A Síria publicou os resultados de sua primeira eleição parlamentar desde a queda do governo do ex-presidente Bashar al-Assad, revelando que a maioria dos novos membros da Assembleia Popular reformulada são muçulmanos sunitas e homens. A eleição foi marcada por denúncias de falta de representatividade de gênero e de outras religiões do país.
Apenas 4% dos 119 membros selecionados na votação indireta são mulheres, e só dois cristãos estavam entre os vencedores, gerando preocupações sobre governabilidade, inclusão e justiça. A eleição representa um momento marcante na frágil transição do país após quase 14 anos de guerra, mas críticos afirmam que ela favorece figuras bem relacionadas e provavelmente manterá o poder concentrado nas mãos dos novos governantes da Síria, em vez de abrir caminho para uma mudança democrática genuína.
Na votação de domingo, cerca de 6 mil membros de colégios eleitorais regionais escolheram candidatos a partir de listas pré-aprovadas, parte de um processo para produzir quase dois terços do novo órgão de 210 assentos. O presidente Ahmed al-Sharaa selecionará posteriormente o terço restante.
“Essas eleições indiretas não representam a pluralidade da sociedade síria, com meros 4% de mulheres e apenas dois [candidatos] cristãos, por exemplo. O pleito ficou aquém de eleger legisladores que vão representar a todos no Parlamento, vigiar o governo”, afirma Mohamed Nadir, professor de história global na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
“Mas sabíamos que depois de 14 anos de guerra civil, a derrubada de Assad, essas eleições não seriam perfeitas, mas as possíveis.”
“O outro terço que ficou a ser nomeado pelo presidente pode contemplar as minorias alauitas, drusos, cristãos, que ficaram de fora, é uma oportunidade para ele pacificar o país. Mas se esse terço for para os amigos de Ahmed al-Shara, o Parlamento sírio será bastante desequiibrado”, afirmou ele ao Brasil de Fato.
Resultados
Os muçulmanos sunitas representam cerca de 75% dos sírios. O antigo regime de al-Assad, que foi derrubado em dezembro após uma guerra civil de quase 14 anos, era liderado em grande parte por sírios da minoria alauíta. As autoridades recorreram a um sistema de votação indireta em vez do sufrágio universal, aludindo à falta de dados populacionais confiáveis após a guerra, que matou centenas de milhares de sírios e deslocou milhões.
Alegando razões políticas e de segurança, as autoridades adiaram a votação em áreas fora do controle do governo, incluindo partes do norte e nordeste da Síria controladas por curdos, bem como a província de Suwayda, controlada pela minoria drusa. Essas suspensões deixaram 21 cadeiras vazias.
À AFP, o porta-voz eleitoral Nawar Najmeh disse que o estado estava “levando a sério” a ideia de ter “cédulas suplementares” para preencher as cadeiras da assembleia. Reportando de Damasco, Osama Bin Javaid, da Al Jazeera, disse: “Se você perguntar aos drusos no sul ou aos curdos no norte, eles dirão que [as eleições] não foram representativas. Se você perguntar às pessoas nas grandes cidades, como Aleppo, Damasco, Hama e outras partes do país, elas estão esperançosas de que esta seja a primeira vez que uma eleição de verdade acontece.”
Em 10 de março, os curdos da Síria e Damasco concordaram em integrar as instituições civis e militares administradas pelos curdos no nordeste do país ao estado até o final do ano, mas as negociações para a implementação do acordo estão estagnadas. Atrasos na implementação do acordo de 10 de março significaram que ainda não havia cronograma para as eleições em Raqqa e Hasakeh, de acordo com Najmeh.

Najmeh disse que a escolha do presidente talvez “compensasse” alguns componentes sub-representados da sociedade síria, mas rejeitou a ideia de um sistema baseado em cotas. A ativista política e de direitos humanos Nour al-Jandali, que foi selecionada para uma cadeira na cidade de Homs, no centro da Síria, foi citada pela AFP dizendo que os novos legisladores “têm uma grande responsabilidade”.
Ela destacou os desafios que a nova legislatura enfrenta, incluindo “como restabelecer um Estado construído com base na liberdade, cidadania e justiça”, acrescentando que “as mulheres devem ter um papel real e ativo” na elaboração de políticas públicas. Política.
Os confrontos na segunda-feira (6) na cidade de Aleppo, no norte do país, entre o exército sírio e as Forças Democráticas Sírias (FDS), apoiadas pelos EUA, evidenciaram a situação precária que a Síria ainda enfrenta. O Ministério da Defesa sírio afirmou que o exército foi realocado em várias linhas de frente com as FDS no nordeste da Síria após um aumento nas tensões, segundo a Reuters.
Testemunhas disseram que o exército havia isolado anteriormente dois distritos da cidade de Aleppo sob controle das FDS, provocando protestos dispersos de moradores, com confrontos esporádicos continuando nos arredores dos dois bairros. Uma autoridade síria disse à Al Jazeera em árabe que três agentes de segurança foram mortos nos combates.