Há seis anos, o cenário carnavalesco de Manaus ganhava um novo e poderoso ritmo. Era a fundação da Bateria Feminina Salto Agulha, a primeira do gênero na capital amazonense, criada por duas mulheres que já carregavam o samba no sangue: Luana Sá — filha do baluarte da Reino Unido da Liberdade, o lendário Luizinho Sá — e Bruna Hernandez, ex-diretora de bateria e uma das mais respeitadas percussionistas da nova geração.
Por Nailson Castro . Manaus (AM), 17 de novembro de 2025
O que começou como uma ideia ousada entre amigas rapidamente se transformou em um marco de representatividade, reunindo ritmistas de várias escolas de samba e projetando Manaus no debate nacional sobre mulheres na percussão.
Hoje, o Salto Agulha é reconhecido pela qualidade musical, a força coletiva e o papel transformador que desempenha.
“Criamos o Salto Agulha porque queríamos ocupar um espaço que sempre disseram que não era nosso. E conseguimos. Estamos aqui, fazendo samba da melhor qualidade e inspirando outras mulheres”, afirma Luana Sá, responsável pelas marcações da bateria.

Nasce uma revolução no samba manauara
Quando Luana e Bruna decidiram montar uma bateria exclusivamente feminina, havia estranhamento no meio do samba — historicamente dominado por homens, especialmente nos naipes de maior responsabilidade rítmica.
“Nascemos independentes e fazemos questão de enfatizar que somos independentes. A gente sabia que ia enfrentar resistência. Mas também sabíamos que outras mulheres estavam esperando essa oportunidade. Bastou um convite, e o grupo abriu alas para uma nova história no carnaval do Amazonas”, diz Bruna Hernandez, que hoje comanda o tamborim.
Desde então, o grupo se consolidou em apresentações, shows, eventos culturais e rodas de samba pela cidade. O time atual inclui:
Mestre de bateria: Tacy Santos
Intérprete: Claudia Trindade
Tamborim: Bruna Hernandez
Chocalho: Lucelale Ferreira
Repique: Tacy Santos
Caixa: Paola Corrêa e Rihanna Porfírio
Marcações: Luana Sá
Surdo de terceira: Nicolle Costa
O grupo se tornou, para o samba amazonense, um símbolo de renovação de força feminina e de oportunidades.
Um projeto que forma mulheres e derruba barreiras
Além das apresentações, o Salto Agulha mantém um dos projetos socioculturais mais relevantes da cidade: o Workshop de Percussão para Mulheres, realizado todas as quartas-feiras, às 19h30, em parceria com o Espaço Cultural Muiraquitã. O Salto Alto é independente, logo, mulheres de qualquer região de Manaus ou torcedoras de qualquer escola de samba, podem participar, para aprender a tocar o seu primeiro instrumento, para aprender a tocar mais um instrumento ou simplesmente para se aperfeiçoar.
Interessadas devem entrar em contato pelo WhatsApp 92 99372-7566, falar com Bruna
Para as integrantes, o projeto é mais do que técnica — é resistência.
“Essas aulas são um ato político. É um espaço em que mulheres descobrem sua força, sua voz, seu ritmo e seu lugar no samba. Aqui ninguém diz que a gente não pode. Aqui a gente pode tudo”, destaca Tacy Santos, mestre da bateria e referência entre jovens percussionistas.
O ambiente acolhe mulheres de todas as idades e realidades sociais, construindo uma rede de apoio que vai além da música.
“A gente aprende juntas, cresce juntas e se fortalece juntas. É uma troca de vida, não só de percussão”, reforça Paola Corrêa, ritmista de caixa.
Empoderamento como marca principal
As integrantes reafirmam que o projeto cumpre um papel estratégico no combate ao machismo e na promoção da igualdade de gênero.
O workshop funciona como:
– espaço de resistência ao patriarcado musical
– fomento à autoestima e ao protagonismo feminino;
– formação técnica e cultural;
– lugar de acolhimento e fortalecimento entre mulheres;
– ferramenta de inclusão social e construção identitária.
Para muitas participantes, integrar a bateria ou frequentar as aulas transformou suas percepções sobre si mesmas.
“Quando eu peguei o surdo pela primeira vez, senti que estava ocupando um lugar que por anos nos negaram. Hoje eu sei: lugar de mulher é onde ela quiser, inclusive comandando o ritmo”, diz Nicolle Costa, do surdo de terceira.
Objetivos que ecoam além do carnaval
O projeto busca:
Ensinar percussão para mulheres de todos os perfis;
Construir protagonismo feminino na música e na cultura;
Criar espaços de debate sobre gênero, direitos das mulheres e identidade;
Formar novas percussionistas e multiplicadoras culturais;
Promover pertencimento, autoestima e autonomia.
“Quando uma mulher aprende a tocar, ela entende que pode romper qualquer barreira. E quando várias mulheres tocam juntas, elas rompem essas barreiras coletivamente. É isso que fazemos no Salto Agulha”, resume Claudia Trindade, intérprete da bateria.
Seis anos de resistência, ritmo e transformação
Hoje, a Bateria Feminina Salto Agulha é muito mais do que um grupo musical: é um movimento social, uma escola de empoderamento e uma peça fundamental da evolução do samba manauara.
Em seis anos, mostrou que talento não tem gênero — e que quando as mulheres se organizam, o som ecoa mais longe, mais forte e mais bonito.
Algumas das outras baterias femininas brasileiras
Turma da Paz de Madureira (TPM) – Rio de Janeiro
A TPM é considerada a primeira escola de samba totalmente formada por mulheres. Entre seus cerca de 600 componentes, há uma bateria com ritmistas mulheres em todos os naipes, incluindo surdos, caixas e tamborins.
A presidente da TPM, Bárbara Rigaud, afirma que a escola é “um espaço em que as mulheres podem expressar seus desejos e suas ideias”, e destaca que enfrentam preconceito, principalmente de quem pensa que bateria “é lugar de homem”.
No ensaio e no desfile, a TPM constrói uma mensagem clara de empoderamento feminino: “Lugar de mulher é onde ela quiser”, diz Rigaud.
Batuque das Guerreiras – Unidos de Padre Miguel (Rio de Janeiro)
Outra bateria exclusivamente feminina de destaque é a Batuque das Guerreiras, ligada à escola de samba Unidos de Padre Miguel.
Galeria do Samba, idealizada por Vivian Pitty e Mestre Dinho, a bateria reúne cerca de 90 mulheres, algumas oriundas de outras escolas tradicionais.
Segundo Vivian, a ideia é mostrar que as mulheres podem tocar qualquer instrumento da bateria, mesmo os tradicionalmente considerados “pesados”, como surdo ou caixa.
Ela ressalta ainda o caráter de afirmação: “a gente quer mostrar que mulher tem capacidade para desfilar onde ela quiser, inclusive num espaço majoritariamente masculino”.
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