Por Cleber Lourenço
A vitória do PL nas eleições deste domingo (4) colocou o partido no caminho para receber mais de R$ 1 bilhão do Fundo Eleitoral em 2030, tomando como referência os valores distribuídos neste ano e a manutenção das regras atuais. Cálculo feito pelo ICL Notícias mostra que apenas o crescimento das bancadas da legenda na Câmara e no Senado acrescenta cerca de R$ 226,2 milhões às parcelas do fundo vinculadas à representação no Congresso.
O aumento ocorre enquanto a cúpula e parlamentares do partido enfrentam investigações e questionamentos sobre a destinação de dinheiro público. O presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, é investigado pela Polícia Federal por sua atuação na indicação de 21 emendas parlamentares que somam R$ 119,2 milhões. A PF também apura o envolvimento de deputados da legenda nas indicações.
O PL já foi o maior beneficiário do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) em 2026, quando recebeu R$ 881,7 milhões dos R$ 4,96 bilhões distribuídos aos partidos. A eleição deste domingo aumentou dois dos componentes utilizados para definir quanto cada legenda recebe: o tamanho das bancadas na Câmara e no Senado.
Pelas regras atuais, 48% do fundo são divididos proporcionalmente à representação dos partidos na Câmara e outros 15% conforme a representação no Senado. Outros 35% dependem da votação obtida para deputado federal, enquanto os 2% restantes são divididos igualmente entre as legendas.
Na distribuição deste ano, os 98 deputados considerados no cálculo garantiram ao PL cerca de R$ 454,9 milhões. O partido elegeu 121 deputados no domingo, 23 a mais. Aplicado o mesmo valor do FEFC, o crescimento acrescenta aproximadamente R$ 106,8 milhões à parcela da Câmara.
No Senado, a legenda recebeu R$ 137,8 milhões com uma representação de 15 parlamentares. O PL chegará a 28 senadores na próxima legislatura, diferença que representa outros R$ 119,4 milhões na distribuição.
Somadas, apenas as parcelas vinculadas às duas Casas do Congresso chegam a aproximadamente R$ 819 milhões. O valor ainda não inclui os recursos distribuídos conforme a votação para deputado federal nem a parcela igualitária entre os partidos.
Mantida apenas a participação que o PL teve em 2026 na fatia vinculada aos votos para a Câmara, o total destinado à legenda já ultrapassaria R$ 1,1 bilhão em valores atuais. A cifra final dependerá do desempenho do partido no cálculo dessa parcela e do tamanho do Fundo Eleitoral aprovado para 2030.
Valdemar é investigado por R$ 119 milhões em emendas
A perspectiva de aumento no financiamento público das campanhas ocorre no momento em que o presidente do PL está no centro de uma investigação sobre outra fonte de recursos públicos: as emendas parlamentares.
A Polícia Federal apura a atuação de Valdemar na indicação de 21 emendas que somam R$ 119,2 milhões. Embora não exerça mandato, documentos analisados pelos investigadores apontaram o presidente da legenda como responsável político pelas indicações.
O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, determinou a suspensão das emendas e o bloqueio de bens de Valdemar até o limite do valor investigado. A PF também apura a participação dos deputados Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), Luiz Carlos Motta (PL-SP) e Capitão Alden (PL-BA), cujos nomes aparecem formalmente nas indicações.
Os investigadores buscam esclarecer se os parlamentares tinham conhecimento da atuação de Valdemar, concordaram com as indicações ou tiveram seus nomes utilizados. O próprio dirigente já admitiu participar das discussões sobre o destino das emendas da bancada.
Em julho, Valdemar afirmou que alguns deputados “cedem” parte de suas emendas para que o partido sugira onde os recursos serão aplicados. Ao prestar esclarecimentos posteriormente ao STF, sua defesa afirmou que ele apenas apresenta sugestões políticas e não controla formalmente uma cota de emendas. A resposta foi encaminhada por Dino à PF.
TSE já reconheceu irregularidade em recursos do PL
O partido também acumula questionamentos relacionados diretamente aos fundos públicos destinados às campanhas. Em outubro de 2025, o Tribunal Superior Eleitoral reconheceu que o diretório nacional do PL deixou de aplicar corretamente recursos que deveriam ter sido destinados a candidaturas negras nas eleições municipais de 2020.
Embora tenha aprovado as contas com ressalvas, o TSE determinou que a legenda compensasse R$ 14,26 milhões do Fundo Eleitoral e cerca de R$ 814 mil do Fundo Partidário, com a destinação dos valores a candidaturas negras nas eleições seguintes. A recomposição começou no pleito deste ano.
Na campanha de 2026, recursos do Fundo Eleitoral também foram destinados por candidatos do PL à Estratégia Comunicações, empresa ligada a uma ex-assessora do deputado Mario Frias (PL-SP) e relacionada a uma rede de perfis anônimos investigada pela Justiça Eleitoral.
A empresa recebeu R$ 80 mil da campanha de Frias e R$ 180 mil da candidata Vanessa “Negona do Bolsonaro”. A investigação eleitoral envolve a atuação da rede de perfis, e não há decisão da Justiça Eleitoral que considere ilegais os pagamentos realizados pelas duas campanhas.
Emendas de Flávio também são questionadas
Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato do partido à Presidência, também chegou à eleição com emendas de sua autoria submetidas a investigações ou questionamentos de órgãos de controle.
Entre os casos estão R$ 666 mil destinados a uma entidade posteriormente classificada pela Receita Federal como “inexistente de fato” e R$ 4 milhões para um projeto esportivo cuja execução passou a ser investigada pela Controladoria-Geral da União.
Flávio afirma que não participa da escolha das empresas responsáveis pela execução dos projetos financiados pelas emendas.
O resultado das urnas amplia agora o poder financeiro de um partido que já concentrou a maior parcela do Fundo Eleitoral de 2026. Com 121 deputados e 28 senadores, o PL chegará à próxima disputa nacional com uma representação no Congresso capaz de lhe garantir, pelas regras atuais, uma fatia ainda maior do financiamento público das campanhas.
