Num gesto abrupto típico de seu estilo diplomático, o presidente dos EUA, Donald Trump, foi às redes sociais anunciar que estava desconvidando o Canadá de seu Conselho da Paz. O novo organismo internacional foi criado na quinta-feira, em Davos, reunindo ditadores, líderes de extrema direita e governos interessados em manter uma relação positiva com Trump. O americano, porém, mantém todo o poder de decisão sobre a entidade e será o único a ter o direito ao veto.
A ofensiva é vista como uma tentativa deliberada de enfraquecer a ONU e criar uma entidade que dê aos americanos controle absoluto sobre uma aliança internacional. Se inicialmente o Conselho havia sido pensado apenas para atuar na reconstrução de Gaza, Trump sinalizou no dia de sua fundação que o mandato irá muito além.
“Assim que este conselho estiver completamente formado, poderemos fazer praticamente tudo o que quisermos”, disse Trump. Ele prometeu agir “em conjunto com as Nações Unidas”. Mas nada no estatuto da entidade indica que ele precisaria pedir autorização da ONU para agir. Agora, o desconvite ao Canadá confirmou o que muitos já desconfiavam: o Conselho será seu instrumento de política externa.
No total, o americano enviou convites para 59 países, inclusive ao Brasil. Mas Reino Unido, França, Noruega, Irlanda e muitos outros declinaram a proposta por enquanto. O governo Lula não enviou um representante para o ato e, dentro do Palácio do Planalto, a avaliação inicial é de que a proposta não segue os padrões mínimos do multilateralismo.
Mas se havia alguma dúvida sobre o poder de Trump sobre o Conselho, sua atitude contra o Canadá confirmou para diplomatas europeus e latino-americanos o risco que se corre ao fazer parte da iniciativa.
“Prezado Primeiro-Ministro Carney: Que esta carta sirva para representar que o Conselho de Paz está retirando o convite feito ao senhor para que o Canadá se junte, em qualquer época, ao que será o mais prestigioso Conselho de Líderes já reunido”, escreveu Trump em sua publicação.
Trump não explicou seu gesto. Mas o discurso de Carney, em Davos, foi considerado como uma das tomadas de posição mais corajosa e importante em anos por um líder internacional. O canadense defendeu que o mundo reconhecesse o fim da hegemonia dos EUA e que construa uma nova base de relacionamento.
Ele alertou que as “grandes potências” estão usando a integração econômica como “armas” e que negociar bilateralmente com esses países coloca potências médias como o Canadá em desvantagem.
“A velha ordem não vai voltar”, disse Carney em discurso provocativo em Davos. Carney propôs que potências médias com ideias semelhantes se unam para defender suas prioridades no cenário mundial, mesmo que seja questão por questão.
Em seu próprio discurso no Fórum Econômico Mundial, Trump reclamou que o Canadá deveria ser “grato” aos EUA.
“Eu assisti ao seu primeiro-ministro ontem. Ele não estava tão grato assim — eles é que deveriam ser gratos aos EUA, ao Canadá. O Canadá existe por causa dos Estados Unidos”, disse Trump na quarta-feira. “Lembre-se disso, Mark, da próxima vez que fizer suas declarações”, completou.
Em ato de fundação, apenas Trump falou
Na quinta-feira, o ato de fundação do novo Conselho foi acompanhado de perto por diplomatas de todo o mundo. As chancelarias buscavam entender o que pretende Trump com a nova instituição.
Ao ICL Notícias, um desses observadores confirmou que o que se viu foi “apenas uma demonstração de poder” por parte do americano.
O símbolo da nova organização repete os ramos cruzados no emblema das Nações Unidas. Mas, no lugar de um mapa do mundo no centro, o brazão apenas traz os EUA e uma parte de “seu” hemisfério.
O evento começou quando Trump foi chamado ao palco como autoridade máxima da nova iniciativa. O americano justificou que ele foi “convidado” a ser o líder do projeto, ainda que não tenha explicado quem o convidou.
Os demais líderes eram meros coadjuvantes, sentados em silêncio ao lado do americano, que fazia um longo monólogo sobre seus feitos.
Um por um, os demais líderes foram chamados para assinar o ato de fundação. Todos em silêncio.
Além de Trump, apenas mais três pessoas tomaram a palavra: a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leaviit, o enviado da Casa Branca para o Oriente Médio, Steve Witkoff, seu genro Jared Kushner, e o secretário de Estado, Marco Rubio. “Isso aqui é resultado do sonho do presidente Trump”, disse o chefe
Palestina
A adesão de governos do Oriente Médio, porém, vai na direção de garantir que o futuro de Gaza e da Palestina possa também considerar os interesses da região. Turquia, Arábia Saudita, Catar e Bahrein estão entre os signatários.
Em Brasília, o governo considera que apenas faria sentido uma adesão caso os palestinos façam parte. Mas, pelo menos por enquanto, apenas empresários palestinos ligados ao trumpismo é que estão nos órgãos criados para administrar a reconstrução de Gaza.
