A cidade em que as crianças não brincam é um sanatório de adultos. A cidade em que os adultos só trabalham é um presídio de crianças. Poucos parecem considerar essa questão como urgente e necessária.
No idioma iorubá, a palavra eré (grafada no Brasil como erê) define a brincadeira, o ato de brincar, o divertimento. Nas culturas encantadas do Brasil, erê passou a ser sinônimo de criança. Para as umbandas, os espíritos infantis. Para os candomblés, um estado de semiconsciência que remete a um temperamento brincalhão, infantil.
É interessante perceber como “ser criança” se define pelo ato de brincar. O erê é aquele que brinca e cura o mundo brincando.
Vivemos tempos estranhos, em que a “adultização” das crianças anda ao lado da infantilização dos adultos. Tempos em que a submissão da vida ao capital gera sociedades ancoradas no desejo do consumo, aquele que se esgota quando algo é consumido (o carro, o celular de última geração, o brinquedo eletrônico, o corpo do outro, o próprio corpo…) e outro objeto (coisas e pessoas coisificadas) é imediatamente desejado. Um ciclo de frustração, euforia, desencanto e morte.
Para brincar, é preciso a disponibilidade de tempo e espaço que permite a invenção da vida. Que criança tem isso hoje? Aquelas vitimadas pela brutal desigualdade brasileira são obrigadas a trabalhar em lavouras, esquinas, sinais de trânsito. As que
tem condições sociais melhores andam atoladas em múltiplas atividades, reféns do consumo do objeto vendido pronto, e confinadas entre muros concretos e/ou imaginários; erguidos de cimentos e medos. Exceções parecem confirmar a regra.
As cidades que deveriam proporcionar a circulação de saberes são cada vez mais pensadas para garantir a circulação de mercadorias e monstros sobre rodas (estranha sociedade a nossa, que sacraliza o carro e profana o rio). As ruas como espaços de interação social estão agonizando.
Não bastasse tudo isso, somos ainda submetidos a diatribes esdrúxulas de políticos obscurantistas, saudosos do século XVIII, defendendo o trabalho infantil. Às crianças deve ser garantido o direito de brincar, coisa que deveria fazer parte até do planejamento urbano dos municípios.
A meninada precisa da arrelia dos folguedos e brincadeiras, antes que restem aos erês apenas aplicativos que rodem o pião que não tem mais chão, pulem amarelinhas virtuais e empinem a pipa que não conhece o céu. O adulto também; mas isso já é outro papo. A encantação do mundo, enfim, passa pela afirmação radical da rua como espaço de três “efes”: folguedo, flozô e furdunço.
