O governo de Donald Trump exigiu que “dissidentes políticos” fossem autorizados a participar das eleições presidenciais de 2026, no Brasil, como condição para reduzir as tarifas impostas contra bens brasileiros.
A condição fez parte de uma das propostas enviadas ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva, ainda em 2025 e que lista 21 pedidos ao país. A informação foi revelada pelo jornal O Estado de S. Paulo e confirmada pelo ICL Notícias. No documento, exigia-se ainda que pessoas que tivessem supostamente sido “arbitrariamente detidas” pudessem ser soltar para participar do pleito.
O documento condicionava a retirada de tarifas a um compromisso do Brasil por “eleições livres e justas” em 2026. O governo ainda deveria se comprometer a “não realizar prisões arbitrárias ou limitar a participação no processo eleitoral por parte de dissidentes políticos”.
De acordo com negociadores brasileiros, o tema jamais prosperou, já que foi considerada como inaceitável como base de uma tratativa com o governo Lula. O documento, de outubro de 2025, acabou sendo abandonado e o chanceler Mauro Vieira indicou que o Brasil não teria condições sequer de debater essas propostas.
Naquele momento, Trump falava abertamente sobre uma ofensiva que estaria ocorrendo para julgar Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de estado. O gesto foi considerado como uma ingerência na política doméstica nacional e o Brasil não cedeu.
Na avaliação de interlocutores, a proposta americana foi o primeiro sinal concreto por parte da Casa Branca de uma ingerência para ajudar a família Bolsonaro. O texto traz, no fundo, um reconhecimento do argumento usado por Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo de que existiria uma suposta “ditadura” no Brasil.
As tarifas de 50% colocadas sobre produtos nacionais ainda poderiam ser retiradas se o Brasil aceitasse comprar aviões da Boeing, exigência que também tinha sido feita pelos EUA para fechar um acordo comercial com o Reino Unido e outros países.
Nas 21 exigências, os EUA também pediam que o Brasil se comprometesse a informar sobre todos os embarques de terras raras destinadas para a China.
2a proposta retirou eleição, mas manteve terras raras
Sem sucesso, três meses depois, Trump voltou a fazer uma oferta. Desta vez, sem a exigência eleitoral. Mas pediu que o Brasil barrasse investimentos chineses no setor de terras raras e minérios, além de abrir de forma plena o mercado nacional para bens americanos, como forma de negociar uma eventual redução nas tarifas que poderiam impor sobre o Brasil.
O ICL Notícias obteve com exclusividade a proposta enviada ao governo brasileiro pela equipe de Trump, apresentada ainda no início de 2026, quando as investigações contra o Brasil estavam em andamento. Nela, a gestão Trump exigia uma espécie de capitulação de diversos setores da economia nacional, em troca apenas de uma redução de tarifas que poderiam ser impostas sobre produtos brasileiros.
Os americanos exigiam que políticas digitais consultassem, primeiro, as empresas americanas. Também queriam compromissos radicais do país em setores como plataformas, carros e produtos industriais.
Para observadores, o gesto era uma espécie de chantagem. Ou o Brasil se alinhava aos EUA, ou seria punido.
A proposta americana ainda contrasta com a narrativa de Marco Rubio, secretário de Estado dos EUA, que teria sido o governo Lula que não agiu de boa-fé nas negociações.
No texto, o representante de Comércio dos EUA, Jamieson Greer, afirma que recebeu a proposta do Brasil sobre comércio – na forma de um rascunho de Declaração Conjunta, no início de novembro de 2025.
Mas rejeitou as ideias e fez questão de exigir uma suspensão praticamente da soberania nacional em diversos temas de interesse dos EUA.
“Estou desapontado que não tenhamos chegado mais perto, a despeito das nossas várias interações. Eu enfatizo que nos falamos múltiplas vezes, incluindo discussões iniciais em março, e outras em outubro e novembro depois dos avanços feitos pelos nossos líderes”, disse o embaixador, em 9 de janeiro de 2026.
“Meu time também discutiu prioridades dos EUA com contrapartes deles ao longo desse período, destacando as tarifas altas do Brasil em etanol e outros produtos, barreiras não-tarifárias, medidas de comércio digital e outras práticas injustas que limitam nossa relação econômica”, explicou.
“Como eu e meu time comunicamos verbalmente nessas várias ocasiões, nossa política não irá mudar sem melhoria significativa de acesso ao mercado e de proteção para os negócios dos EUA”, alertou.
Segundo ele, a proposta do Brasil não endereça especificamente ou substancialmente a gama de preocupações dos EUA levantada ao longo do último ano e vem com condições relativas à imediata suspensão de tarifas.
Capitulação?
Segundo diplomatas, a aceitação da proposta de 2025 seria uma “capitulação” do sistema político, da soberania e da Justiça do Brasil.
No final daquele mês, Lula e Trump teriam seu primeiro encontro, na Malásia, e o tema jamais entrou na agenda.

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