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Um certo adeus ao mundo europeu

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O plano de paz para a Ucrânia não é só a derrota da Europa, mas a humilhação da Europa. Nem à mesa das negociações estão. A Rússia e os Estados Unidos parecem ser os únicos atores que contam – os outros, os europeus, incluindo a própria Ucrânia, serão chamados mais tarde para dar contributos  menores (e  talvez minimizar os danos). A Europa já não é o coração do mundo, nem sequer o espaço onde se disputa a hegemonia do mundo – este plano de paz representa “um certo adeus ao mundo europeu”.

E, no entanto, tudo isto era, há muito, previsível. Não estou nada de acordo com a análise simplista de que a posição americana se deve à admiração de Trump por líderes fortes como Putin. Nada disso. A ação americana é ditada por uma razão estratégica que é bastante racional: a ascensão da China levará os americanos a não desperdiçar recursos na Europa. A célebre expressão “pivot to Asia”, usada por Obama
e por Hillary Clinton em 2011, mostra-nos como o mundo mudou: a disputa da hegemonia global já não é em Berlim, mas em Taiwan. Para os americanos, acabar com a guerra da Ucrânia significa não ter duas frentes de ameaças estratégicas. Não é assim tão difícil de entender, pois não?

Por outro lado, o mais impressionante destes três anos de guerra foi a incapacidade da Europa para ouvir e levar a sério os interesses russos. As negociações da Turquia, que se iniciaram logo nas primeiras semanas de guerra, não tiveram sucesso devido à pressão conjugada da Europa e da administração Biden. Foi um erro. Três anos depois temos mais mortos, mais destruição e mais fragilidade ucraniana na linha da frente. Para sermos realistas a Europa foi derrotada: as sanções não funcionaram como previam; o esforço militar russo não colapsou como previam; o resto do país não se levantou contra o ditador Putin como previam. Na verdade a Europa nunca foi capaz de esclarecer o paradoxo da sua própria posição – ou a Rússia é forte e poderosa e constitui uma ameaça para todos os países europeus; ou é fraca e frágil e será brevemente derrotada com a conjugação fatal das armas europeias e das sanções económicas. Ao fim de três anos temos a resposta. Os russos dizem que esta guerra é uma questão existencial e talvez convenha levá-los a sério.

A comparação usualmente feita com Chamberlain, para caracterizar os que querem negociar (atribuindo-lhes o pejorativo significado de quem quer a paz a qualquer custo), não tem sentido e constitui aliás um dos ângulos de propaganda mais perverso e enganador do discurso político europeu. Primeiro, porque não há nenhuma evidência de que a Rússia tenha ambições territoriais no ocidente; segundo, porque o
exército russo não mostrou nem capacidade nem força para constituir uma ameaça séria aos outros países europeus. Finalmente, e o que é pior de tudo: não estou convencido que o plano de paz resulte. Oxalá me engane, mas não estou convencido. O que vejo e ouço nas capitais europeias (e nas instituições europeias) é um discurso político absolutamente fora da realidade – não, a Ucrânia não está a ganhar a guerra; não, a economia russa não esta próxima de colapsar; não, o discurso de Putin não é o
de um louco sanguinário ou de um megalómano imperialista – é apenas alguém que interpreta de forma muito especial a memória histórica russa e insiste em que a expansão do ocidente para leste constitui uma ameaça à sua segurança. Podemos discordar, mas não é difícil perceber as suas razões. E se não levarmos a sério o que, de forma insistente, os russos têm dito desde 2008, esta guerra tem grandes
probabilidades de ser decidida no campo de batalha. E nada indica que seja a Rússia a colapsar. Uma coisa é certa – a Europa é o ator político global que sai desta guerra mais enfraquecido.





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