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Rota de fuga de Flávio abriga foragido do 8/1 e foi usada por outros bolsonaristas

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Por Bruno Ribeiro

(Folhapress) – Se Flávio Bolsonaro (PL-RJ) de fato entrou na Argentina a partir de Foz do Iguaçu (PR), antes de fugir para Miami, como informou o governo de Javier Milei, o senador e sua família passaram por uma região de forte presença bolsonarista e com histórico de apoio político a integrantes do grupo mesmo depois que ações golpistas os tornaram alvo de ordens de prisão.

Dias depois da eleição que deu a vitória a Lula (PT), carros com adesivos da campanha do senador e bandeiras do Brasil fazem parte da paisagem em Foz. Em algumas cidades da região da tríplice fronteira, o senador chegou a ter 70% dos votos válidos no segundo turno, de acordo com o TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

Um dos foragidos mais notórios do 8 de Janeiro que permanecem na região é o ex-assessor parlamentar Leonardo Rodrigues de Jesus, 43, o Léo Índio, primo dos filhos mais velhos de Jair Bolsonaro. Ele está em Porto Iguaçu, do lado argentino, desde 2025.

A Folha esteve no endereço que ele declarou ao STF (Supremo Tribunal Federal) em março de 2025. Um homem que estava no local com seu cão disse que nenhum Leonardo vivia ali. No mesmo dia, Léo Índio deu entrevista a uma TV argentina.

“Me alegrou muito saber que meu primo saiu do Brasil, porque o destino dele seria o cárcere”, disse à TV. Na conversa, ele chamou os eventos de 8 de Janeiro de “manifestação pacífica” e, sem evidência alguma, disse que os atos só terminaram em vandalismo por causa da ação de infiltrados.

Ao longo de três dias em Foz, a reportagem ouviu outras histórias de foragidos. A funcionária de uma loja disse que uma vizinha também havia se mudado para a cidade argentina. Uma motorista contou que um amigo, que também cruzou a fronteira, não pôde voltar para o enterro da mãe. Todos afirmaram considerar as penas injustas e criticaram a cobertura jornalística da tentativa de golpe. Nenhum quis dar entrevista.

Em 2024, o STF contabilizou 61 foragidos na Argentina em decorrência da tentativa de golpe, mas não detalhou quantos haviam entrado no país por terra nem por onde.

Dos 5 bolsonaristas mais notórios que buscaram o exterior para evitar a Justiça, 3 escolheram passar por Foz: Flávio, Carla Zambelli e Silvinei Vasques, ex-diretor-geral da Polícia Rodoviária Federal.

Os outros dois chegaram aos Estados Unidos de avião: Eduardo Bolsonaro, diretamente, e Alexandre Ramagem, ex-diretor da Abin, depois de cruzar por terra a fronteira de Roraima com a Guiana.

Zambelli e Silvinei foram de carro até Foz. A ex-deputada dirigiu de São Paulo até o oeste paranaense, cruzou a ponte para a Argentina e, de lá, seguiu para os Estados Unidos e depois para a Itália. Tal qual Flávio, valeu-se de um passaporte italiano — que permitiu que ela permanecesse na Europa até o momento.

Já Silvinei foi preso no aeroporto de Assunção, no Paraguai, ao tentar embarcar para El Salvador. Sua tornozeleira foi encontrada três dias depois na rodoviária de Ciudad del Este, vizinha a Foz.

No caso de Flávio, não está claro como ele chegou à Argentina. Na terça (27), emissoras argentinas filmaram uma van brasileira no aeroporto de Porto Iguaçu e disseram tratar-se da van do senador e de sua família.

A empresária dona da van, procurada pela Folha, recusou-se a dar entrevista. Queixou-se de que o nome da empresa estava nos jornais e relatou ter sido ameaçada por petistas, sem dar detalhes. Também não quis dar explicações detalhadas e disse não saber por que o advogado Willer Tomaz — sócio de Flávio e, como ele, alvo de investigação por suspeita de lavagem de dinheiro –, segue a empresa nas redes sociais.

Foz do Iguaçu, cidade turística, tem uma comunidade conectada de guias de viagem e operadores de turismo — como a dona da van filmada na Argentina, cuja empresa tem dois veículos. Nos grupos de WhatsApp, mensagens a que a reportagem teve acesso são de saudade do tempo de Jair Bolsonaro e de elogio à pessoa que de fato levou Flávio ao aeroporto.

Motoristas que já disseram ter transportado bolsonaristas como Nikolas Ferreira (PL-MG) ou o ex-ministro Paulo Guedes passaram a ser “suspeitos” da condução da viagem nestes grupos. Um deles, Paulo Barbosa Oliveira Neto, 36, depois de conversar com a reportagem e tratar a suspeita como piada, publicou no Instagram que havia dado entrevista. Em seguida, publicou na mesma rede uma foto antiga dele com Flávio.

Ainda há lacunas sobre as circunstâncias da saída do senador. Não se sabe como ele deixou Brasília, que percurso fez, com ajuda de quem e que meios de transporte usou. Passados mais de três dias, a Polícia Federal divulgou apenas um comunicado sobre o caso, no qual tratou das limitações para detê-lo sem ordem de prisão.

A Folha apurou que a unidade da PF em Foz, voltada para coibir o transporte de mercadorias ilegais — do contrabando ao tráfico de drogas e armas –, não foi acionada para apoiar a apuração, conduzida em Brasília.

O prefeito de Foz, general Joaquim Silva e Luna (PL), foi ministro da Defesa no governo Michel Temer (MDB) e, sob Bolsonaro, dirigiu a Itaipu Binacional e presidiu a Petrobras. Em uma das principais avenidas da cidade funcionou no segundo turno o “QG 100% Bolsonaro”, loja pintada de verde e amarelo, com a foto do ex-presidente e o lema “Deus, Pátria, Família”.

A iniciativa, que funcionou como ponto de concentração de apoiadores da eleição de Flávio, foi do deputado federal Vermelho (PL-PR), que tem base eleitoral na região, com apoio do senador eleito Filipe Barros (PL-PR) e de outros bolsonaristas. Nem o prefeito nem os dois parlamentares responderam aos pedidos de entrevista, feitos diretamente ou por meio de suas assessorias de imprensa.

Eleito deputado federal mais votado do Paraná, Jeffrey Chiquini (Novo), disse avaliar que o sucesso da direita na região se deve à ligação da população com o agro. “A sensação térmica no oeste paranaense é que todo mundo é de direita. Quem é de esquerda não põe a cabeça para fora”, afirmou.

Ele avalia ainda que o apoio da região a Flávio, mantido mesmo após a fuga e a carta golpista do senador, decorre da percepção de que o momento é de conflito. “Eles entenderam que o momento é de perseguição. É um momento de guerra e, na guerra, vale tudo.”

Para o deputado, a região tem origens no agro e é muito conservadora, e esses seriam os motivos do sucesso do bolsonarismo. Na sexta-feira (30), entretanto, o QG 100% Bolsonaro montado pelos parlamentares havia sido pichado com ataques ao bolsonarismo.





ICL Notícias

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