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O lobby que o Brasil finge não ver

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Há quatorze anos, Lisboa recebe um encontro que se tornou uma espécie de ritual do poder brasileiro. O Fórum de Lisboa, popularmente apelidado de “Gilmarpalooza”, reúne magistrados, parlamentares, ministros, empresários, advogados, acadêmicos e representantes de interesses diversos em uma programação que mistura debates institucionais, eventos paralelos e intensa circulação de autoridades. Oficialmente, trata-se de um espaço de reflexão sobre temas jurídicos, econômicos e políticos. Na prática, tornou-se também símbolo de um debate que o Brasil evita enfrentar de maneira madura.

André Esteves BTG, Ivan Duque Ex-Presidente da República da Colômbia e Gilmar Ferreira Mendes STF.

As críticas ao evento raramente se concentram apenas nos painéis ou nas discussões acadêmicas. O que desperta questionamentos é a dificuldade de distinguir, em muitos casos, onde termina o relacionamento institucional legítimo e onde começam as zonas cinzentas da influência, do acesso privilegiado, da hospitalidade oferecida a autoridades e da circulação de interesses privados junto a agentes públicos. O próprio apelido “Gilmarpalooza” revela como o encontro passou a ocupar um lugar simbólico no imaginário político brasileiro.

O contraponto português

A ironia institucional é evidente. O evento ocorre em Portugal, país que decidiu enfrentar o tema por meio da Lei nº 5-A/2026. A legislação portuguesa criou o Registo de Transparência da Representação de Interesses (RTRI), estabelecendo mecanismos de registro, identificação de interesses representados, deveres declaratórios e publicidade das interações entre representantes de interesses e entidades públicas. O objetivo foi dar visibilidade e permitir que a sociedade saiba quem influencia quem, em nome de quais interesses e em quais circunstâncias.

O debate brasileiro não começou agora

Da legitimidade constitucional à suspeição cultural

A discussão sobre lobby no Brasil costuma partir de um equívoco. A representação de interesses não é uma anomalia democrática, ela decorre do próprio pluralismo político. O direito de petição, a participação social e a possibilidade de cidadãos, empresas, sindicatos, entidades e organizações apresentarem demandas ao Estado são elementos inerentes à democracia constitucional.
Ainda assim aqui no Brasil, o termo “lobby” continua carregando forte conotação negativa, frequentemente associado à corrupção ou ao tráfico de influência. Tratei mais sobre isso no capítulo: Políticos e representantes patronais versus representantes laborais do livro Poder e desigualdade: O retrato do Brasil no começo do século XXI, de Cesar Calejon e André Roncaglia.

Décadas de propostas sem lei efetiva

Por isso, o debate atual não nasceu em Lisboa nem surgiu em razão do Fórum. O problema é muito mais antigo. Desde 1984, quando o então senador Marco Maciel apresentou uma das primeiras iniciativas legislativas sobre o lobby, o Congresso Nacional brasileiro acumula tentativas de regulamentação sem alcançar consenso. Segundo o levantamento da Abrig, aproximadamente quinze propostas legislativas tramitaram ao longo das últimas décadas sem produzir uma lei nacional.

A proposta mais avançada atualmente tem origem no PL 1.202/2007, de autoria do deputado Carlos Zarattini (PT/SP). Após anos de tramitação, alterações e debates, o texto aprovado pela Câmara dos Deputados chegou ao Senado Federal sob a forma do PL 2914/2022, tornando-se a principal oportunidade institucional para enfrentar uma lacuna regulatória histórica.

O PL 2914/2022 como alternativa institucional

O que o projeto regula

O mérito central do PL 2914/2022 é reconhecer explicitamente a existência da representação de interesses e estabelecer regras para seu exercício. O projeto define representação de interesse como a interação entre pessoas físicas ou jurídicas e agentes públicos destinada a influenciar processos decisórios relacionados à formulação de políticas públicas, atos administrativos, decisões regulatórias, licitações, contratos e elaboração normativa.

O alcance institucional também merece atenção. O texto abrange agentes públicos vinculados aos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário federais, além de órgãos como Tribunal de Contas da União e Ministério Público da União. Em outras palavras, procura enfrentar justamente os espaços em que decisões públicas relevantes são tomadas.

Transparência, deveres e sanções

O projeto cria deveres para representantes de interesse e agentes públicos. Entre as medidas previstas estão a identificação dos participantes das reuniões, a indicação dos interesses representados, a descrição dos assuntos tratados, a divulgação ativa de audiências e o registro de hospitalidades recebidas por autoridades. Também estabelece prazos para publicidade dessas informações e mecanismos sancionatórios para descumprimentos.

A lógica é: a influência não desaparece porque não é regulada. Ela apenas se torna menos visível. A transparência permite que a sociedade acompanhe processos que já existem e que continuarão existindo independentemente da aprovação da lei.

O papel do Senado

O futuro da proposta dependerá, em grande medida, do relatório do senador Efraim Filho (PL/PB) na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ). O Senado pode fortalecer os instrumentos de transparência, deveres, fiscalização e controle previstos no texto ou, ao contrário, esvaziá-los justamente nos pontos que transformariam a regulamentação em uma ferramenta efetiva.

A porta giratória: o ponto que o “Gilmarpalooza” escancara

O que é o problema da porta giratória

Se existe um tema que o Fórum de Lisboa ajuda a tornar visível, é o fenômeno conhecido como “porta giratória”. O conceito descreve a circulação de pessoas entre funções públicas e atividades privadas relacionadas à influência de decisões governamentais.

O problema não está no fato de alguém deixar um cargo público e seguir sua vida profissional. Isso até seria incompatível com qualquer sociedade livre. A questão surge quando conhecimento privilegiado, redes de relacionamento, acesso institucional e capital reputacional acumulados no exercício de funções públicas passam a gerar vantagens privadas sem mecanismos adequados de transparência, quarentena ou prevenção de conflitos de interesse.

Quando ex-autoridades entram no circuito privado de influência

É nesse contexto que nomes como Luiz Fernando Pezão, Rodrigo Maia e Demóstenes Torres (respectivamente ex-governador do Rio de Janeiro, ex-presidente da Câmara dos Deputados e ex-senador por Goiás) ilustram uma tensão institucional recorrente. Suas trajetórias públicas anteriores e sua posterior circulação em ambientes privados de influência evidenciam um dilema que não depende da conduta individual de qualquer personagem específico.

O ponto relevante é estrutural. Redes de relacionamento construídas dentro do Estado possuem valor econômico e político. Quando não existem regras legais para disciplinar sua utilização posterior, abre-se espaço para uma vantagem competitiva invisível ao escrutínio público. O problema não é quem conversa com autoridades, é quando a sociedade não consegue saber quem conversa, em nome de quem, com quais objetivos e sob quais condições.

O Fórum de Lisboa frequentemente se torna um símbolo dessa discussão porque reúne, em um mesmo ambiente, autoridades em exercício, ex-autoridades, representantes do setor privado, escritórios especializados e organizações interessadas em decisões públicas. A crítica institucional nasce justamente da dificuldade de distinguir influência legítima de acesso privilegiado.

Por que a regulação comparada importa?

Diversos países já enfrentaram esse dilema. Modelos internacionais combinam registros públicos, deveres declaratórios, regras de hospitalidade, sanções e períodos de esfriamento para determinadas categorias de ex-agentes públicos. O próprio estudo da Abrig identifica a quarentena como um dos temas mais controversos nas experiências comparadas e nas propostas brasileiras de regulamentação.

A experiência internacional mostra que a porta giratória não desaparece por decreto. Mas pode ser submetida a mecanismos de transparência capazes de reduzir conflitos de interesse e aumentar a confiança pública.

Nem moralismo, nem ingenuidade: regular para legitimar

Lobby precisa de luz

O erro brasileiro tem sido oscilar entre dois extremos. De um lado, a tentação de tratar qualquer interação entre setor privado e poder público como suspeita por definição. De outro, a normalização de ambientes em que relações de influência operam sem rastreabilidade adequada.

Democracias pluralistas dependem da representação de interesses. Mas a legitimidade dessa atividade exige transparência mínima: quem fala, em nome de quem, diante de qual autoridade, sobre qual tema e em qual contexto.

Transparência sem sanção é vitrine

Ao mesmo tempo, transparência isolada não basta. Como destaca a própria experiência comparada, mecanismos de divulgação precisam vir acompanhados de integridade, fiscalização e efetividade.

Sem deveres claros, sanções proporcionais, regras para hospitalidade e prevenção de conflitos de interesse, a transparência corre o risco de se transformar apenas em vitrine institucional.

Notas conclusivas

A democracia brasileira se acostumou a uma ficção conveniente: trata o lobby como pecado público, mas permite que redes de acesso operem em silêncio. Um agente público pode perder mandato, ser cassado, exonerado ou simplesmente deixar o cargo e no dia seguinte, reaparece na esfera privada vendendo aquilo que nenhuma empresa compra em edital: trânsito, intimidade institucional, atalhos e influência.

Enquanto Portugal, sede do próprio “Gilmarpalooza”, já criou regras específicas para dar nome, registro e publicidade à representação de interesses, o Brasil ainda oscila entre moralismo e omissão. O relatório do senador Efraim Filho dirá se o país quer regular a influência ou apenas continuar fingindo que ela não existe.





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