a gerar questionamentos sobre o perfil da agenda nos Estados Unidos.
Isso porque o Yes Brazil USA, grupo citado pela Câmara como responsável pelo convite ao deputado, é conhecido pela atuação política ligada ao bolsonarismo no exterior.
A organização já promoveu eventos com Jair Bolsonaro na Flórida e reúne influenciadores e ativistas conservadores brasileiros radicados nos Estados Unidos.
Uma reportagem da Agência Pública mostrou que o grupo atua em conferências e eventos voltados ao público conservador brasileiro nos EUA, com forte discurso alinhado à direita bolsonarista.
O perfil político-ideológico do grupo passou a contrastar com a justificativa apresentada por Mario Frias para a viagem.
Enquanto o deputado afirma que está nos Estados Unidos prospectando investimentos em segurança pública e propondo investimentos para o Brasil, a agenda oficialmente comunicada à Câmara aparece vinculada a um grupo sem perfil institucional ligado à segurança pública, desenvolvimento econômico ou representação diplomática.
A Câmara também confirmou que Frias apresentou anteriormente outro pedido de missão internacional para o Bahrein, no período de 12 a 18 de maio. Segundo a Casa, esse pedido também não teve deliberação formal.
Embora o deputado tenha bloqueado o contato da reportagem após os questionamentos enviados, o espaço segue aberto para manifestações e esclarecimentos.

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