Rua Bráulio Guimarães, 21h15 de domingo, 20 de setembro. É apenas mais uma das vias internas meio soturnas do bairro de Santo Amaro, Zona Sul de São Paulo. Um automóvel Hyundai HB20 Sedan, branco, estaciona diante de um apenas mais um dos imóveis discretos da vizinhança. As câmeras de segurança da rua capturam as imagens de alguns homens descendo do carro (a Polícia Civil não divulgou quantos eram), forçando o portão e entrando na casa-alvo. Clima óbvio de assalto. Ali funciona o escritório político do ex-vereador Milton Leite (União Brasil), que presidiu a Câmara Municipal de São Paulo por seis anos e ao longo de três décadas construiu vasta influência política nos poderes Executivo e Legislativo da maior metrópole latino-americana. Se tornou especialmente influente durante os mandatos de João Doria e Bruno Covas, do PSDB, e de Ricardo Nunes, do MDB.
Uma vizinha, que se despedia do namorado na calçada, ouviu o estrondo do ferro cedendo e acionou a Polícia Militar pela emergência 190. Quando os PMs chegaram, os intrusos já tinham ido embora. Levaram os HDs (hard disks) que armazenavam as imagens das câmeras de segurança do prédio e também de computadores encontrados ali. Deixaram para trás R$ 19.271 em dinheiro vivo, quatro cartões bancários, talões de cheque, cópia da CNH e do RG do ex-vereador Milton Leite, um cartão de “bilhete único municipal” e uma bolsa Prada (se for verdadeira, e não uma falsificação, mercadoria avaliada em pelo menos R$ 5 mil). Leite está preso desde a sexta-feira, 18 de setembro, depois de passar 38h foragido. O Ministério Público paulista suspeita que ele é o operador do Primeiro Comando da Capital (PCC) no sistema de ônibus da maior cidade do país.
Ladrões comuns não desprezam R$ 19 mil – nem os trocados de 271 reais, em espécie. Meliantes singelos, invasores de residências, não deixam cartões bancários, documentos de identificação pessoal ou mesmo bolsas de grife sobre as mesas e poltronas da casa arrombada. Criminosos “descuidistas” não arrombam imóveis para carregar exclusivamente os discos rígidos que guardam o registro de quem entrou e saiu daquele endereço nos últimos meses e outros arquivos; tampouco vasculham pastas com documentos específicos como se soubessem o que procuravam. Quem faz isso não é ladrão. É faxineiro. É sempre alguém em desespero precisando apagar o rastro de quem frequentou o escritório do amigo “lindão” do governador Tarcísio de Freitas. Em janeiro de 2024, durante um evento na zona sul de São Paulo, apoiadores começaram a chamar Milton Leite de “lindo”. Tarcísio entrou na brincadeira e quis lacrar:
— Que o Milton é querido, tudo bem, a gente já sabia. Agora, lindão? Mas é o seguinte, eu estava olhando melhor, Milton. Se é para ganhar o coração do Miltão, é lindão mesmo!
Palavras ditas não voltam à boca de quem não a fecha.
O furto no escritório político de Milton Leite está registrado no 11º DP (Santo Amaro), a perícia foi acionada e a Secretaria da Segurança Pública confirmou a apreensão dos itens deixados no local. O imóvel pertence à Lesimo (Sonda Projetos e Construção Ltda.), empresa da qual o ex-vereador é sócio, segundo o próprio advogado dele, Aloísio Lacerda Medeiros. O endereço não constava dos 66 locais visitados pela Operação Vectura Corrupta na quinta-feira, 17 de setembro. A operação foi a que cumpriu mandados de busca, apreensão e prisões para se investigar a integração entre o PCC e a máfia do transporte público paulistano. O imóvel também não estava no rol de dez endereços atribuídos a Milton Leite que a Enel forneceu à SSP antes da operação. Donde se deduz que quem invadiu o escritório sabia que a polícia não tinha passado por lá e sabia o que havia lá dentro. Ninguém arromba um portão a esmo para levar HDs e documentos. Isto é óbvio e ululante.
Até a noite de segunda-feira, 21, a Polícia Civil não atribuiu formalmente a autoria do furto à facção criminosa PCC. Mas, quem além dos faccionados, em São Paulo, teria interesse em sumir com documentos e o registro visual dos visitantes do escritório do homem que a Justiça descreve como “responsável pela operação de empresas controladas pelo PCC”?
Como a polícia chegou a Milton Leite
A trilha que leva ao ex-presidente da Câmara paulistana é tortuosa. Em junho de 2023, uma apreensão de drogas em Itaquaquecetuba, na Grande São Paulo, colocou nas mãos da Polícia Civil celulares de integrantes do PCC. Da análise desses aparelhos saiu a descoberta de que a facção não se limitava ao tráfico: lavava dinheiro, negociava frotas e mandava em empresas de ônibus. A investigação cresceu até apontar que 12 das 22 concessionárias do transporte coletivo da capital estariam sob controle direto ou indireto do crime organizado – Transwolff, Alfa Rodobus, Allianz, Auto Viação Transcap, Imperial, MoveBus, Norte Buss, Pêssego, Spencer, Transunião, Qualibus/UPBus e A2 Transportes, segundo a lista que consta dos autos.
O nome de Milton Leite emergiu de duas fontes. A primeira, um áudio encontrado num celular apreendido no qual ele é citado como interlocutor em assuntos de transporte. A segunda, depoimentos de policiais militares à Corregedoria da PM, nos quais o ex-vereador é descrito como “o dono de fato” da Transwolff – a empresa que já havia sido alvo de operação por lavagem de dinheiro em 2024. Foi com base nisso que a 8ª Vara Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo decretou a prisão temporária de Leite por 30 dias. A própria representação policial reconhece o que a defesa explora: não há, até aqui, prova documental de pagamento ou vínculo societário. O caso contra Milton Leite é rico em testemunhos e gravações. É exatamente por isso que HDs com documentos e imagens de segurança vale mais do que R$ 19 mil deixados sobre o sofá do imóvel invadido.
A Operação Vectura Corrupta cumpriu 16 mandados de prisão temporária e 18 de busca e apreensão em 12 cidades. Entre os presos estão Levi dos Santos Oliveira, ex-presidente da SPTrans – a estatal que fiscaliza as empresas de ônibus da capital –, e Danilo Marco Morgado Silva, candidato a deputado estadual pelo PL. Em Sorocaba, num imóvel ligado a um ex-assessor de Leite, a polícia encontrou R$ 280 mil e US$ 89 mil em espécie, cerca de R$ 738 mil ao câmbio do dia. A origem do dinheiro está sob investigação.
Leite sumiu na noite anterior à operação. Funcionários da casa dele, na Zona Sul, disseram aos policiais que o patrão saíra para “compromissos de campanha”. Ficou 38 horas na condição de foragido, gravou vídeo dizendo-se inocente e se entregou por volta das 16h de sexta-feira, em Mogi das Cruzes. “Eu sou inocente de todas as acusações. Eu acredito na Justiça e no trabalho da polícia. Temos a oportunidade agora de provar tudo o que foi dito”, declarou. Passou pela audiência de custódia no sábado, teve a prisão mantida, foi ao hospital com queixa de pressão alta e dormiu na cadeia pública. A Transwolff, por sua vez, afirma que ele jamais teve participação societária ou administrativa na empresa.
O “lindão” do governador
Milton Leite entrou na Câmara Municipal de São Paulo em 1997. Reelegeu-se seis vezes. Presidiu a Casa seis vezes. Durante quase três décadas, foi o homem que fazia a máquina legislativa paulistana andar – ou parar – ao gosto de quem ocupasse o Palácio do Anhangabaú. Foi peça-chave da gestão de Ricardo Nunes e, por extensão, do projeto político do governador Tarcísio de Freitas para São Paulo.
Circula desde quinta-feira o vídeo em que Tarcísio, num evento oficial, refere-se ao vereador como “Miltão” e “lindão”, entre risos: “Que o Milton era querido, tudo bem, a gente já sabia. Agora, lindão?”. Noutra ocasião, o governador teria falado da “parceria enorme” que mantinha com o ex-presidente da Câmara – declaração registrada pela imprensa e que merece ser cotejada com o registro original. O afeto público de Tarcísio por Leite não é crime. Mas é fato político, e dos mais relevantes: o governador que se apresenta ao país como candidato da lei e da ordem, que faz da guerra ao crime organizado bandeira eleitoral, tinha por “lindão” o homem que o Ministério Público de São Paulo hoje aponta como operador do PCC no transporte público da capital.
Tarcísio não é investigado. Ricardo Nunes ainda não é investigado. O poder público paulistano, porém, conviveu por anos com uma estrutura que, segundo a Polícia Civil, deixou o PCC assumir mais da metade das empresas de ônibus da cidade. Ou ninguém viu, ou alguém não quis ver. As duas hipóteses são graves.
Por que Chicago
Nos anos 1920, Al Capone não governava Chicago. Governava quem governava Chicago. O prefeito William Hale Thompson, o “Big Bill”, eleito e reeleito com dinheiro e capangas da Outfit, deixava a cidade funcionar como funcionava. O contrabando de bebida pagava a polícia, a polícia protegia o contrabando, e a prefeitura fingia surpresa a cada esquina ensanguentada. Capone caiu por sonegação fiscal, não pelos assassinatos. E a Outfit, longe de morrer com ele, aprendeu a lição e migrou do álcool para o que dava dinheiro limpo: sindicatos, transportadoras, lavanderias, jukeboxes, cassinos de Las Vegas. O crime organizado descobriu que o negócio não é o crime. O negócio é o serviço público concedido.
São Paulo, 2026, repete o roteiro. O PCC não precisa da boca de fumo quando pode ter a linha de ônibus. Uma concessionária de transporte recebe subsídio público bilionário, movimenta dinheiro em espécie todos os dias, emprega milhares de pessoas, compra frotas, contrata seguros e, se tiver o político certo à mesa, ganha a licitação seguinte. É lavanderia, cofre e curral eleitoral no mesmo CNPJ. A polícia sustenta que a facção financiou campanhas a prefeito e a vereador em 2024. Big Bill Thompson reconheceria o modelo.
A diferença entre Chicago e São Paulo reside em Al Capone. Ele tinha de matar para mandar. O PCC descobriu que basta ter o presidente da Câmara. Se Milton Leite for o que a Justiça diz que é, o crime organizado não infiltrou a política paulistana: foi convidado a entrar pela porta da frente, com o governador chamando-o de lindão. E, quando o Estado finalmente bateu à porta, alguém apareceu na noite de domingo para levar embora o retrato de quem esteve lá.

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