Por Cleber Lourenço
Os primeiros atos oficiais da eleição de 2026 mostraram neste domingo (16) estratégias distintas dos candidatos para a corrida ao Planalto. Lula retornou ao ABC paulista para mobilizar sua história política; Flávio Bolsonaro escolheu Copacabana para tentar reproduzir um dos principais palcos de Jair Bolsonaro, mas sem Michelle Bolsonaro, Nikolas Ferreira e Silas Malafaia presencialmente; enquanto Ronaldo Caiado e Romeu Zema fizeram da segurança pública a principal vitrine de suas largadas.
Não houve acaso na escolha dos lugares. Antes de apresentar programas completos ou mergulhar em propostas, os principais candidatos usaram o primeiro domingo de campanha para construir imagens. Lula procurou a própria história. Flávio ocupou um cenário consagrado pelo pai. Caiado transformou Goiás em cartão de visitas. Zema foi a uma região de Minas Gerais onde precisa crescer. Renan Santos escolheu o lugar onde começou sua militância estudantil.
O primeiro dia também mostrou um assunto atravessando diferentes candidaturas: segurança pública. Flávio, Caiado e Zema fizeram do tema uma parte central de seus discursos. Lula respondeu prometendo criar um Ministério da Segurança Pública. A disputa começou, portanto, não apenas pelos votos, mas também pela definição dos assuntos que devem organizar a eleição.

Lula retorna ao lugar onde sua trajetória começou
Lula abriu a campanha no Estádio 1º de Maio, na Vila Euclides, em São Bernardo do Campo. É difícil encontrar um cenário mais associado à sua biografia política. Foi ali, nas grandes assembleias metalúrgicas do fim dos anos 1970, que o então líder sindical se transformou em personagem nacional.
Quase cinco décadas depois, voltou ao mesmo lugar como presidente em busca de um novo mandato.
Lula discursou por cerca de 35 minutos diante das arquibancadas lotadas e de parte do gramado ocupada. A Associated Press registrou mais de 10 mil pessoas no estádio. A expectativa anunciada anteriormente pelos organizadores era reunir entre 20 mil e 30 mil.
A campanha explorou a memória sindical sem transformar o ato apenas em uma celebração do passado. Lula falou de emprego, renda, jovens, mulheres e soberania e procurou estabelecer comparações entre seu governo e o de Jair Bolsonaro.
Também entrou diretamente no terreno que seus adversários escolheram para a largada.
Lula prometeu criar um Ministério da Segurança Pública, separando a área do atual Ministério da Justiça e Segurança Pública. O movimento mostrou que o Planalto não pretende entregar aos candidatos de direita o domínio do tema durante a campanha.
Houve ainda uma atenção evidente ao eleitorado feminino. Janja participou do ato, assim como Marina Silva e Simone Tebet, e a violência contra as mulheres apareceu no discurso presidencial.
A religião também teve espaço. O pastor evangélico Kleber Lucas participou do evento, e Lula mencionou Deus diversas vezes durante sua fala. O gesto ocorre em um terreno eleitoral no qual o presidente enfrenta há anos maior resistência e que novamente será disputado voto a voto.
A soberania completou a mensagem. Em meio às tensões recentes entre Brasil e Estados Unidos, Lula falou sobre minerais estratégicos e defendeu que a exploração dessas riquezas esteja subordinada aos interesses brasileiros.
O cenário, as falas e os personagens escolhidos para o palanque deixaram clara a tentativa de combinar duas campanhas: a recuperação da memória política que construiu Lula e a necessidade de responder às disputas de 2026.
Flávio ocupa Copacabana, mas sem importantes puxadores de público do bolsonarismo
A cerca de 430 quilômetros de São Bernardo, Flávio Bolsonaro fez um movimento diferente. Se Lula voltou a um palco construído por ele próprio, Flávio escolheu um palco construído politicamente pelo pai.
Copacabana foi durante os últimos anos um dos principais termômetros da capacidade de mobilização de Jair Bolsonaro. Foi ali que o ex-presidente reuniu algumas de suas maiores manifestações no Rio de Janeiro e consolidou uma estética que se repetiria em atos pelo país: verde e amarelo, bandeiras nacionais, trio elétrico e discursos contra as instituições de Brasília.
Flávio tentou ocupar esse espaço no primeiro dia.
A presença do pai foi substituída por uma gravação reproduzida para os apoiadores. No palco estavam dirigentes partidários e parlamentares como Valdemar Costa Neto, Rogério Marinho, Alfredo Gaspar, Sóstenes Cavalcante, Carlos Jordy, Altineu Côrtes e Chris Tonietto.
Mas três personagens importantes para a mobilização bolsonarista não estavam ali.
Michelle Bolsonaro, Nikolas Ferreira e Silas Malafaia não participaram presencialmente do ato. Malafaia enviou uma mensagem gravada. Michelle permaneceu em Brasília, onde participou do lançamento de candidaturas e declarou apoio a Flávio. Nikolas deverá entrar na campanha em agendas posteriores, especialmente em Minas Gerais.
As ausências importam porque Copacabana não foi escolhida como um lugar qualquer. O ato funcionou como um primeiro teste da capacidade de Flávio de ocupar um espaço que, até agora, estava diretamente associado ao pai.
Uma medição independente estimou 8,9 mil pessoas na manifestação. O cálculo foi realizado pelo Monitor do Debate Político da USP e pelo Cebrap, em parceria com a More in Common, a partir de imagens aéreas e ferramentas de análise da concentração de público.
É um primeiro número concreto para uma pergunta que acompanhará Flávio durante a campanha: quanto da força de mobilização construída por Jair Bolsonaro pode ser transferida para o filho?
No discurso, Flávio deixou clara a escolha de sua principal bandeira. Falou de PCC e Comando Vermelho, prometeu enquadrar as duas facções como organizações terroristas e tratou de domínio territorial do crime organizado, feminicídio e violência urbana.
Também atacou impostos, preços dos alimentos e endividamento das famílias, prometeu cortar cargos e despesas federais e explorou as fraudes no INSS para atingir o governo.
Antes de chegar a Copacabana, afirmou em uma transmissão pela internet ter recebido cerca de 1.800 ameaças de morte e disse que faria campanha usando colete à prova de balas. Não apresentou naquele momento elementos que permitissem verificar o número mencionado.
Flávio começou, assim, tentando estabelecer uma continuidade clara com o pai, mas sob uma condição que será testada nas próximas semanas: terá de demonstrar que consegue transformar uma herança política em capacidade própria de mobilização.
Caiado transforma Goiás em vitrine
Ronaldo Caiado começou o domingo em uma missa em Goiânia e depois seguiu para uma extensa carreata pelo Entorno do Distrito Federal.
Passou por Águas Lindas, Santo Antônio do Descoberto, Novo Gama, Valparaíso, Cidade Ocidental e Luziânia. Mais do que percorrer municípios, Caiado escolheu apresentar o estado que governou como argumento eleitoral.
A segurança pública está no centro dessa estratégia.
O candidato pretende usar os indicadores de Goiás para sustentar que seu modelo pode ser reproduzido nacionalmente. Por isso, a largada não ocorreu em Brasília ou São Paulo, mas no território em que ele pode reivindicar resultados administrativos como próprios.
O primeiro dia, no entanto, também expôs uma questão política dentro da chapa.
Gilberto Kassab, presidente do PSD e candidato a vice, não participou da agenda. Dias antes, havia afirmado que o centrão estava com Lula e avaliado como “zero” a possibilidade de Flávio Bolsonaro vencer a eleição.
Caiado precisou responder. Reafirmou que é oposição a Lula e procurou afastar qualquer interpretação de que as declarações de Kassab representariam sua candidatura.
É uma contradição que a campanha terá de administrar: Caiado tenta ocupar um espaço de oposição ao governo enquanto divide a chapa com um dos políticos mais identificados com a capacidade de transitar entre diferentes governos e campos partidários.
Zema começa por território onde precisa avançar
Romeu Zema escolheu Montes Claros, no norte de Minas Gerais.
A decisão também carrega uma leitura eleitoral. Zema não começou onde já é mais forte, mas em uma região na qual a direita enfrenta historicamente maiores dificuldades.
Depois de participar de uma missa, caminhou pelo centro e visitou o Mercado Municipal. O discurso seguiu a mesma trilha aberta por Flávio e Caiado: segurança pública.
Zema prometeu construir um “superpresídio” no norte do país para líderes de organizações criminosas, defendeu endurecimento da legislação penal, ampliação do sistema prisional e delegacias especializadas para mulheres.
Também colocou o Supremo Tribunal Federal na campanha. Citou Gilmar Mendes e fez referência ao contrato mantido pelo escritório ligado à família do ministro Alexandre de Moraes com o Banco Master.
Duas ausências marcaram a agenda: Eduardo Girão, candidato a vice, e Mateus Simões, governador de Minas Gerais, não acompanharam Zema.
Ao escolher Montes Claros, Zema também indicou uma necessidade diferente daquela de Flávio. Enquanto o candidato do PL precisa demonstrar que herdou a capacidade de mobilização do bolsonarismo, o ex-governador mineiro precisa provar que consegue ultrapassar as fronteiras eleitorais nas quais construiu sua carreira.
Renan Santos volta ao início da própria trajetória
Renan Santos escolheu o Largo São Francisco, no centro de São Paulo, para abrir sua campanha.
Diante da Faculdade de Direito da USP, o candidato do Missão procurou construir uma narrativa parecida, em escala diferente, com a utilizada por Lula no ABC: voltar ao lugar onde sua história política começou.
Renan ingressou na faculdade em 2003 e não concluiu o curso, mas foi ali que iniciou sua militância estudantil. A campanha passou a explorar essa origem como parte de sua apresentação nacional.
O ato reuniu personagens ligados à trajetória do MBL e do Missão, entre eles Kim Kataguiri, Amanda Vettorazzo e Arthur do Val.
A escolha da faculdade também provocou reação. A UNE, o Centro Acadêmico XI de Agosto e outras entidades estudantis haviam protestado contra a utilização política do local.
Antes da abertura da campanha, a equipe de Renan procurou ainda a Polícia Federal para relatar uma ameaça de morte publicada por um perfil anônimo que dizia pertencer a um aluno da USP. Não havia confirmação da identidade do autor.
Renan tenta fazer algo que Flávio, Caiado e Zema também buscaram neste domingo, cada um à sua maneira: transformar uma origem política, um território ou uma marca de atuação em argumento presidencial.
Candidaturas menores começam pelo corpo a corpo
Augusto Cury, do Avante, iniciou sua campanha em Santa Luzia, na região metropolitana de Belo Horizonte.
Estreante em eleições, o escritor adotou uma estratégia diferente dos principais candidatos de direita. Criticou o ambiente de confronto político e prometeu evitar ataques pessoais, apresentando-se como uma candidatura de conciliação.
Cury declarou patrimônio de R$ 242,28 milhões à Justiça Eleitoral e aparece com 2% das intenções de voto na pesquisa Quaest mais recente.
Samara Martins, da UP, escolheu Guaianases, na zona leste de São Paulo. Fez caminhada, porta a porta e panfletagem a partir da estação José Bonifácio, numa largada voltada à periferia e aos trabalhadores.
Hertz Dias, do PSTU, dividiu o dia entre atividades de rua na feira da Vila Matilde e na avenida Paulista, passagem por São José dos Campos e lançamento de candidaturas do partido na capital.
Edmilson Costa, do PCB, concentrou sua principal atividade em uma agenda digital.
São campanhas com estruturas muito menores, e o primeiro dia refletiu essa diferença. Em vez de grandes palanques, a aposta foi em contato direto, militância organizada e redes sociais.
A campanha presidencial começou, portanto, com estratégias distintas, mas algumas preocupações comuns. Segurança apareceu nos discursos de Flávio, Caiado e Zema e obrigou Lula a responder já no primeiro ato. Religião atravessou agendas de candidatos diferentes. E a escolha dos lugares mostrou uma tentativa de transformar geografia em mensagem política.
No ABC, Lula procurou lembrar de onde veio. Em Copacabana, Flávio começou a testar quanto consegue carregar da força política do pai. Em Goiás, Caiado apresentou seu governo como credencial. No norte de Minas, Zema foi atrás do eleitor que ainda precisa conquistar. No Largo São Francisco, Renan tentou converter sua própria origem política em símbolo.
Foi menos um domingo de apresentação de programas do que de apresentação dos personagens que cada campanha pretende colocar diante do eleitor nas próximas semanas.