Por Cleber Lourenço
A tentativa do governo de controlar a tramitação da proposta que trata do fim da escala 6×1 esbarrou na resistência do presidente da Câmara, Hugo Motta. Nos bastidores, o PT tentou garantir ao deputado Rubens Júnior a relatoria da PEC como forma de segurar o conteúdo do texto.
A negociação envolvia uma troca direta. O Palácio do Planalto retiraria a urgência constitucional do projeto de lei que trata do tema, que hoje tem poder de travar a pauta, em troca do comando da relatoria na comissão de mérito.
A leitura dentro do governo é objetiva: quem relata controla o texto. E a comissão de mérito é o ponto onde propostas desse tipo costumam ser alteradas sob pressão de setores empresariais.
Por isso, a escolha de Rubens Júnior era tratada como estratégica. A avaliação era de que, com ele na relatoria, seria possível incorporar pontos do projeto de lei à PEC e evitar mudanças de mérito consideradas sensíveis.
A articulação contou com a participação de Arthur Lira, que tentou construir uma ponte com Motta. Não funcionou.

Motta rejeitou a proposta e indicou que prefere um nome do centrão, sem alinhamento direto ao governo. A decisão também passa por um fator político imediato: a irritação com a urgência constitucional enviada pelo Executivo.
A avaliação no entorno do presidente da Câmara é de que o governo tentou impor ritmo à força. A resposta foi endurecer.
Hoje, a aposta de Motta é bancar o confronto. Mesmo com risco de travamento da pauta, ele avalia que o desgaste será dividido com o Planalto.
Do lado do governo, a urgência tem outra leitura. Em entrevista ao Valor Econômico concedida nesta quarta-feira (22), o ministro Guilherme Boulos afirmou que o objetivo foi impedir que o tema fosse empurrado para depois das eleições.
“Quando o governo envia o PL com regime de urgência, não era apenas uma opção entre PL ou PEC. Era uma proposta de colocar um limite de tempo nesse processo”, disse.
“O que o governo quer, seja por PL ou por PEC, é acabar com a escala 6×1”.
Boulos também apontou resistência dentro do Congresso. “A gente sabe que tem gente no Congresso que queria empurrar com a barriga”.
Na prática, o impasse revela duas estratégias em choque. O governo tenta acelerar a tramitação e manter controle sobre o conteúdo. A Câmara reage para preservar o domínio da pauta e evitar precedentes de pressão via urgência constitucional.
Sem acordo, o risco para o Planalto aumenta. Sem relatoria alinhada, a PEC pode ser alterada ainda na comissão de mérito. E, com a urgência mantida, a pauta da Câmara pode travar, cenário que Motta diz estar disposto a enfrentar.