Por Thiago Bethônico e Gabriela Cecchin
(Folhapress) – Setores econômicos que ficaram de fora da lista de isenções do novo tarifaço anunciado pelos Estados Unidos já calculam os impactos negativos que a medida terá em empresas brasileiras. Associações e entidades do setor privado falam em tentar reverter a decisão, mas adiantam que, se uma saída rápida não for encontrada, companhias vão perder vendas e precisar demitir trabalhadores.
A Casa Branca anunciou a tarifa de 25% na noite de quarta-feira (15). Alguns setores já sabiam que estariam na lista de afetados, outros ainda tentavam negociar com as autoridades americanas, mas tiveram os pedidos rejeitados.
É o caso da indústria de calçados, que vê a decisão do governo de Donald Trump como um retrocesso em uma relação comercial construída ao longo de décadas.
A Abicalçados (Associação Brasileira das Indústrias de Calçados) manifestou preocupação com os impactos da tarifa e disse que a nova restrição inviabiliza muitas operações que vinham sendo retomadas desde a derrubada do último tarifaço.
Conforme a entidade, o setor calçadista brasileiro exporta para mais de 160 países, mas o mercado norte-americano sempre foi o maior destino, representando cerca de 20% de todas as transações.
Agora, a associação calcula que as empresas brasileiras vão perder competitividade frente a produtos de outros países, o que deve ter um impacto de 7,1% nas exportações totais de calçados do Brasil. O valor representa uma piora de 3,5 pontos percentuais em relação à projeção anterior.
Neste ano, o setor já exportou US$ 85 milhões (R$ 431 milhões) ao mercado americano -uma queda de 23% ante 2025.
A nova sobretaxa de 25% se soma aos 10% que já incidiam sobre os itens brasileiros. Segundo a Abicalçados, o pedágio de 35% torna quase impossível manter as exportações para os EUA. Por isso, é provável que empresas de regiões específicas -como as do interior de São Paulo e do Rio Grande do Sul- sofram impacto nas vendas e precisem demitir funcionários.
De acordo com Haroldo Ferreira, presidente-executivo da entidade, o tipo de calçado que o Brasil exporta para os EUA é específico, feito com base nas especificações técnicas do mercado americano. Por esse motivo, não é tão simples redirecionar os produtos para outros países, disse Haroldo em entrevista à Globonews.
Apesar disso, a Abicalçados afirma que seguirá trabalhando com autoridades brasileiras e entidades americanas para tentar criar um teto às taxas e buscar alternativas que minimizem os efeitos da medida.
Já a Abimaq (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos) diz que a tarifa aumenta a incerteza no comércio bilateral e pode elevar custos, reduzir a competitividade e comprometer investimentos.
Os EUA são o principal destino das exportações brasileiras de máquinas e equipamentos: cerca de US$ 3,2 bilhões (R$ 16,2 bilhões) em 2025. A entidade diz esperar que as divergências sejam resolvidas por meio de negociação entre os dois países.
A Unica (União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia) criticou a tarifa adicional sobre o etanol brasileiro e afirmou que a política adotada pelo Brasil está conforme as regras da OMC (Organização Mundial do Comércio).
Isso porque a decisão dos EUA sobre o etanol foi tomada com base no argumento de que o Brasil restringe o acesso do produto americano após encerrar, em 2017, um tratamento tarifário considerado equilibrado entre os dois países.
Para a entidade, não há acordo bilateral que obrigue o país a conceder tratamento tarifário diferenciado ao etanol americano e atribui a queda das exportações dos EUA ao mercado brasileiro principalmente ao aumento da produção nacional, sobretudo de etanol de milho.
A Abvtex (Associação Brasileira do Varejo Têxtil), que representa mais de cem marcas do varejo de moda nacional, também disse que o novo tarifaço traz prejuízos para a competitividade da indústria brasileira e destacou que o setor têxtil e de moda brasileiro tem papel relevante na geração de empregos e renda.
A CNI (Confederação Nacional da Indústria) também avalia que a sobretaxa tende a ampliar as perdas já registradas nas exportações brasileiras para o mercado americano dos últimos tarifaços. A entidade afirma que a nova medida aumenta a insegurança para empresas dos dois países.
No primeiro semestre deste ano, 20 dos 27 estados brasileiros já registraram queda nas exportações para os EUA, conforme levantamento da CNI. As vendas do Brasil ao país recuaram 13%, o equivalente a US$ 2,6 bilhões (R$ 13,1 bilhões), na comparação com o mesmo período de 2025.
Bens industriais puxaram principalmente a retração, como semimanufaturados de ferro e aço, ferro fundido bruto, pasta química de madeira não conífera, óleos de petróleo e produtos semimanufaturados de outras ligas de aço.
“Não podemos poupar esforços para reverter essa lógica e retomar a relação que Brasil e Estados Unidos construíram”, afirma o presidente da CNI, Ricardo Alban.
A Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) classificou o novo tarifaço como “especialmente prejudicial”. Em nota, a entidade atribuiu a retaliação a uma condução diplomática do governo brasileiro que, segundo a federação, privilegiou “ruídos diplomáticos”, críticas ao governo americano e desalinhamento político com Washington.
“O mercado norte-americano é o principal destino de produtos brasileiros de alto valor agregado. Esse novo ‘pedágio’ imposto às exportações se soma à crônica realidade enfrentada pelas nossas empresas, que convivem com alta carga tributária e com as taxas de juros reais mais elevadas do mundo, entre outros desafios”, diz Paulo Skaf, presidente da Fiesp.
