A edição 54 da Revista Liberta chega ao público neste sábado (26), dando nome aos bois e apontando o papel da imprensa hereditária na normalização do discurso bolsonarista. O esforço caminha em uma direção perigosa: naturalizar o absurdo, poupar adjetivos antirrepublicanos a quem não tem qualquer apreço pela democracia e esquecer quem é o “irmãozão” de Daniel Vorcaro.
Mirando o abismo que se impõe diante dos nossos olhos, Rodrigo Viana critica a cobertura eleitoral da imprensa tradicional, que parece ter deixado de lado qualquer compromisso com valores democráticos. Já Heloísa Villela, em meio aos detalhes sórdidos do caso Master, estrategicamente revelados a conta-gotas pelo noticiário, destaca como o nome de Flávio Bolsonaro tem sido poupado do escândalo, mesmo quando muitos dos caminhos indicam que o destino é Roma.
Se o assunto é o que a imprensa não está dizendo, a coluna de Jamil Chade usa um exemplo para mostrar também o poder daquilo que ela diz. O colunista revisita o genocídio de Ruanda, em 1994, quando discursos de ódio difundidos livremente pelas rádios do país colaboraram para o acirramento da violência e para a normalização da perseguição étnica.
Não o subestimem!
A coluna de Juca Kfouri soa como um alerta: “políticos sobrevivem a tudo, até à morte”. A história oferece exemplos não apenas no Brasil, mas também no mundo. Políticos declarados “mortos” após grandes escândalos de corrupção ou derrotas acachapantes nunca são, de fato, enterrados. Se não voltam para puxar os pés por aí, algum herdeiro ou emissário assume a missão.
Getúlio Vargas teve seu Estado Novo encerrado em 1945, mas sua “morte” política teve vida curta: voltou a ser eleito em 1950. O legado getulista depois foi continuado por Leonel Brizola. Já Jânio Quadros renunciou à Presidência em 1961, mas foi ressuscitado ao assumir a Prefeitura de São Paulo em 1986. A questão é: é preciso defender a democracia sem perder de vista que aqueles que a ameaçam não desaparecem tão facilmente.
A edição 54 da Revista Liberta conta também com as colunas de João Cezar de Castro Rocha, Gabriela Varella, Adriana Ferreira Silva, Luís Costa Pinto, Paulo César Teixeira, Leonardo Boff e Gustavo Cabral. A charge fica por conta de Nelson Cruz, que também assina a arte de capa. Parte do conteúdo também está disponível para não assinantes.
